Sunday, September 30, 2012

Novas observações sobre a política carioca – Eleições 2012



Faltando poucos dias para o “pleito eleitoral” de vereadores e prefeito, no Rio de Janeiro, o cenário político é morno, sem grandes entusiamos. Isto se deve, talvez, à boa colocação de Eduardo Paes nas pesquisas, candidato à reeleição na prefeitura carioca, que detém folgadamente 55% das intenções de voto, segundo os números divulgados pela Datafolha dia 27/09/2012. Por sua vez, este resultado é fruto direto de um bem sucedido desempenho do candidato à frente da administração municipal, que interfere diretamente na vida (e no bolso) dos cariocas: melhoria no transporte de massa, com a implantação de BRSs, BRTs e bilhete único, Nota Fiscal carioca, que oferece abatimentos no valor do IPTU, e finalmente obras essenciais para a cidade – como a tão prometida por outros prefeitos e nunca realizada obra na Praça da Bandeira, para evitar o alagamento crônico que tornava esse ponto crítico do Rio um verdadeiro transtorno em épocas de chuva, bem como a construção, em parceira com o governo do estado, da estação do metrô em frente à prefeitura, que tem facilitado a mobilidade de muitos cariocas.  
O segundo colocado nas intenções de voto, o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, com cerca de 19% das intenções de voto, ainda não desistiu, parece, de tentar chegar ao segundo turno, investindo todas as suas fichas para conquistar de última hora o voto do eleitor. No entanto, percebe-se que, de uns tempos para cá, o deputado licenciado mudou drasticamente o seu discurso, não lembrando em nada aquela mesma pessoa que, em fevereiro deste ano, apoiou abertamente uma temerária e irresponsável amotinação dos bombeiros do Rio contra o governo do estado, e que teve resultados desastrosos – como a prisão dos “líderes” do movimento e a demissão de alguns bombeiros. Mais discreto, o candidato agora tem como plataforma eleitoral principal a saúde, prometendo melhorar os combalidos hospitais municipais. Também tenta “fechar” (o slogan de sua campanha é “Eu fecho com Marcelo Freixo”) com alguns setores do funcionalismo público estadual – notadamente, os professores e funcionários da UERJ, cuja greve, que se arrasta indefinidamente há bons três meses, já perdeu o sentido, o objeto e o objetivo – como forma de se posicionar contra o governador do estado. A pergunta que nos parece óbvia é se, depois de todo o fiasco em que se transformou o movimento dos bombeiros do Rio, essa categoria ainda pensa em dar seu voto ao candidato Marcelo Freixo.
O terceiro colocado nas intenções de voto para a prefeitura do Rio é a dupla Rodrigo Maia-Clarissa Garotinho, com 4% das intenções de voto. Herdeiros de uma tradição política brasileira baseada nos feudos familiares, que têm continuidade com os filhos de políticos – desde a mais conservadora orientação (Bolsonaros pai e filho), passando pelos centro-esquerdistas, como Wagner Montes, conhecido pelo bordão “Escracha”, e seu filho (futuro “Escrachinha?”), até os populistas, como a própria família Garotinho –, a dupla de jovens políticos não conseguiu convencer o eleitorado, com uma aliança que, aos olhos deste, pareceu um tanto oportunista. Afinal, Cesar Maia e os Garotinhos Anthony e Rosinha viviam às turras, durante os sucessivos mandatos de Cesar Maia como prefeito (1993-1996, 2001-2004 e 2005-2008) e de Garotinho (1999-2002) e Rosinha (2003-2006), como governadores, mais preocupados em se digladiarem politicamente.
Quanto aos vereadores, ficou mesmo a cargo do eleitor tentar separar o joio do trigo, uma vez que a tão propalada “lei da ficha limpa” está longe de ser posta em prática, pois o que se vê são candidatos que já estiveram atrás das grades voltando, graças a artifícios jurídicos os mais diversos, à arena eleitoral. O que se espera é que os eleitores façam uso do “voto consciente”, único modo de não permitir que delinquentes travestidos de políticos desfilem por essa avenida chamada Brasil.

