Os cem contos que amei ler V (In progress: serão colocados mais 20 contos nesta postagem). *Atualizados com a ortografia vigente.
81. O Homem da Areia (E. T. A. Hoffmann)
82. O gato preto (Edgar A. Poe)
83. Sem olhos (Machado de Assis)
84. Os olhos que comiam carne (Humberto de Campos)
85. As rosas (Júlia Lopes de Almeida)
86. Onde estivestes de noite (Clarice Lispetor)
87. Crianças à venda. Tratar aqui (Rosa Amanda Strausz)
88. O horrível – conto de horror (Guy de Maupassant)
89. O encontro (Lygia Fagundes Telles)
90. O defunto (Thomaz Lopes)
91. Fechado na catacumba (H. P. Lovecraft)
O Homem da Areia
E. T. A. Hoffmann
Natanael para Lothar
Vocês devem estar bem
preocupados, pois não lhes escrevo há muito tempo. Minha mãe deve estar
zangada. Clara deve estar pensando que vivo num turbilhão de prazeres e que
esqueci inteiramente sua figura angelical e doce, impressa de forma profunda em
meu coração e em minha mente.
Mas não é nada disso.
Todos os dias, a cada hora, penso em vocês e a encantadora figura de Clara
aparece e torna aparecer em meus devaneios. Seus olhos límpidos sorriem para
mim com tanta graça quanto antigamente, assim que eu entrava em casa. Mas como
poderia lhe escrever com esta violenta perturbação de espírito que me destrói a
mente?
Uma coisa horrível
aconteceu comigo! Pressentimentos inquietante, terríveis, ameaçadores,
passam-me pela cabeça…
Se – pelo menos –
você estivesse aqui, poderia ver com seus próprios olhos. Mas, tenho certeza,
vai pensar que sou um louco visionário. Para ser breve: a pavorosa visão que
tive, e cuja fatal influência tento em vão descartar, consiste simplesmente em
ter visto – no dia 30 de outubro, ao meio-dia – um vendedor de barômetros, que
entrou em meu quarto e me ofereceu seus instrumentos. Além de não ter comprado
nada, ameacei jogá-lo pelas escadas abaixo, no que partiu bem depressa.
Você pode imaginar:
unicamente circunstâncias muito particulares – e que me marcaram bem lá por
dentro – poderiam ter feito com que esse pequeno acontecimento tenha se tornado
importante. O que é verdade. Estou juntando todas as forças para lhe contar,
com calma e paciência, alguns fatos da minha infância que lhe esclarecerão tudo.
Agora, ao começar a
narrativa, posso ouvir você rindo e Clara dizendo:
Isto é criancice!
Pode rir, eu lhe
peço. Pode debochar de mim, eu lhe peço. Mas Deus do céu!... Meus cabelos ficam
de pé e tenho a impressão de que se suplico a você para debochar de mim é
porque estou em crise de desespero, de loucura, igual à de Franz Moor ao
suplicar a Daniel. Mas vamos aos fatos.
Fora da hora das
refeições, quase não víamos papai, sempre muito ocupado com seu trabalho.
Depois do jantar, servido às sete horas, à moda antiga, íamos com mamãe ao
gabinete de papai e nos sentávamos em volta da mesa redonda.
Papai fumava,
enquanto bebia grandes copos de cerveja. Às vezes, contava histórias
maravilhosas, ficando tão distraído que o cachimbo se extinguia. Cabia a mim a
tarefa de acendê-lo com um pedaço de papel, o que me divertia bastante. Outras
vezes, nos dava livros ilustrados, permanecendo imóvel e silencioso em sua poltrona,
soprando nuvens espessas de fumo, que nos envolviam como nevoeiro. Nestas
noites, mamãe ficava muito triste e às nove horas em ponto nos dizia:
– Vamos para a cama,
crianças. O Homem da Areia está chegando, posso ouvir seus passos.
Realmente, eu também
escutava aquele passo lento, arrastado, subir os degraus. Era o Homem da Areia.
Certa vez, o barulho me amedrontou demais e perguntei à mamãe, que nos
acompanhava:
– Mamãe, quem é esse Homem
da Areia que sempre nos separa do papai? Como é que ele é?
– Meu querido, não
existe nenhum Homem da Areia – respondeu mamãe. – Quando eu digo o Homem da
Areia está chegando, quero dizer apenas que vocês estão com sono sem conseguir
mais ficar com os olhos abertos, como se tivessem jogado areia em seus olhos.
A resposta não me
deixou satisfeito. Pouco a pouco, minha imaginação de criança me fez acreditar
que mamãe nos dizia aquilo para não ficarmos amedrontados, pois eu continuava a
ouvir o Homem da Areia subindo os degraus. Cheio de curiosidade, querendo saber
mais a respeito dele e do que queria conosco, crianças, perguntei por fim à
velha governanta de minha irmãzinha quem era mesmo o Homem da Areia.
– Pois é, meu pequeno
Natanael, então você não sabe? É um homem mau, que vem procurar as crianças que
não querem ir para a cama. Joga punhados de areia em seus olhos, que tombam
ensanguentados, e os apanha, os enfia numa bolsa, e os carrega para a lua para
alimentar seus netinhos. Eles estão lá, empoleirados em seu ninho, com os bicos
recurvados como o da coruja. E bicam os olhos das crianças que não são
boazinhas.
Desde então, a imagem
do Homem da Areia ficou gravada em meu espírito com cores atrozes. À noite, era
só ouvir o ruído de passos e eu tremia angustiado, com pavor. Mamãe só conseguia
arrancar de mim um grito, misturado ao meu choro:
– O Homem da Areia! O
Homem da Areia!
