Monday, September 24, 2012

Um texto de Jorge Luis Borges

Pierre Menard, autor do Quixote*
                                                    A Silvina Ocampo


A obra visível que este romancista deixou é de fácil e breve enumeração. São, portanto, imperdoáveis as omissões e adições perpetradas por Madame Henri Bachelier em um catálogo falacioso que certo jornal, cuja tendência protestante não é segredo, tem tido a desconsideração de infligir a seus deploráveis leitores – se bem que estes são poucos e calvinistas, quando não maçons e circuncidados. Os verdadeiros amigos de Menard têm visto com alarme esse catálogo e também com certa tristeza. Dir-se-ia que ainda ontem nos reunimos diante do mármore final e entre os agourentos ciprestes, e já o Erro trata de empanar sua Memória... Decididamente, uma breve retificação é inevitável.
Consta que é muito fácil recusar a minha pobre autoridade. Espero, porém, que não me proíbam de mencionar dois valiosos testemunhos. A baronesa de Bacourt (em cujos inesquecíveis vendredis tive a honra de conhecer o pranteado poeta) houve por bem aprovar as linhas que seguem. A condessa de Bagnoregio, um dos espíritos mais agudos do principado de Mônaco (e agora de Pittsburgh, Pensilvânia, depois de sua recente boda com o filantropo internacional  Simon Kautzch, tão caluniado, ai!, pelas vítimas de suas desinteressadas manobras), tem sacrificado “à verdade e à morte” (tais são suas palavras) a altiva discrição que a distingue, e em uma carta aberta, publicada na revista Luxe, também concede-me sua aprovação. Essas credenciais, creio, não são insuficientes.
Tenho dito que a obra visível de Menard é facilmente enumerável. Examinado com esmero seu arquivo particular, verifiquei que consta das peças que seguem:
a) Um soneto simbolista que apareceu duas vezes (com variações) na revista La Conque (números de março e outubro de 1899).
b) Uma monografia sobre a possibilidade de se construir um vocabulário poético de conceitos que não sejam sinônimos ou perífrases daqueles que conformam a linguagem comum, “mas objetos ideais criados por uma convenção e essencialmente destinados às necessidades poéticas” (Nîmes, 1901).
c) Uma monografia sobre “certas conexões ou afinidades” do pensamento de Descartes, Leibiniz e John Wilkins (Nîmes, 1903).
            d) Uma monografia sobre a Characteristica Universalis de Leibniz (Nîmes, 1904).
            e) Um artigo técnico sobre a possibilidade de se enriquecer o xadrez, eliminando um dos peões de torre. Menard propõe, recomenda, discute e acaba por rechaçar essa inovação.
            f) Uma monografia sobre a Ars Magna Generalis de Ramón Llull (Nîmes, 1906).
            g) Uma tradução com prólogo e notas do Livro da invenção liberal e arte do jogo do xadrez de Ruy Lópes de Segura (Paris, 1907).
            h) Os esboços de uma monografia sobre a lógica simbólica de George Boole.
            i) Um exame das leis métricas essenciais da prosa francesa, ilustrado com exemplos de Saint-Simon (Revue des Langues Romanes, Montpellier, outubro de 1909).
            j) Uma réplica a Luc Durtain (que havia negado a existência de tais leis), ilustrada com exemplos de Luc Durtain (Revue des Langues Romanes, Montpellier, dezembro de 1909).
            k) Uma tradução manuscrita da Aguja de navegar cultos, de Quevedo, intitulada La Boussole dês précieux.
            l) Um prefácio ao catálogo da exposição de litografias de Carolus Hourcade (Nîmes, 1914).
            m) A obra Les Problèmes d’un probléme (Paris, 1917), que discute em ordem cronológica as soluções do ilustre  problema de Aquiles e a tartaruga. Duas edições deste livro têm aparecido até hoje; a segunda traz como epígrafe o conselho de Leibniz Ne craignez point, monsieur, la tortue, e revisa os capítulos dedicados a Russell e a Descartes.
            n) Uma obstinada análise dos “costumes sintáticos” de  Toulet (N.R.F., março de 1921). Menard, recordo, declarava que censurar e louvar são operações sentimentais que nada têm a ver com a crítica.
            o) Uma transposição em alexandrinos do Cimetière Marin, de Paulo Valéry (N.R.F., janeiro de 1928).
            p) Uma invectiva contra Paul Valéry, nas Folhas para a supressão da realidade, de Jacques Reboul. (Essa invectiva, diga-se entre parêntesis, é o reverso exato de sua verdadeira opinião sobre Valéry. Este assim o entendeu, e a amizade antiga dos dois não correu perigo).