Monday, September 24, 2012

Um texto de Jorge Luis Borges

Pierre Menard, autor do Quixote*
                                                    A Silvina Ocampo


A obra visível que este romancista deixou é de fácil e breve enumeração. São, portanto, imperdoáveis as omissões e adições perpetradas por Madame Henri Bachelier em um catálogo falacioso que certo jornal, cuja tendência protestante não é segredo, tem tido a desconsideração de infligir a seus deploráveis leitores – se bem que estes são poucos e calvinistas, quando não maçons e circuncidados. Os verdadeiros amigos de Menard têm visto com alarme esse catálogo e também com certa tristeza. Dir-se-ia que ainda ontem nos reunimos diante do mármore final e entre os agourentos ciprestes, e já o Erro trata de empanar sua Memória... Decididamente, uma breve retificação é inevitável.
Consta que é muito fácil recusar a minha pobre autoridade. Espero, porém, que não me proíbam de mencionar dois valiosos testemunhos. A baronesa de Bacourt (em cujos inesquecíveis vendredis tive a honra de conhecer o pranteado poeta) houve por bem aprovar as linhas que seguem. A condessa de Bagnoregio, um dos espíritos mais agudos do principado de Mônaco (e agora de Pittsburgh, Pensilvânia, depois de sua recente boda com o filantropo internacional  Simon Kautzch, tão caluniado, ai!, pelas vítimas de suas desinteressadas manobras), tem sacrificado “à verdade e à morte” (tais são suas palavras) a altiva discrição que a distingue, e em uma carta aberta, publicada na revista Luxe, também concede-me sua aprovação. Essas credenciais, creio, não são insuficientes.
Tenho dito que a obra visível de Menard é facilmente enumerável. Examinado com esmero seu arquivo particular, verifiquei que consta das peças que seguem:
a) Um soneto simbolista que apareceu duas vezes (com variações) na revista La Conque (números de março e outubro de 1899).
b) Uma monografia sobre a possibilidade de se construir um vocabulário poético de conceitos que não sejam sinônimos ou perífrases daqueles que conformam a linguagem comum, “mas objetos ideais criados por uma convenção e essencialmente destinados às necessidades poéticas” (Nîmes, 1901).
c) Uma monografia sobre “certas conexões ou afinidades” do pensamento de Descartes, Leibiniz e John Wilkins (Nîmes, 1903).
            d) Uma monografia sobre a Characteristica Universalis de Leibniz (Nîmes, 1904).
            e) Um artigo técnico sobre a possibilidade de se enriquecer o xadrez, eliminando um dos peões de torre. Menard propõe, recomenda, discute e acaba por rechaçar essa inovação.
            f) Uma monografia sobre a Ars Magna Generalis de Ramón Llull (Nîmes, 1906).
            g) Uma tradução com prólogo e notas do Livro da invenção liberal e arte do jogo do xadrez de Ruy Lópes de Segura (Paris, 1907).
            h) Os esboços de uma monografia sobre a lógica simbólica de George Boole.
            i) Um exame das leis métricas essenciais da prosa francesa, ilustrado com exemplos de Saint-Simon (Revue des Langues Romanes, Montpellier, outubro de 1909).
            j) Uma réplica a Luc Durtain (que havia negado a existência de tais leis), ilustrada com exemplos de Luc Durtain (Revue des Langues Romanes, Montpellier, dezembro de 1909).
            k) Uma tradução manuscrita da Aguja de navegar cultos, de Quevedo, intitulada La Boussole dês précieux.
            l) Um prefácio ao catálogo da exposição de litografias de Carolus Hourcade (Nîmes, 1914).
            m) A obra Les Problèmes d’un probléme (Paris, 1917), que discute em ordem cronológica as soluções do ilustre  problema de Aquiles e a tartaruga. Duas edições deste livro têm aparecido até hoje; a segunda traz como epígrafe o conselho de Leibniz Ne craignez point, monsieur, la tortue, e revisa os capítulos dedicados a Russell e a Descartes.
            n) Uma obstinada análise dos “costumes sintáticos” de  Toulet (N.R.F., março de 1921). Menard, recordo, declarava que censurar e louvar são operações sentimentais que nada têm a ver com a crítica.
            o) Uma transposição em alexandrinos do Cimetière Marin, de Paulo Valéry (N.R.F., janeiro de 1928).
            p) Uma invectiva contra Paul Valéry, nas Folhas para a supressão da realidade, de Jacques Reboul. (Essa invectiva, diga-se entre parêntesis, é o reverso exato de sua verdadeira opinião sobre Valéry. Este assim o entendeu, e a amizade antiga dos dois não correu perigo).