Corria, me refugiando
no quarto, e a terrível aparição do Homem da Areia me torturava a noite
inteira. Mais tarde, quando já tinha idade para saber que a história do Homem
da Areia, de seus netinhos e do ninho na lua, não era verdadeira, continuei
apavorado, com horror e repugnância, cada vez que eu escutava seus passos
subindo os degraus até o gabinete de papai e o bater violento da porta se
fechando.
Às vezes, demorava
demais para aparecer. Ou, então, suas vindas se tornavam frequentes. Isso durou
muitos anos e não conseguia me habituar ao pesadelo. Nada apaga de minha cabeça
a figura aterrorizante do Homem da Areia. Seu relacionamento com papai me
preocupava cada vez mais e um medo obtuso me impediau de falar a seu respeito.
Com os anos, porém,
germinou e cresceu dentro de mim o desejo de elucidar esse mistério, e ver o
misterioso Homem da Areia.
O Homem da Areia me
tinha posto na pista do maravilhoso, do fantástico, que se abrigam naturalmente
no espírito das crianças. Nada me dava mais prazer do que escutar, ou ler,
histórias aterrorizantes de feiticeiras, anões e doentes. Mas em primeiro
lugar, vinha o Homem da Areia, que eu retratava por meio de desenhos horríveis,
estranhos, nas mesas, nos armários, nos muros, com giz ou carvão.
Quando fiz dez anos,
mamãe me tirou do quarto das crianças e me cedeu um quarto pequeno, que dava
para o corredor, perto do gabinete do papai.
Tão logo soavam as
nove horas, escutávamos o desconhecido chegar e tínhamos de nos recolher
rapidamente. Lá de meu quarto o ouvia entrar no gabinete de papai, e, em
seguida, tinha a impressão de que um vapor diáfano, com cheiro estranho, se
espalhava pela casa. Minha curiosidade crescia, bem como a coragem e
determinação de conhecer a qualquer preço o Homem da Areia. Jamais, deslizando
de meu quarto até o corredor, após mamãe passar, conseguia pegá-lo de surpresa,
pois já tinha entrado assim que eu chegava ao local de onde poderia vê-lo. Afinal,
impulsionado por irresistível desejo, resolvi me esconder oportunamente no
próprio gabinete de papai e aguardar o Homem da Areia.
Certa noite, por causa
da tristeza de mamãe e do mutismo de papai, percebi que o Homem da Areia
deveria chegar. Finjo estar muito cansado, saio da sala antes das nove horas e
me escondo no cantinho perto da porta do gabinete de papai. A porta da rua
gemeu nos gonzos, passos lentos, arrastados, sonoros, atravessam o vestíbulo em
direção da escada. Mamãe passa apressadamente por mim, conduzindo as crianças.
Com cuidado, abro a porta do gabinete de papai. Ele estava sentado normalmente,
em silêncio, com as costas voltadas para a porta e não me viu. Fui, na ponta
dos pés, me esconder atrás da cortina que dissimula um guarda-roupa, colocado
bem perto da porta, onde papai pendura as vestimentas.
Os passos ressoam
cada vez mais próximo e escuto tosse, pigarro, estranho murmúrio. Meu coração
bate com força, por causa da ansiedade e da espera. Bem perto da porta, um
passo retumbante. A maçaneta gira com violência, as dobradiças rangem e a porta
é aberta ruidosamente. Embora sentindo medo, ponho a cabeça de fora, com
prudência. O Homem da Areia está no meio do gabinete defronte a papai, o clarão
das velas ilumina seu rosto. O Homem da Areia, o terrível Homem da Areia, é o
velho advogado Coppelius, que às vezes almoça conosco!
Porém a mais horrível
aparição não me causaria tanto espanto quanto me causou este Coppelius. Imagine
um homem grande, de espáduas largas, enorme cabeça deformada, com rosto lívido,
sobrancelhas peludas e grisalhas, embaixo das quais rebrilham dois olhos verdes,
arredondados como os dos gatos, o nariz gordo, grande, que tomba sobre o lábio
superior. A boca torta, que se contorce mais ainda ao compor um sorriso, quando
se formam duas manchas escarlates nas bochechas. Um som estranho, rangente, que
sai por entre os dentes cerrados.
Coppelius vestia
sempre um sobretudo cinzento, de corte antigo, paletó e culote também cinzentos,
meias pretas e sapatos com fivelas de strass.
Pequena peruca mal cobre seu pescoço, dois rolos postiços se elevam acima de
suas enormes orelhas vermelhas, grande laço bem apertado balança
perpendicularmente à sua nuca, deixando ver a fivela de prata fechar a gravata
pregueada. Todo um conjunto horrível e repelente.
Mas, o que nos
chocava mais, crianças, eram suas mãos nodosas, peludas, nos inibindo de comer
o que tocassem. Ele tinha percebido isso e se divertia tocando com as mãos, sob
qualquer pretexto, o pedaço de bolo ou a fruta madura que nossa boa mãe tivesse
posto em nossos pratos. Fazia o mesmo em dias de festa, quando
papai nos dava um
cálice de vinho açucarado. Passava rapidamente a mão pela borda do cálice ou o
conduzia até seus lábios azulados, rindo diabolicamente ao ver que ousávamos
demonstrar nossa irritação por meio de contidos soluços.
Nos chamava sempre de
“pequenas bestas” e nos proibia de abrir a boca em sua presença. Nós
amaldiçoávamos este homem odiento, repulsivo, que estragava nosso prazer quando
bem queria.
Mamãe parecia odiar
tanto quanto nós o repelente Coppelius, pois, tão logo ele aparecia, sua doce
alegria e maneiras suaves se transformavam em melancolia. Papai o tratava como
ente superior, de quem se deve suportar as manias e a quem não se pode irritar.