            q) Uma “definição” da condessa de Bagnoregio, no “vitorioso volume” – a expressão é de outro colaborador, Gabriele d'Annunzio, que anualmente publica esta dama para retificar os inevitáveis falseamentos do jornalismo e apresentar “ao mundo e à Itália” uma autêntica efígie de sua persona, tão exposta (em razão mesma de sua beleza e de sua atuação) a interpretações errôneas ou apressadas.
            r) Um ciclo de admiráveis sonetos para a baronesa Bacourt (1934).
            s) Uma lista manuscrita de versos que devem sua eficácia à pontuação.1
            Até aqui (sem outra omissão que uns vagos sonetos circunstanciais para o hospitaleiro, ou ávido, álbum de Madame Henri Bachelier), a obra visível de Menard, em sua ordem cronológica. Passo agora à outra: a subterrânea, a interminavelmente heróica, a ímpar. Também, ai das possibilidades do homem!, a inconclusa. Essa obra, talvez a mais significativa de nosso tempo, consta dos capítulos nono e trigésimo oitavo da primeira parte do Dom Quixote e de um fragmento do capítulo vinte e dois. Sei que tal afirmação parece um absurdo; justificar esse “absurdo” é o objeto primordial desta nota.2
            Dois textos de valor desigual inspiraram a empreitada. Um deles é o fragmento filológico de  Novalis – o de número 2005, na edição de Dresden –, que esboça o tema de total identificação com um determinado autor. O outro é um desses livros parasitários, que situam Cristo num bulevar, Hamlet na Cannebiére ou Dom Quixote em Wall Street. Como todo homem de bom gosto, Menard abominava esses carnavais inúteis, próprios, dizia, para causar somente o plebeu prazer do anacronismo, ou (o que é pior) para nos encantar com a ideia primária de que todas as épocas são iguais, ou de que são distintas. Mais interessante, ainda que de execução contraditória e superficial, lhe parecia o famoso propósito de Daudet: conjugar em uma figura, a de  Tartarín, o Engenhoso Fidalgo e seu escudeiro... Aqueles que insinuam que Menard dedicou sua vida a escrever um Quixote contemporâneo caluniam sua brilhante memória.
            Não queria compor outro Quixote – o que é fácil –, mas o Quixote. Inútil acrescentar que nunca tentou uma transcrição mecânica do original; não se propunha a copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem palavra por palavra e linha por linha com as de Miguel de Cervantes.
            “O meu propósito é simplesmente assombroso”, escreveu-me ele, de Bayonne, a 30 de setembro de 1934. “O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica – o mundo exterior, Deus, a causalidade, as formas universais – não é menos anterior e comum que meu famoso romance. A diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as etapas intermediárias de seu trabalho, e eu resolvi perdê-las”. Com efeito, não resta um só rascunho que ateste esse trabalho de anos.
            O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os mouros ou contra o turco, esquecer a História da Europa entre os anos de 1602 e 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre Menard estudou esse procedimento (sei que logrou um manejo bastante fiel do espanhol do século XVII), mas o descartou, por ser fácil demais. Antes, por impossível!, dirá o leitor. De acordo, mas a empreitada era de antemão impossível e de todos os meios impossíveis para levá-la a termo, este era o menos interessante. Ser, no século XX, um escritor popular do século XVII pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de alguma maneira, Cervantes, e chegar ao Quixote, lhe pareceu menos árduo – por conseguinte, menos interessante – que seguir sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote, através das experiências de Pierre Menard. (Essa convicção, diga-se de passagem, fê-lo excluir o prólogo autobiográfico da segunda parte do Dom Quixote. Incluir esse prólogo seria criar outro personagem – Cervantes –, mas também significaria apresentar o Quixote em função desse personagem, e não de Menard. Este, naturalmente, se negou a essa facilidade.) “Essencialmente, minha empresa não é difícil”, leio em outro lugar da carta. “Bastar-me-ia ser imortal para levá-la a cabo”. Confessarei que costumo imaginar que ele a concluiu, e que leio o Quixote – todo o Quixote – como se o houvesse pensado Menard? Noites atrás, ao folhear o capítulo XXVI – nunca tentado por ele –, reconheci o estilo de nosso amigo e como que a sua voz, nesta frase excepcional: as ninfas dos rios, a dolorosa e úmida Eco. Essa conjunção eficiente de um adjetivo moral e outro físico me trouxe à memória um verso de Shakespeare, que discutimos uma tarde:
Where a malignante and a turbanede Turk...
            Por que precisamente o Quixote?, dirá nosso leitor. Essa preferência, em um espanhol, não seria inexplicável; mas, sem dúvida, o é, num simbolista de Nîmes, devoto essencialmente de  Poe, que gerou Baudelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Edmond Teste. A carta supracitada ilumina o ponto. “O Quixote”, esclarece Menard, “interessa-me profundamente, mas não me parece, como direi?, inevitável. Não posso imaginar o universo sem a interjeição de Edgar Allan Poe:
            Ah, bear in mind this garden was enchanted!
Ou sem o Bateau ivre ou o Ancient Mariner, mas me sei capaz de imaginá-lo sem o Quixote. (Falo, naturalmente, da minha capacidade pessoal, não da ressonância histórica das obras.) O Quixote é um livro contingente, o Quixote é desnecessário. Posso premeditar sua escritura, posso escrevê-lo, sem incorrer em tautologia. Aos doze ou treze anos o li, talvez integralmente. Depois, reli com atenção alguns capítulos, aqueles que não tentarei por agora. Estudei igualmente os entremeses, as comédias, a Galatea, as Novelas exemplares, os trabalhos sem dúvida laboriosos de Persiles y Segismunda e a Viagem do Parnaso... Minha recordação geral do Quixote, simplificada pelo esquecimento e pela indiferença, pode muito bem equivaler à imprecisa imagem anterior de um livro não escrito. Postulada essa imagem (que ninguém de boa-fé me pode negar), é indiscutível que o meu problema é bem mais difícil que o de Cervantes. O meu complacente precursor não recusou a colaboração do acaso: ia compondo a obra imortal um pouco à la diable, levado por inércias da linguagem e da invenção. Eu contraí o misterioso dever de reconstruir literalmente sua obra espontânea. Meu solitário jogo é governado por duas leis polares. A primeira me permite ensaiar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda me obriga a sacrificá-las ao texto ‘original’ e a afirmar de um modo irrefutável essa aniquilação... A esses entraves artificiais, há que se somar outro, congênito. Compor o Quixote em princípios do século XVII era uma empresa razoável, necessária, talvez fatal; em princípios do século XX, é quase impossível. Não em vão, transcorreram 300 anos, carregados de complexíssimos fatos. Entre eles, para mencionar apenas um: o próprio Quixote”.
            Apesar destes três obstáculos, o fragmentário Quixote de Menard é mais sutil que o de Cervantes. Este, de um modo grosseiro, opõe às novelas de cavalaria a pobre realidade provinciana de seu país; Menard elege como “realidade” a terra de Carmen durante o século de Lepanto e de Lope. Que espanholadas não haveria aconselhado essa escolha a Maurice Barres ou ao doutor Rodriguez Larreta! Menard, com toda naturalidade, as evita. Em sua obra não existem ciganos, nem conquistadores, nem místicos, nem Felipe II, nem autos de fé. Desatende ou proscreve a cor local. Esse desdém indica um sentido novo da novela histórica. Esse desdém condena a  Salammbô, inapelavelmente.
Não menos assombroso é considerar capítulos isolados. Por exemplo, examinemos o XXXVIII da primeira parte, “que trata do curioso discurso que fez Dom Quixote das armas e das letras”. Sabe-se que Dom Quixote (como Quevedo, em passagem análoga, e posterior, d’A hora de todos) desfavorece as letras, dirigindo o pleito a favor das armas. Cervantes era um velho militar: sua falha se explica. Mas que o Dom Quixote de Pierre Menard – homem contemporâneo de La trahison dês clercs e de Bertrand Russell – reincida nesses nebulosos sofismas! Madame Bachelier considera-os uma admirável e típica subordinação do autor à psicologia do herói; outros (nada perspicazmente), uma transcrição do Quixote; a baronesa de Bacourt, a influência de Nietzsche. A essa terceira interpretação (que julgo irrefutável), não sei se me atreverei a acrescentar uma quarta, que condiz muito bem com a quase divina modéstia de Pierre Menard: seu hábito resignado ou irônico de propagar ideias que são o exato reverso das preferidas por ele. (Rememoremos outra vez sua investida contra Paul Valery na efêmera folha super-realista de Jacques Reboul.) O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico. (Mais ambíguo, dirão seus detratores; mas a ambiguidade é uma riqueza.)
É uma revelação cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cervantes. Este, por exemplo, escreveu (Dom Quixote, primeira parte, nono capítulo):