            q) Uma “definição” da condessa de Bagnoregio, no “vitorioso volume” – a expressão é de outro colaborador, Gabriele d'Annunzio, que anualmente publica esta dama para retificar os inevitáveis falseamentos do jornalismo e apresentar “ao mundo e à Itália” uma autêntica efígie de sua persona, tão exposta (em razão mesma de sua beleza e de sua atuação) a interpretações errôneas ou apressadas.
            r) Um ciclo de admiráveis sonetos para a baronesa Bacourt (1934).
            s) Uma lista manuscrita de versos que devem sua eficácia à pontuação.1
            Até aqui (sem outra omissão que uns vagos sonetos circunstanciais para o hospitaleiro, ou ávido, álbum de Madame Henri Bachelier), a obra visível de Menard, em sua ordem cronológica. Passo agora à outra: a subterrânea, a interminavelmente heróica, a ímpar. Também, ai das possibilidades do homem!, a inconclusa. Essa obra, talvez a mais significativa de nosso tempo, consta dos capítulos nono e trigésimo oitavo da primeira parte do Dom Quixote e de um fragmento do capítulo vinte e dois. Sei que tal afirmação parece um absurdo; justificar esse “absurdo” é o objeto primordial desta nota.2
            Dois textos de valor desigual inspiraram a empreitada. Um deles é o fragmento filológico de  Novalis – o de número 2005, na edição de Dresden –, que esboça o tema de total identificação com um determinado autor. O outro é um desses livros parasitários, que situam Cristo num bulevar, Hamlet na Cannebiére ou Dom Quixote em Wall Street. Como todo homem de bom gosto, Menard abominava esses carnavais inúteis, próprios, dizia, para causar somente o plebeu prazer do anacronismo, ou (o que é pior) para nos encantar com a ideia primária de que todas as épocas são iguais, ou de que são distintas. Mais interessante, ainda que de execução contraditória e superficial, lhe parecia o famoso propósito de Daudet: conjugar em uma figura, a de  Tartarín, o Engenhoso Fidalgo e seu escudeiro... Aqueles que insinuam que Menard dedicou sua vida a escrever um Quixote contemporâneo caluniam sua brilhante memória.
            Não queria compor outro Quixote – o que é fácil –, mas o Quixote. Inútil acrescentar que nunca tentou uma transcrição mecânica do original; não se propunha a copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem palavra por palavra e linha por linha com as de Miguel de Cervantes.
            “O meu propósito é simplesmente assombroso”, escreveu-me ele, de Bayonne, a 30 de setembro de 1934. “O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica – o mundo exterior, Deus, a causalidade, as formas universais – não é menos anterior e comum que meu famoso romance. A diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as etapas intermediárias de seu trabalho, e eu resolvi perdê-las”. Com efeito, não resta um só rascunho que ateste esse trabalho de anos.
            O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os mouros ou contra o turco, esquecer a História da Europa entre os anos de 1602 e 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre Menard estudou esse procedimento (sei que logrou um manejo bastante fiel do espanhol do século XVII), mas o descartou, por ser fácil demais. Antes, por impossível!, dirá o leitor. De acordo, mas a empreitada era de antemão impossível e de todos os meios impossíveis para levá-la a termo, este era o menos interessante. Ser, no século XX, um escritor popular do século XVII pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de alguma maneira, Cervantes, e chegar ao Quixote, lhe pareceu menos árduo – por conseguinte, menos interessante – que seguir sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote, através das experiências de Pierre Menard. (Essa convicção, diga-se de passagem, fê-lo excluir o prólogo autobiográfico da segunda parte do Dom Quixote. Incluir esse prólogo seria criar outro personagem – Cervantes –, mas também significaria apresentar o Quixote em função desse personagem, e não de Menard. Este, naturalmente, se negou a essa facilidade.) “Essencialmente, minha empresa não é difícil”, leio em outro lugar da carta. “Bastar-me-ia ser imortal para levá-la a cabo”. Confessarei que costumo imaginar que ele a concluiu, e que leio o Quixote – todo o Quixote – como se o houvesse pensado Menard? Noites atrás, ao folhear o capítulo XXVI – nunca tentado por ele –, reconheci o estilo de nosso amigo e como que a sua voz, nesta frase excepcional: as ninfas dos rios, a dolorosa e úmida Eco. Essa conjunção eficiente de um adjetivo moral e outro físico me trouxe à memória um verso de Shakespeare, que discutimos uma tarde:
Where a malignante and a turbanede Turk...
            Por que precisamente o Quixote?, dirá nosso leitor. Essa preferência, em um espanhol, não seria inexplicável; mas, sem dúvida, o é, num simbolista de Nîmes, devoto essencialmente de  Poe, que gerou Baudelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Edmond Teste. A carta supracitada ilumina o ponto. “O Quixote”, esclarece Menard, “interessa-me profundamente, mas não me parece, como direi?, inevitável. Não posso imaginar o universo sem a interjeição de Edgar Allan Poe:
            Ah, bear in mind this garden was enchanted!
Ou sem o Bateau ivre ou o Ancient Mariner, mas me sei capaz de imaginá-lo sem o Quixote. (Falo, naturalmente, da minha capacidade pessoal, não da ressonância histórica das obras.) O Quixote é um livro contingente, o Quixote é desnecessário. Posso premeditar sua escritura, posso escrevê-lo, sem incorrer em tautologia. Aos doze ou treze anos o li, talvez integralmente. Depois, reli com atenção alguns capítulos, aqueles que não tentarei por agora. Estudei igualmente os entremeses, as comédias, a Galatea, as Novelas exemplares, os trabalhos sem dúvida laboriosos de Persiles y Segismunda e a Viagem do Parnaso... Minha recordação geral do Quixote, simplificada pelo esquecimento e pela indiferença, pode muito bem equivaler à imprecisa imagem anterior de um livro não escrito. Postulada essa imagem (que ninguém de boa-fé me pode negar), é indiscutível que o meu problema é bem mais difícil que o de Cervantes. O meu complacente precursor não recusou a colaboração do acaso: ia compondo a obra imortal um pouco à la diable, levado por inércias da linguagem e da invenção. Eu contraí o misterioso dever de reconstruir literalmente sua obra espontânea. Meu solitário jogo é governado por duas leis polares. A primeira me permite ensaiar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda me obriga a sacrificá-las ao texto ‘original’ e a afirmar de um modo irrefutável essa aniquilação... A esses entraves artificiais, há que se somar outro, congênito. Compor o Quixote em princípios do século XVII era uma empresa razoável, necessária, talvez fatal; em princípios do século XX, é quase impossível. Não em vão, transcorreram 300 anos, carregados de complexíssimos fatos. Entre eles, para mencionar apenas um: o próprio Quixote”.
            Apesar destes três obstáculos, o fragmentário Quixote de Menard é mais sutil que o de Cervantes. Este, de um modo grosseiro, opõe às novelas de cavalaria a pobre realidade provinciana de seu país; Menard elege como “realidade” a terra de Carmen durante o século de Lepanto e de Lope. Que espanholadas não haveria aconselhado essa escolha a Maurice Barres ou ao doutor Rodriguez Larreta! Menard, com toda naturalidade, as evita. Em sua obra não existem ciganos, nem conquistadores, nem místicos, nem Felipe II, nem autos de fé. Desatende ou proscreve a cor local. Esse desdém indica um sentido novo da novela histórica. Esse desdém condena a  Salammbô, inapelavelmente.
Não menos assombroso é considerar capítulos isolados. Por exemplo, examinemos o XXXVIII da primeira parte, “que trata do curioso discurso que fez Dom Quixote das armas e das letras”. Sabe-se que Dom Quixote (como Quevedo, em passagem análoga, e posterior, d’A hora de todos) desfavorece as letras, dirigindo o pleito a favor das armas. Cervantes era um velho militar: sua falha se explica. Mas que o Dom Quixote de Pierre Menard – homem contemporâneo de La trahison dês clercs e de Bertrand Russell – reincida nesses nebulosos sofismas! Madame Bachelier considera-os uma admirável e típica subordinação do autor à psicologia do herói; outros (nada perspicazmente), uma transcrição do Quixote; a baronesa de Bacourt, a influência de Nietzsche. A essa terceira interpretação (que julgo irrefutável), não sei se me atreverei a acrescentar uma quarta, que condiz muito bem com a quase divina modéstia de Pierre Menard: seu hábito resignado ou irônico de propagar ideias que são o exato reverso das preferidas por ele. (Rememoremos outra vez sua investida contra Paul Valery na efêmera folha super-realista de Jacques Reboul.) O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico. (Mais ambíguo, dirão seus detratores; mas a ambiguidade é uma riqueza.)
É uma revelação cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cervantes. Este, por exemplo, escreveu (Dom Quixote, primeira parte, nono capítulo):