Bastava dizer uma palavra e seus pratos preferidos eram feitos e vinhos raros
abertos em sua homenagem.
Ao ver Coppelius, me
dei conta da verdade, terrível, ameaçadora: o Homem da Areia só podia ser ele!
Contudo, o Homem da Areia não era mais – para mim – aquele espantalho da
história da governanta, que roubava olhos de crianças para alimentar sua
ninhada de corujas na lua. Não! Era um monstro fantástico, odiento, e que, por
onde passava, levava a tristeza, a tormenta, a perdição neste mundo e no outro.
Eu permanecia
estático, como se estivesse enfeitiçado, correndo risco de ser punido se
descoberto, cabeça para fora da cortina. Papai recebeu Coppelius solenemente.
– Mãos à obra! –
Coppelius berrou com voz rascante, enquanto tirava o sobretudo.
Papai, silencioso,
taciturno, sacou o roupão, e os dois vestiram longas túnicas negras. Não reparei de onde as tiraram, papai abriu
um armário embutido de duas portas e descobri não ser o armário e, sim, um
nicho negro com fornilho. Coppelius aproximou-se dele, uma flama azul crepitou
na lareira. Todos os tipos de estranhos utensílios estavam esparsos por lá. Meu
Deus! Quando meu velho pai se inclinou sobre o fogo, me pareceu transformado.
Uma dor atroz e convulsiva contraíra suas feições honestas e doces, metamorfoseando-as
numa máscara feia, repelente, do demônio. Estava parecido com Coppelius! Esse
brandia tenazes incandescentes para retirar da fumaceira espessa massas
brilhantes e claras, as quais em seguida martelava com força. Tive a impressão
de perceber à sua volta rostos humanos, mas sem os olhos, com espantosas
cavidades negras e profundas em seu lugar.
– Olhos! Dê-me olhos!
– gritava Coppelius com voz surda, ameaçadora.
Violento pavor me fez
gritar muito alto. Saí de meu esconderijo e tombei sobre o soalho. Coppelius me
segurou:
– Pequena besta!
Pequena besta! – rosnava por entre os dentes.
Subitamente, me
levantou e jogou-me na lareira, as chamas queimando meus cabelos.
– Nós temos olhos
agora. Olhos. Belo par de olhos de criança – ciciava Coppelius.
Agarrou nas mãos um
punhado de brasas ardentes para jogá-las em meus olhos. Então, papai ergueu as
mãos unidas e suplicou:
– Mestre! Mestre!
Deixe os olhos de meu Natanael!
Coppelius riu
barulhentamente e gritou:
– Está bem! Que ele
conserve seus olhos! Que ele soluce durante todo o seu penar por este mundo!
Mas vamos observar de perto o mecanismo das mãos e dos pés!
Então me segurou com
força, fazendo minhas articulações estalarem, e girou minhas mãos e meus pés e
os tornou a girar, para lá e para cá:
– Não é bem isso!
Antes estava melhor! Este velho conhece seu ofício!
Ao murmurar assim,
Coppelius silvava também por entre os dentes, mas à minha volta tudo se tornou
confuso, sombrio. Súbita convulsão sacudiu meus ossos e nervos e desmaiei.
Um hálito doce e
quente bafeja-me a face, me despertando do sono da morte. Mamãe se inclinava
sobre mim.
– O Homem da Areia
ainda está aí? – balbuciei.
– Não, meu querido.
Já foi há muito tempo. Não vai mais machucar você – dizia mamãe, enquanto
beijava, acariciava seu filho renascido.
Por que vou continuar
fatigando você, Lothar, contando todos esses detalhes, quando tenho tantas
outras coisas importantes para narrar? Em suma, fui descoberto e cruelmente
maltratado por Coppelius. A ansiedade e o medo me causaram forte febre que me
atirou na cama durante semanas.
– O Homem da Areia
ainda está aí? – foram minhas primeiras palavras racionais, o sinal da minha
recuperação.
Ainda me falta narrar
o pior momento de minha infância, e você ficará convencido de que não é
necessário culpar meus olhos se tudo me parece descolorido, mas sim a fatalidade
sombria que estendeu – realmente – em torno de minha vida um véu de nuvens
opacas, que eu talvez só consiga dissolver através de minha morte.
Coppelius nunca mais
apareceu. Disseram que tinha saído da cidade.
Um ano se passou.
Certa noite, estávamos sentados em torno da mesa redonda, segundo nosso velho,
invariável costume. Papai, muito feliz, nos contava histórias engraçadas a
respeito das viagens que tinha feito em sua mocidade. Ao bater das nove horas,
escutamos a porta da rua girar nos gonzos e passos lentos e pesados
atravessarem o vestíbulo e subirem a escada.
– É Coppelius! – disse
mamãe empalidecendo.
– Sim. É Copellius – confirmou
papai com a voz embargada. Mamãe tinha lágrimas nos olhos:
– Mas, pai – ela se
lamuriou. – É necessário que venha aqui?
– Pela última vez –
ele respondeu. Pela última vez, eu juro. Mas vai com os garotos! Boa noite!
Fiquei petrificado,
não conseguia respirar direito. Mamãe me puxou pelo braço, ao me ver estático:
– Vem, Natanael!
Deixei que me
conduzisse até o quarto.
– Fica tranquilo.
Fica tranquilo e dorme. Dorme! – disse-me quando saía.
Porém, atormentado
pela angústia, presa de profunda inquietação, indescritível, não consegui
fechar os olhos. Via adiante de mim o odiento, horroroso Coppelius a mirar-me
com olhos faiscantes e rir com a expressão sinistra. Em vão, tentei pensar em
outra coisa.
