Wednesday, February 04, 2009

Série "entre aspas" III - Lévi-Strauss

"Nestes estabelecimentos em que o vinho está incluído no preço das refeições, cada conviva encontra diante de seu prato uma modesta garrafa com um líquido na maioria das vezes ruim. Esta garrafa é parecida com a do vizinho, como o são as porções de carne e de legumes que uma criada distribui à volta, e, entretanto, uma singular diferença de atitude se manifesta logo em relação ao alimento líquido e ao alimento sólido. Este representa as submissões do corpo e aquele, seu luxo. Um serve em primeiro lugar para alimentar, o outro para celebrar (...). É que, com efeito, diferentemente dos pratos do dia, bastante pessoais, o vinho é bastante social. A pequena garrafa pode conter exatamente um copo, o conteúdo será vertido não no copo daquele que o possui, mas no copo do vizinho, e este efetuará logo um gesto correspondente de reciprocidade. O que se passou? As duas garrafas são idênticas em volume, seu conteúdo semelhante em qualidade. Cada um dos participantes desta cena reveladora, no final das contas, não recebeu nada a mais do que se ele tivesse consumido sua parte pessoal. De um ponto de vista econômico, ninguém ganhou e perdeu. Mas acontece que existe muito mais na troca do que as coisas trocadas" (Lévi-Strauss, in: Les structures élémentaires de la parenté, 1947).

[Citado por Jean-Pierre Poulain, Sociologias da alimentação, trad. Rossana Pacheco e outros. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2004, p. 162.]

Tuesday, February 03, 2009

Papai Noel

Isabel Pires

Em uma noite escura e fria, papai Noel saiu de casa e foi perambulando sem rumo. Encontrou pelo caminho três órfãos, que o olharam com olhos súplices, mas papai Noel olhou-os sem os ver. Seguiu na penumbra, chutando folhas secas e assoviando um assovio que procurava imitar o som do vento. Ao dobrar uma esquina, tropeçou em um saco de estopa cinzento e roto, que devia ter servido para embalar carvão mas que agora estava vazio. O velho apanhou-o e jogou-o às costas, para se aquecer.
Este papai Noel não era pai de ninguém. E nem se lembrava de um dia ter sido sequer filho. Morava sozinho num cômodo escuro e frio como esta noite, à diferença de esta noite não ter fim. Do seu cômodo, papai Noel podia ver os outros cômodos entulhados uns sobre os outros, desordenadamente, mas agora ele via a imensidão escura do céu, e nela havia incontáveis pontos luminosos, também atulhados desordenadamente, uns sobre os outros.
E como estivesse já cansado de andar sem rumo, papai Noel resolveu seguir a luz de uma destas estrelas. Não era uma estrela qualquer. Era a mais ofuscante, a mais vaidosa e fugidia. E papai Noel a seguia, resignado.
E como também fosse um velho um tanto distraído, e como ainda tivesse de dividir sua atenção entre a luz da estrela e o caminho, constantemente ele tropeçava em algo. Assim, papai Noel começou a juntar dentro do saco esfarrapado tudo o que encontrava à beira do caminho. Já amanhecera e ele prosseguia em sua caminhada. O saco às costas, tocado pelos raios vermelhos no céu, estava quase todo cheio, pesado, e papai Noel seguia com dificuldade.
Parou numa praça abandonada. Sentou-se num banco em que faltava uma das tábuas. Ao seu lado, o saco, abarrotado, reclamava atenção. O velho tomou do saco e, antes de atirá-lo novamente às costas, espremeu dentro dele um pouco de poeira da praça e o saco ficou mais vermelho.
E já era noite de novo. Ele buscava a luz daquela estrela, mas não a encontrava, perdido na noite e no tempo. Caminhou assim mesmo, um largo espaço de noite. E outro dia e outra noite, papai Noel já nem mais as contava, quando a estrela caprichosa apareceu. E já era dia de novo.
Na décima terceira noite, papai Noel avistou um pequeno aglomerado, como que formando uma fila. E viu que, nela, três homens levavam oferendas e as ofertavam a uma criança que não tinha mais que treze dias.
O velho entrou na fila. Ao chegar sua vez, depositou com cuidado o saco vermelho aos pés da manjedoura e saiu devagar, como quem não quer nada. Enfiou as mãos nos bolsos das calças para enganar o frio, e voltou para casa assoviando um assovio que procurava imitar o som do vento.