... a verdade, cuja mãe é a História, rival do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do porvir.

Redigida no século XVII, redigida pelo “engenho leigo” Cervantes, essa enumeração é um mero elogio retórico da História. Menard, em contrapartida, escreve:

... a verdade, cuja mãe é a História, rival do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do porvir.

A História, mãe da verdade; a ideia é assombrosa. Menard, contemporâneo de William James, não define a História como uma indagação da realidade, mas como sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que sucedeu; é o que julgamos que sucedeu. As cláusulas finais – exemplo e aviso do presente, advertência do porvir – são flagrantemente pragmáticas.
Também é vívido o contraste dos estilos. O estilo arcaizante de Menard – estrangeiro, por fim – padece de alguma afetação. Não porém o do precursor, que maneja com desenvoltura o espanhol corrente de sua época.
Não há exercício intelectual que não seja finalmente inútil. Uma doutrina é, no princípio, uma descrição verossímil do universo; passam-se os anos e é um mero capítulo – quando não um parágrafo ou um nome – da história da filosofia. Na literatura, essa caducidade é ainda mais notória. O Quixote – disse-me Menard – foi sobretudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão, e quiçá a pior.
Nada têm de novo essas comprovações niilistas; o extraordinário é a decisão que delas derivou Pierre Menard. Resolveu adiantar-se à vanidade que aguarda todas as fadigas do homem; cometeu uma tarefa complexíssima e de antemão fútil. Dedicou seus escrúpulos e vigílias a repetir em um idioma alheio um livro já existente. Multiplicou os rascunhos; corrigiu tenazmente e rasgou milhares de páginas manuscritas.3 Não permitiu que ninguém as examinasse e cuidou para que não lhe sobrevivessem. Em vão procurei reconstruí-las.
Tenho refletido que é lícito ver no Quixote “final” uma espécie de palimpsesto, no qual devem transparecer os rastros – tênues, mas não indecifráveis – da “prévia” escritura de nosso amigo. Desgraçadamente, somente um segundo Pierre Menard, invertendo o trabalho do anterior, poderia exumar e ressuscitar essas Troias...
“Pensar, analisar, inventar (escreveu-me também) não são atos anômalos, são a normal respiração da inteligência. Glorificar o ocasional cumprimento dessa função, entesourar antigos e alheios pensamentos, recordar com incrédulo estupor que o doctor universalis pensou, é confessar nossa preguiça ou nossa barbárie. Todo homem deve ser capaz de todas a ideias e entendo que no porvir o será.”
Menard (embora sem o querer) enriqueceu, mediante uma técnica nova, a arte detida e rudimentar da leitura: a técnica do anacronismo deliberado e das atribuições errôneas. Essa técnica de aplicação infinita nos insta a percorrer a Odisseia como se fosse posterior à Eneida, e o livro Le jardin du Centaure, de Madame Henri Bachelier, como se fosse de Madame Henri Bachelier. Essa técnica povoa de aventura os mais tediosos livros. Atribuir a Louis Ferdinand Celine ou a James Joyce a Imitação de Cristo não é uma suficiente renovação desses tênues avisos espirituais?

Nîmes, 1939





* Publicado em El jardín de senderos que se bifurcan (1941) e em Ficciones (1944). Original em espanhol disponível em: http://www.literatura.us/borges/pierre.html. Traduzido do espanhol por Isabel Pires.

1 Madame Henri Bachelier enumera também uma versão literal da versão literal que fez Quevedo da Introdução à vida devota de São Francisco de Sales. Na biblioteca de Pierre Menard não há vestígios de tal obra. Deve tratar-se de uma piada, mal interpretada, de nosso amigo.

2 Tive também o propósito secundário de esboçar a imagem de Pierre Menard. Mas como atrever-me a competir com as páginas áureas que, me dizem, prepara a baronesa de Bacourt, ou com o lápis delicado e preciso de Carolus Hourcade?