Perto da meia-noite, estrondo
violento, qual arma de fogo, ribombou pela casa. Roçar de passos defronte à
porta de meu quarto. Em seguida, a porta da rua foi fechada estrepitosamente.
– É Coppelius! – gritei,
já fora de mim, pulando da cama. Ouviu-se um gemido. Depois, lamentações
agudas, desesperadas. Corri para o gabinete de papai. A porta estava aberta,
uma fumaceira sufocante me envolveu, a empregada gritou:
– Ai! Meu patrão! Meu
patrão!
Papai estirado no
chão. Morto. Defronte ao fornilho fumegante. Seu rosto, horrivelmente
desfigurado, estava queimando, negro. Minhas irmãs choravam, gritavam de dor à
sua volta. Mamãe desmaiara.
– Coppelius! Satanás
amaldiçoado! Você matou meu pai! – solucei até perder os sentidos.
Dois dias depois,
quando colocaram papai no caixão, suas feições haviam readquirido a calma, a
bondade de sempre. O que me consolou, pois imaginei que sua aliança com o
diabólico Coppelius o tivesse condenado à danação eterna.
A explosão tinha
acordado os vizinhos. A notícia do acontecimento se espalhou, chegando aos
ouvidos das autoridades, que tentaram intimar Coppelius a depor. Mas ele
desapareceu sem deixar vestígios.
Agora, se lhe digo
que o vendedor de barômetros era o infame Coppelius, ele não poderá como
presságio de acontecimentos funestos. Usava outras roupas, mas as feições de
Coppelius estão impressas indelevelmente em minha memória. Daí, sei que não
estou enganado. Aliás, ele nem trocou de nome. Pelo que me contaram, diz ser aqui
um mecânico piemontês, Giuseppe Coppola.
Estou determinado a
enfrentá-lo e a vingar a morte de meu pai, aconteça o que acontecer.
Não fale desse
terrível encontro com mamãe. Meus cumprimentos à doce, querida Clara.
Escreverei para Clara no que estiver mais calmo. Adeus, então etc. etc.
Clara para Natanael
É verdade que você não
me escreve há muito tempo, mas estou convencida de que continua comigo no
coração e na mente. Pois pensava em mim, com certeza, ao sobrescritar com meu nome
uma carta para Lothar. Abri a carta com alegria, e só compreendi o equívoco ao
ler estas palavras: “Ah, meu querido Lothar!”.
Não deveria ter
continuado a ler a carta e, sim, tê-la entregue a meu irmão. Porém, muitas
vezes você tinha brincado comigo, durante minha infância, por ser tão calma e
tão boa dona de casa que, se a casa ameaçasse desabar, eu teria ainda tempo de
ajeitar as cortinas antes de fugir. Entretanto, nem preciso dizer: o começo da
carta me deixou profundamente transtornada. Nem podia respirar direito, tudo se
embaralhava à minha volta. Ah, meu querido Natanael, o que seria aquela coisa
terrível que tinha acontecido com você? Nossa separação, há possibilidade de
nunca mais nos revermos? O pensamento me trespassou como aguda apunhalada.
Continuei a ler até o fim. Sua descrição do repelente Coppelius é pavorosa. Só
então soube da morte violenta, terrível, de seu velho e bondoso pai.
Meu irmão, a quem
entreguei o que lhe pertencia, tentou me tranquilizar, mas não conseguiu. O
fatídico mercador de barômetros Giuseppe Coppola me perseguia incessantemente e
– quase tenho vergonha de dizer – chegou até a perturbar meu sono, normalmente
profundo, fazendo-me ter sonhos horríveis. Todavia, já no dia seguinte, tudo me
pareceu melhor. Não fique, pois, rancoroso, meu bem amado, se Lothar disser a
você que – a despeito de seu estranho pressentimento em relação a Coppelius – eu
esteja alegre e despreocupada, como sempre.
Vou falar com toda a
franqueza: creio que todas essas coisas horríveis e apavorantes, relatadas por
você, existem apenas em sua imaginação e que a parcela de fatos reais e concretos
é muito pequena. O velho Coppelius era, sem dúvida, muito pouco atraente e como
não gostava de crianças, as crianças também começaram a não gostar dele.
Era natural que sua
mente de criança associasse o terrível Homem da Areia, da história da governanta,
ao velho Coppelius, o qual, mesmo se
você não acreditasse no Homem da Areia, permanece em sua memória como
fantástico monstro, inimigo jurado das crianças. Seu comportamento misterioso,
durante a noite, em companhia de seu pai, queria dizer, apenas, que eles
praticavam alquimia, secretamente. O que não podia deixar de afligir sua mãe,
pois deviam gastar muito dinheiro com isso. Sem contar o fato de que – como
acontece aos pesquisadores de laboratório –, desejoso de ter profundos
conhecimentos, seu pai se afastava da família. Seu pai – por causa de alguma
imprudência – causou a própria morte e Coppelius não é o culpado disso.
Sabe, ontem perguntei
ao nosso vizinho, o boticário, que tem muita experiência, se esse tipo de
manipulação química poderia causar explosões mortais e súbitas. “Sem dúvida”,
me respondeu, descrevendo com sua maneira verborrágica e detalhada como isso
poderia acontecer, empregando grande número de palavras bizarras, que não pude
reter em minha memória.
Agora você vai ficar
zangado com sua Clara. Você vai dizer: o espírito gélido de Clara é insensível
à radiação do mistério, que tantas vezes envolve o homem com seus braços
invisíveis. Você vai dizer que ela vê apenas a superfície multicolorida desse
mundo, ficando satisfeita como criança ao ver a fruta de casca dourada, que
armazena em seu interior veneno mortífero.