... a verdade, cuja mãe é a História, rival do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do porvir.

Redigida no século XVII, redigida pelo “engenho leigo” Cervantes, essa enumeração é um mero elogio retórico da História. Menard, em contrapartida, escreve:

... a verdade, cuja mãe é a História, rival do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do porvir.

A História, mãe da verdade; a ideia é assombrosa. Menard, contemporâneo de William James, não define a História como uma indagação da realidade, mas como sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que sucedeu; é o que julgamos que sucedeu. As cláusulas finais – exemplo e aviso do presente, advertência do porvir – são flagrantemente pragmáticas.
Também é vívido o contraste dos estilos. O estilo arcaizante de Menard – estrangeiro, por fim – padece de alguma afetação. Não porém o do precursor, que maneja com desenvoltura o espanhol corrente de sua época.
Não há exercício intelectual que não seja finalmente inútil. Uma doutrina é, no princípio, uma descrição verossímil do universo; passam-se os anos e é um mero capítulo – quando não um parágrafo ou um nome – da história da filosofia. Na literatura, essa caducidade é ainda mais notória. O Quixote – disse-me Menard – foi sobretudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão, e quiçá a pior.
Nada têm de novo essas comprovações niilistas; o extraordinário é a decisão que delas derivou Pierre Menard. Resolveu adiantar-se à vanidade que aguarda todas as fadigas do homem; cometeu uma tarefa complexíssima e de antemão fútil. Dedicou seus escrúpulos e vigílias a repetir em um idioma alheio um livro já existente. Multiplicou os rascunhos; corrigiu tenazmente e rasgou milhares de páginas manuscritas.3 Não permitiu que ninguém as examinasse e cuidou para que não lhe sobrevivessem. Em vão procurei reconstruí-las.
Tenho refletido que é lícito ver no Quixote “final” uma espécie de palimpsesto, no qual devem transparecer os rastros – tênues, mas não indecifráveis – da “prévia” escritura de nosso amigo. Desgraçadamente, somente um segundo Pierre Menard, invertendo o trabalho do anterior, poderia exumar e ressuscitar essas Troias...
“Pensar, analisar, inventar (escreveu-me também) não são atos anômalos, são a normal respiração da inteligência. Glorificar o ocasional cumprimento dessa função, entesourar antigos e alheios pensamentos, recordar com incrédulo estupor que o doctor universalis pensou, é confessar nossa preguiça ou nossa barbárie. Todo homem deve ser capaz de todas a ideias e entendo que no porvir o será.”
Menard (embora sem o querer) enriqueceu, mediante uma técnica nova, a arte detida e rudimentar da leitura: a técnica do anacronismo deliberado e das atribuições errôneas. Essa técnica de aplicação infinita nos insta a percorrer a Odisseia como se fosse posterior à Eneida, e o livro Le jardin du Centaure, de Madame Henri Bachelier, como se fosse de Madame Henri Bachelier. Essa técnica povoa de aventura os mais tediosos livros. Atribuir a Louis Ferdinand Celine ou a James Joyce a Imitação de Cristo não é uma suficiente renovação desses tênues avisos espirituais?

Nîmes, 1939





* Publicado em El jardín de senderos que se bifurcan (1941) e em Ficciones (1944). Original em espanhol disponível em: http://www.literatura.us/borges/pierre.html. Traduzido do espanhol por Isabel Pires.

1 Madame Henri Bachelier enumera também uma versão literal da versão literal que fez Quevedo da Introdução à vida devota de São Francisco de Sales. Na biblioteca de Pierre Menard não há vestígios de tal obra. Deve tratar-se de uma piada, mal interpretada, de nosso amigo.

2 Tive também o propósito secundário de esboçar a imagem de Pierre Menard. Mas como atrever-me a competir com as páginas áureas que, me dizem, prepara a baronesa de Bacourt, ou com o lápis delicado e preciso de Carolus Hourcade?

3 Recordo-me de seus cadernos quadriculados, seus negros borrões, seus peculiares símbolos tipográficos e sua letra de inseto. Ao entardecer, gostava de caminhar pelos arredores de Nîmes; costumava levar consigo um caderno e fazer uma alegre fogueira.

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