3 Recordo-me de seus cadernos quadriculados, seus negros borrões, seus peculiares símbolos tipográficos e sua letra de inseto. Ao entardecer, gostava de caminhar pelos arredores de Nîmes; costumava levar consigo um caderno e fazer uma alegre fogueira.

Tuesday, September 18, 2012

O fusquinha amarelo

Isabel Pires

Oficialmente, ainda estamos no inverno, mas os termômetros, beirando os 40 graus, resolveram adiantar – e muito – o verão para os cariocas de todas as nacionalidades. Há também os que preferem fugir do calor, buscar climas mais amenos, ou apenas outras paisagens. O fluxo intenso de carros na ponte, nos finais de semana, lembra que existe, sim, vida além-Rio. O verão fora de época lembra férias. E esperamos todos que, em janeiro e fevereiro, o calendário não resolva adiantar também o inverno.
A lembrança das férias vindouras traz à minha memória férias passadas, de verões passados. Em particular, uma, quando tinha eu 10 anos, mas tão franzina que não me davam mais do que nove. Os anos eram os de 1970 – época de “milagre econômico” no Brasil. A classe média fazia a festa com seus fusquinhas, aproveitando ao máximo o preço relativamente barato da gasolina. Um tio meu, irmão da minha mãe, não era exceção. Desde que a febre dos fuscas começou no Brasil, que ele trocava religiosamente o seu todos os anos. O daquele ano, 1977, era cor de gema de ovo, que havia substituído o anterior, azul-ferrete, que por sua vez substituíra um fusquinha cor de chocolate.
Meu tio e minha tia, ambos professores, viajavam todo final de ano com meus dois primos e a Marta, a “secretária do lar”. Iam pelo Natal e só retornavam quando o ano letivo estava prestes a começar. O percurso era comum a grande parte das famílias brasileiras que transitam entre o “Brasil do litoral” e o “Brasil-sertão”: partiam de uma grande cidade litorânea em direção a outra, bem pequena, no interior no Brasil, para reencontrar a família, os amigos, as origens enfim. Naquele ano – fins de 1977 –, não sei bem o porquê, resolveram me levar.
No dia marcado, a aventura rumo ao oeste começou às cinco horas da manhã. O inacreditável fusquinha amarelo partiu, com meu tio na direção, minha tia ao seu lado, com meu priminho no colo, meu primo maior no bagageiro, atrás do banco de trás, e eu e a Marta, folgadamente no banco traseiro do fusquinha do meu tio. Era simples perda de tempo tentar retirar meus primos dos seus respectivos lugares, o caçula, de dois anos, agarrado como carrapato ao colo da minha tia, o outro, que contava nove anos, ameaçando com unhas e dentes quem se atrevesse a retirá-lo da mala do carro. E assim o fusca seguiu, com a bagagem em cima, sobre a qual se equilibravam ainda duas bicicletas.
O fusquinha ia desbravando vagaroso a solidão da estrada, sem ultrapassar ninguém nem ser ultrapassado. Apenas o vento, zumbindo nos vidros e embaralhando os cabelos, dava-nos a sensação de não estarmos completamente sós. Meu tio parava ora aqui ora acolá, para um café, ou xixi, ou comprar frutas à beira da estrada. Quando meu priminho dormia, minha tia, sempre com o menino agarrado ao colo, trocava de lugar comigo ou com a Marta. Por volta do meio-dia, almoçamos galeto com coca-cola num desses rega-bofes de beira de estrada e seguimos, com meu tio no firme propósito de não mais parar, a fim de não atrasar mais a viagem.
À medida que o fusquinha amarelo-ovo prosseguia, o sol de verão parecia querer devorar tudo com sua boca vermelha e quente. Meu tio, escondendo-se na sombra mínima da pala de proteção do carro, adivinhava o caminho com faiscantes olhos azuis por detrás de grossas lentes de grau. Minha tia, de lenço atado no cabelo e largos óculos escuros – que ainda não eram “retrô”, mas o “último grito” da moda –, a toda hora nos oferecia água. A certa altura, porém, o tempo começou a mudar. Nuvens ameaçadoras, ávidas, apagavam a linha do horizonte à frente, enquanto as primeiras gotas começavam a cair, transformadas depois em uma cerrada cortina de água.
Um caminhão pesado, lento, surgiu em sentido contrário. Ao passar vagarosamente por nós, a imensa roda girou num movimento súbito, arremessando um pedregulho que estilhaçou todo o para-brisas do fusquinha. Não se sabe por qual mágica, minha tia rapidamente arranjou lençóis, cobrindo-nos a todos no banco traseiro – eu, Marta e os dois meninos. Um silêncio medroso reinava em meio ao frio que nos fazia tiritar. Enquanto minha tia se apegava ao seu rosário, meu tio seguia tenazmente, debaixo de cacos de vidro e grossos pingos de água.
O fusquinha pegou um atalho na rodovia e seguiu por uma pequena estrada enlameada até a cidade mais próxima. Um contratempo que nos fez passar um bom pedaço da tarde numa cidadezinha perdida num desses rincões do Brasil adentro, um mundo quase à parte, suspenso entre os parênteses das serras azuladas. Até que o para-brisas novo foi colocado e partimos, as crianças com os bolsos repletos de doces, os adultos já entediados.
Finalmente chegamos ao nosso destino, com o fusquinha amarelo quase totalmente coberto de lama. O lusco-fusco confundia as primeiras luzes da cidade com as luzes das primeiras estrelas que piscavam sobre as casas baixas. À nossa frente, também piscavam, promissoras, as férias, transformadas agora em pedaços de lembranças ora irreais, ora quase palpáveis, às vezes nítidas, às vezes cheias de lacunas, numa memória que “se esgarça, flutua, se decompõe, se compacta. Fios se atam/desatam. Fragmentos somem e reaparecem”,[i] como diz Salim Miguel, em seu belo livro memorialístico, Nur na escuridão.