Ah, meu querido
Natanael, você não acredita, então, que até as almas serenas, francas,
despreocupadas, possam abrigar o pressentimento de uma potência hostil e
sombria que, oculta lá dentro de nós, tenta nos destruir?
Mas desculpe esta
jovem simples, se ouço tentar fazer você inferir o que penso desses tormentos
interiores. Sem dúvida, não conseguirei encontrar palavras adequadas e você vai
debochar de mim, não por causa de minhas ideias, mas da maneira desastrosa com
que as exprimo.
Se existe potência
que seja pérfida, sinistra e hostil em seus objetivos, e que tenha conseguido
colocar dentro de nós sua garra para nos apreender e nos arrastar por caminho
perigoso, nefasto – o qual espontaneamente não percorreríamos –, se tal
potência realmente existe, teria de se desenvolver dentro de nós mesmos,
enquanto nós evoluímos. Teria de ocupar o nosso eu. Só assim nós acreditaríamos
nela, cedendo-lhe o que necessita para cumprir sua missão secreta. Se tivermos
bastante firmeza e o espírito alimentado pelas coisas luminosas da vida para
conhecermos o que é, em verdade, esta influência estranha e hostil e para
seguirmos firmemente pelo caminho onde nos levam nossos gostos e nossa vocação,
então esta potência sinistra se cansa com o esforço que faz para se apropriar
de nossas características e se apresentar a nós como nosso próprio reflexo num
espelho.
É também certo,
acrescenta Lothar, que esta sombria força material, desde que nos abandonemos
voluntariamente a ela, atrai e fixa em nós certas imagens estranhas que o mundo
exterior joga em nosso caminho. De tal maneira, que somos nós mesmos que
atiçamos o espírito que parece falar através destas formas, exatamente como nós
temos a loucura de as imaginar. É o fantasma de nosso próprio eu que, através
de seu íntimo relacionamento conosco e de sua profunda influência sobre nossa
alma, nos precipita no inferno ou nos transporta aos céus.
Você bem vê, meu
querido Natanael, nós conversamos em profundidade, eu e Lothar, sobre as forças e as potências
obscuras, e ainda que o problema permaneça misterioso para mim, penosamente lhe
expus o essencial. Não consegui compreender bem as últimas palavras de Lothar,
praticamente adivinhei o que desejava dizer. Parece-me, todavia, que tem razão.
Suplico a você: tire de sua cabeça o feio advogado Coppelius e o mercador de barômetros Giuseppe Coppolla. Convença-se de que tais pessoas não têm poder sobre você. É acreditando nos hostis poderes deles que você pode, em verdade, torná-los nefastos. Se sua carta não demonstrasse em todas as linhas a profunda confusão de sua alma, se o seu estado não me afligisse até o fundo do coração, eu poderia, afinal, brincar a respeito do Homem da Areia advogado e do mercador de barômetro Coppelius. Readquira, eu lhe peço, a serenidade! Resolvi ser o seu gênio tutelar e se o terrificante Coppola viesse atormentar você em sonhos, eu o expulsaria com grandes explosões de riso. Não temo, nem um pouquinho, nem ele nem suas terríveis mãos. Advogado, não me convenceria a me privar de gulodice; Homem da Areia, não me arrancaria os olhos.
Sempre sua, meu bem-amado
Natanael, etc. etc.
Natanael para Lothar
Foi muito
desagradável para mim Clara ter aberto e lido a carta que escrevi para você
recentemente, embora fosse equívoco provocado por distração minha.
Ela me escreveu uma
carta recheada de filosofia abstrusa, em que, abreviadamente, me demonstra que
Coppelius e Coppola só existem em minha mente, fantasmas de meu próprio eu, e
se transformarão em pó deste que eu os reconheça como pó. Aliás, é difícil
acreditar que esse espírito – que cintila às vezes como um sonho doce e
gracioso, lá no fundo daqueles olhos de criança, claros e sorridentes – seja
capaz de distinções tão teóricas e pedantes. Invoca a sua autoridade. Vocês
falaram de mim. Portanto, você dá a ela cursos de lógica para ensinar-lhe que
tudo deve ser dissecado e passado pela peneira. Não tenha esse cuidado. Aliás,
é evidente que o mercador de barômetros Giuseppe Coppola não é, absolutamente,
o velho advogado Coppelius. Estou no curso de física de um professor que acaba
de chegar aqui. Tem o mesmo nome do célebre naturalista Spalanzani e é de
origem italiana, já conhece Coppola há muitos anos. Aliás, o sotaque dele trai
sua origem piemontesa. Coppelius era alemão, mesmo não sendo alemão de verdade,
segundo me parece. Não me sinto totalmente tranquilo. Você e Clara têm razão ao
me considerarem sonhador e hipocondríaco, pois não consigo me livrar da
impressão que me produz o maldito rosto de Coppelius. Estou feliz, pois saiu da
cidade, segundo me disse Spalanzani.
Esse professor tem o
corpo curioso. É um homenzinho rechonchudo, com pômulos salientes, nariz
delgado, lábios cheios, olhos pequenos e penetrantes. Mas você poderá
conhecê-lo melhor através do retrato de Cagliostro feito por Chodowiecki num
almanaque de Berlim. Spalanzani se parece com o retrato.
Recentemente, subindo
pela escada, me dei conta de que uma cortina de renda guipure, em geral corrida por cima de uma
porta envidraçada, deixara fresta do lado. Não sei por que, dei uma olhada. Uma
jovem de porte encantador, grande, esbelta, magnificamente vestida, estava
sentada na sala, defronte a uma mesinha, onde descansa seus braços, as mãos
juntas.
Ela estava de frente
para a porta. Assim, pude ver todo o seu rosto angelical. Aparentemente, não
reparou em mim, e seus olhos pareciam parados, como se não tivessem vida, ou
como se estivesse dormindo com os olhos abertos. Não me senti à vontade e me
esgueirei para o anfiteatro vizinho. Mais tarde, soube que era a filha de
Spalanzani, Olímpia, há quem esconde com tanto cuidado que ninguém se aproxima
dela. Afinal, talvez ele tenha alguma razão, ela pode ser idiota ou qualquer
coisa assim. Por que escrevi tudo isso para você? Poderia ter contado tudo isso
melhor, e com mais detalhes, pessoalmente. Pois estarei aí dentro de quinze
dias. Preciso ver meu querido anjo, minha doce Clara. Quando então se dissipará
– confesso – o mal-estar que senti ao ler a sua carta. Por isso, não lhe
escreverei hoje.
Minha amizade etc.
etc.
Seria impossível
inventar algo mais estranho e mais surpreendente do que o sucedido com meu
pobre amigo, o estudante Natanael, e que resolvi contar para você, amável
leitor.
Alguma vez, seu
coração, espírito, pensamento estiveram concentrados em uma só coisa, que o
impedisse de ter qualquer outra preocupação? Você se sentia fermentar e ferver
e o sangue, em ebulição, palpitava nas veias, realçando a cor da face. Seu
olhar estranho parecia querer apreender no espaço vazio formas invisíveis a
todos os outros olhos e suas palavras se extinguiam em suspiro inquietantes. E
seus amigos perguntavam:
– O que aconteceu,
meu caro? O que é que você tem?
E você se esforçava
para descrever sua visão interior e seu colorido quente e suas sombras e luzes,
tentando entrar no assunto. Mas tinha a impressão de que seria necessário mostrar,
logo, com suas primeiras palavras, tudo o que você carregava de estranho,
magnífico, horrível, alegre, aterrorizante, para aferir instantaneamente os
ouvintes, como se fosse descarga elétrica. Todavia, todas as expressões, tudo o
que se exprime em palavras parecia incolor, glacial e morto para você.
Tentava procurar,
balbuciar, pedinchar palavras. Mas as tolas perguntas de seus amigos, como
ventos gelados, abaixavam o seu fogo interior, até apagá-lo. Se anteriormente,
como pintor audacioso, você tivesse esboçado com grandes traços atrevidos os
contornos de sua visão interior, seria fácil, então, ir acrescentando cores
cada vez mais quentes, e a multidão de formas diversas entusiasmaria seus
amigos, que se veriam, como você mesmo, retratados no quadro que jorrou de seu
coração.
Devo conversar,
amável leitor, que ninguém me interrogou a respeito da história do jovem
Natanael. Entretanto você sabe, sem dúvida: pertenço a essa linhagem singular
de escritores que não conseguem carregar consigo tais ideias sem imaginar,
prontamente, que todos os que estão perto deles, até mesmo o mundo inteiro,
gostariam de lhes perguntar:
– O que aconteceu,
hein? Conte-nos tudo, meu caro!
Assim, tive o desejo
furioso de contar a você o destino fatal de Natanael. Sua história, singular e
maravilhosa, absorvia meus pensamentos e, como me seria necessário preparar
você – ó meu leitor! – para admitir o fantástico, o que não é tarefa fácil, me
atormentava para que a saga de Natanael tivesse começo impressivo, original,
empolgante.
“Era uma vez...” É o
mais belo começo para qualquer narrativa, mas é muito prosaico.
“Na pequena cidade do
interior, S. vivia...” é um pouco melhor, permitindo, pelo menos, certa
gradação. Ou me colocando imediatamente medias
in re: “Vá para o diabo que o carregue! – gritou o estudante Natanael, com
olhar alucinado, cheio de furor e medo, quando o mercador de barômetros
Giuseppe Coppola...” Tinha acabado de escrever essas palavras, quando percebi:
o olhar furioso do estudante Natanael tinha qualquer coisa de cômico. Ora,
minha história não tem nada de risível. Eu não conseguia compor o discurso que
pudesse refletir – apenas um pouquinho – as cores ardentes de minha visão
interior.
Então, resolvi não começar a história. Meu caro leitor,
você terá a bondade de considerar as três cartas, que o amigo Lothar teve a
gentileza de me mostrar, como esboço da imagem que tentarei colorir, cada vez
mais. Talvez eu consiga, como bom retratista, captar algumas fisionomias tão bém
que, mesmo sem conhecer o original, você as julgará parecidas, chegando a
acreditar tê-las visto pessoalmente. Talvez – ó meu leitor – você chegue até a
pensar que não exista nada mais extraordinário ou mais louco do que a vida
real, e que apenas o poeta esteja capacitado a aprendê-la, como se fosse vago
reflexo de espelho mal polido.
Para esclarecer
imediatamente o que é necessário saber, acrescentarei aquelas cartas: logo após
a morte do pai de Natanael, Clara e Lothar, filhos de um parente afastado, que
também morrera deixando-os órfãos, foram acolhidos pela mãe de Natanael.
Natanael e Clara sentiam uma forte atração mútua, a qual ninguém objetava.
Assim, eles eram noivos, quando Natanael deixou sua casa para estudar em G. Sua
última carta estava datada dessa cidade, onde assistia às aulas do célebre
físico Spalanzani.