[i] MIGUEL, Salim. Nur na escuridão. 2. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000, p. 165.

Wednesday, September 12, 2012

Tirésias: aparência versus transcendência

Isabel Pires

O cego Tirésias é um dos mais célebres adivinhos da mitologia grega. Muitos atribuem o seu dom à condição da cegueira. Deste modo, ele teria o poder de “enxergar a verdade” desprovida de condicionamentos (culturais, sociais, sexuais, etc.). O personagem aparece em várias tragédias do chamado “ciclo tebano”, como Rei Édipo e outras, nas quais desempenha papel-chave, com seu poder de desvendar a verdade. O dom de Tirésias, porém, não se restringe somente à adivinhação. Segundo a lenda, ele também possuía o conhecimento sobre o homem e a mulher, pois, quando jovem, ao se deparar, no monte Citorão, com um casal de serpentes copulando, teria matado a fêmea, imediatamente transformando-se em mulher e permanecendo nesta condição durante sete anos. Ao cabo deste período, ao se deparar novamente com outro casal de serpentes que copulava, Tirésias desta vez matou o macho, recuperando assim o sexo masculino. Por causa deste conhecimento, foi convocado por Zeus e Hera para decidir a controvérsia sobre quem sentia mais prazer sexual: se o homem ou a mulher. Ao afirmar que “se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com apenas uma”, Tirésias suscitou a cólera de Hera, que o cegou. Para compensá-lo, Zeus concedeu-lhe o dom da adivinhação. De acordo com outra versão do mito, foi Atenas quem o teria cegado, ao perceber que o jovem Tirésias a espiava enquanto ela tomava banho, nua, em uma fonte. Porém, atendendo a um pedido da mãe do rapaz, Atenas deu-lhe o poder de adivinhar, além de compreender a linguagem dos pássaros.
Reunindo, em uma só personagem, a condição feminina, a masculina e a da cegueira, o mito de Tirésias trabalha com o conceito de aparência, fundamental na concepção filosófica grega. Tirésias é, assim, um personagem imbuído da ética grega: a mesma que se acha presente tanto nas tragédias quanto na Filosofia. Para a filosofia platônica, pensamento dominante na cultura grega, o mundo das aparências, no qual vivemos, é um mundo enganoso, frágil, em que não se pode confiar. O mundo transcendental das ideias, ao contrário, é o mundo onde reside a Verdade, o bem supremo a que devemos almejar. Tirésias é, pois, um personagem sobretudo ético: possuindo a capacidade de “ver além das aparências” e se colocando acima delas, ele defende a transcendência que, desse ponto de vista, se confunde com a própria Verdade, por conseguinte, com o “mundo real”. Ou seja, a única “realidade” a que a Filosofia dos gregos se permitia almejar.