Neste momento,
poderia continuar tranquilamente meu relato. Mas a imagem de Clara está
vivamente presente em meus olhos e não consigo desviar dela o olhar, como fazia
sempre que me mirava com gracioso sorriso. Clara não podia ser considerada
bela, segundo parecer dos que fazem ofício de juízes da beleza. Mas os
arquitetos elogiavam as felizes proporções de seus membros, os pintores
julgavam muito sóbrios os contornos da nuca, espáduas e seios, embora ficassem
encantados com a suntuosa cabeleireira de Madalena e se apaixonassem pelo
colorido de Battoni. Um deles, sonhador famoso, comparava, bizarramente, seus
olhos a um lago de Ruysdael em que se refletem o azul puro de céu sem nuvens,
as flores dos bosques e toda a animação colorida, alegre da paisagem. Mas os
poetas e músicos iam mais longe, dizendo:
– O quê? Um lago? O
quê? Um espelho? Pode-se ver esta jovem sem que seu olhar esplendoroso derrame
sobre nós cantos, acordos celestiais e maravilhosos que penetram nossa alma,
onde tudo se eleva e desperta com um contato? Se o que cantamos não tem valor é
porque nós próprios não temos valor, eis o que podemos ler com precisão no
sorriso vivo, bailando nos lábios de Clara, ao cantarolarmos em sua presença
alguma coisa que imaginamos seja canto, mesmo sendo apenas sons esparsos, que se
entrechoquem confusamente.
E era verdade. Clara
tinha a imaginação de uma criança alegre, singela, pura; alma profunda, terna,
de mulher; a inteligência límpida e muito discernimento. Os espíritos obtusos
não conseguiam lhe ser agradáveis, pois sem falar muito – o que não fazia parte
de seu caráter quase taciturno – seu olhar claro e o pronto sorriso irônico
lhes diziam:
– Caros amigos, como
podem imaginar que eu sinta como sendo reais, dotadas de vida e de movimento,
visões nebulosas e vagas?
E por causa disso,
Clara tinha fama de ser fria, insensível e prosaica. Mas outros que sabem
captar a vida com sua transparente profundidade, consideravam a jovem sensível,
razoável e franca; e desses, nenhum mais do que Natanael, cujos pensamentos se
movimentavam com vigor e serenidade, no mundo da arte e da ciência. Clara
estava ligada com todo o coração a seu bem amado; as primeiras sombras que
escureciam sua vida apareceram no momento em que a deixou. Com que
deslumbramento ela se joga em seus braços, quando ele retorna à cidade natal,
conforme prometera a Lothar em sua última carta! E foi tudo como Natanael
esperava, pois, desde o momento em que viu Clara, não pensou mais no advogado
Coppelius, nem na carta racional dela. Todas as preocupações desapareceram.
Mas Natanael tinha
razão, quando escreveu para seu amigo Lothar dizendo que o repugnante mercador
de barômetros havia se introduzido em sua vida como poder hostil. Pois todos
notaram, já nos primeiros dias, que Natanael parecia diferente. Mergulhava em
divagações inquietantes, apresentava excentricidade não habituais em seu
comportamento. Todos os seres, e a vida inteira, não eram mais do que visões e
presságios para ele. Repetia sem cessar: todo homem que se julga livre é apenas
joguete de potências tirânicas ferozes, as quais é inútil resistir. E não há
mais nada a fazer, senão nos submetermos humildemente ao que o destino resolveu
nos impor. Chegava até a afirmar: é loucura acreditarmos que a criação – nas
artes e nas ciências – seja ato livre da vontade, pois o entusiasmo necessário
para criar não parte de nós, sendo desencadeado pela ação de algum princípio
superior, externo a nós.
A exaltação mística
repugnava ao racionalismo de Clara, mas parecia inútil tentar refutá-la. Era
necessário que Natanael tentasse demonstrar: Coppelius era o princípio do mal e
tinha se apropriado dele, Natanael, no momento daquela espera atrás da cortina,
e que o odiento demônio ainda perturbaria irremediavelmente a felicidade
amorosa deles, para Clara, então, se tornar muito séria e dizer:
– Sim, Natanael, você
tem razão. Coppelius é princípio
maligno, princípio hostil. Pode fazer coisas horríveis, é potência diabólica
que entrou em sua vida, mas apenas enquanto não o banir de seu espírito e de
sua mente. Enquanto você acreditar nele, existirá e atuará. Todo o poder dele
vem de sua crença nisso.
Natanael, irritado
com Clara, que só admitia a existência deste demônio no interior dele mesmo,
quis, então, ensinar-lhe a doutrina mística dos demônios e das potências
terríveis. Clara, vexada, pois fim à conversa, falando de outro assunto
completamente anódino, para despeito de Natanael. Ele, ao crer que esses
mistérios eram impenetráveis às almas frias e teimosas, não se deu conta de que
situava Clara entre pessoas inferiores, embora não renunciasse à tentação de
insistir no assunto.
Já pela manhã, no que
ela ajudava a fazer café, permanecia perto dela, lendo passagens escolhidas de
livros místicos, até que ela suplicasse:
– Mas meu querido
Natanael, imagine que eu finja que você é o espírito maligno que perturba o meu
café! Pois se eu largasse todas as minhas ocupações para ficar olhando você
como deseja, enquanto me faz uma conferência, o café se queimaria no fogo e não
teríamos Nada para comer.
Natanael fechou
bruscamente o livro e se trancou no quarto, envergonhado. Antigamente, possuía
certo talento para escrever narrativas interessantes e vivas, e Clara tinha
muito prazer em ouvi-las; mas agora, tudo o que produzia era em tom sombrio,
ininteligível, disforme, e mesmo que Clara não dissesse explicitamente, se dava
conta disso.
Nada era mais
cansativo para Clara do que assuntos entediantes; olhares e palavras
demonstravam, então, sua irresistível vontade de dormir. Ora, as invencionices de
Natanael eram profundamente fatigantes e a irritação que ele sentia por causa
do espírito frio e prosaico de Clara aumentava a cada dia. Por outro lado,
Clara não conseguia vencer a aversão por aquele misticismo sombrio, triste e
cansativo de Natanael. Por isso, foram se afastando lentamente, sem reparar
nisso.
A imagem do repelente
Coppelius foi empalidecendo na imaginação de Natanael – que percebeu isso – e muitas
vezes precisava se esforçar para o colorir mais fortemente em seus poemas, em
que o retratava como inacreditável espantalho. Por fim, pensou compor um poema
que falasse do sombrio pressentimento que tinha: Coppelius seria fatal à sua
felicidade.
Imaginava estar
ligado a Clara por amor sincero, mas, às vezes, parecia que um punho negro
intervinha em suas vidas para terminar com aquela alegria apenas esboçada. No
próprio dia em que se casavam, surge o horrível Coppelius, que toca os olhos
encantadores de Clara. Eles pulam fora no mesmo instante e quicam no peito de
Natanael como fagulhas sangrentas, queimando tudo em que batem.
Coppelius segura
Natanael e o joga numa roda de fogo, que girava como furacão, arrastando-o
barulhentamente, o estrondo de uma tempestade que chicoteia ferozmente vagas
escumosas, erguidas como gigantes negros de cabeça branca, em luta furiosa. Mas
em meio a essa algazarra selvagem, escuta a voz de Clara gritando:
– Então você não me
enxerga? Coppelius o enganou. Não foram meus olhos que queimaram seu peito.
Foram as gotas ardentes de seu próprio sangue. Ainda tenho os olhos, veja!
Natanael pensa: “É clara. Será minha por toda a eternidade!” Então, imagina que
o pensamento penetra com força no círculo de fogo, travando sua rotação. A
barulheira diminui de intensidade e se perde no abismo negro. Natanael olha
para os olhos de Clara, mas é a morte que olha para ele calmamente, com os
olhos de Clara.
Enquanto imaginava o
poema, Natanael permanecia muito calmo e seguro de si. Polia e corrigia cada
linha submisso à construção do verso, sempre desejando que todo o conjunto
ficasse perfeitamente coeso, harmônico e bem composto. Mas ao terminar o poema
e relê-lo em voz alta, sentiu-se tomado de pavor e inacreditável inquietação.
Lamuriou-se:
–Que voz é essa, tão
apavorante?
Logo em seguida, o
trabalho lhe pareceu, em suma, poema plenamente realizado e acreditou que
conseguiria inflamar a alma gélida de Clara, ainda que não percebesse por que
seria necessário inflamar Clara e para que serviria apavorá-la com imagens
terrificantes, que previam destino cruel e destrutivo em relação ao amor deles.
Natanael e Clara
estavam sentados lado a lado no pequeno jardim da casa, Clara muito contente,
pois há três dias – enquanto compunha o poema – Natanael não a perseguia com
sonhos e presságios. Natanael também falava alegre e vivamente de coisas interessantes,
até Clara lhe dizer:
–Por fim, reencontro
você. Viu só como conseguimos esquecer o horrível Coppelius?
Neste momento,
Natanael se lembrou de que trazia o poema e quis lê-lo. Tira-o do bolso e
começa a leitura. Como sempre, Clara não se preocupou com coisas entediantes.
Resignadamente, começou a tricotar. Mas como a nuvem sombria escurecia cada vez
mais, para de tricotar e fica olhando Natanael fixamente: empolgado por seu
poema, lágrimas lhe escorriam dos olhos e uma chama interior coloria as suas
faces. Ao terminar, suspira, segura a mão de Clara e geme como se sofresse dor
inconsolável:
– Ah Clara! Clara,
Clara, Clara!
Clara ou cerrou
contra o colo e lhe disse com voz doce, embora grave e lentamente:
– Natanael, Meu bem-amado
Natanael! Joga fora esse poema absurdo, demente, insensato!
Natanael dá um salto,
indignado, e grita, empurrando Clara:
–Autômato maldito,
sem vida!
Afastou-se, correndo,
enquanto Clara, profundamente ofendida, chorava com amargor: “Ai! Ele nunca me
amou, pois não me compreende”.
Lothar entra no
caramanchão e Clara teve de narrar o que tinha acontecido. Ele amava sua irmã
de todo o coração e cada queixa dela queimava como brasa e o descontentamento
que sentia há muito tempo por Natanael ia se transformando em cólera violenta.
Foi atrás de Natanael
e o recriminou pela conduta absurda em relação à sua bem-amada irmã, utilizando
palavras duras, que foram replicadas por Natanael, já pegando fogo também
“Fátuo, quimérico,
insensato”, dizia um. “Pobre de espírito, homem vulgar”, dizia o outro.
Resolveram duelar atrás do jardim, na manhã seguinte, com espadas afiadas,
conforme costume local dos estudantes. Eles iam para cá e para lá, sombrios e
mudos. Clara tinha escutado a violenta discussão e visto o mestre-d’armas
trazer à noite as espadas. Ela percebeu o que iria acontecer.
No local do duelo,
Natanael e Lothar sacam os sobretudos e permanecem calados, inquietos. Quando
iam se jogar um contra o outro, Clara chegou correndo pela passagem do jardim.
Ela soluçava ao gritar:
– Homens brutais,
aterrorizantes! Matem-me agora, antes de se baterem em duelo! Como poderia
continuar a viver neste mundo se meu noivo matasse meu irmão, ou meu irmão
matasse meu noivo?
Lothar deixa cair a
arma, abaixando os olhos sem dizer nada, enquanto todo o amor que Natanael
sempre sentiu pela encantadora Clara, durante os mais belos dias de sua
juventude, ressuscita, envolto por dilacerante melancolia. A arma mortífera cai
de sua mão, e se joga aos pés de Clara:
– Clara, minha bem
amada, meu único amor. Poderá me perdoar?
Lothar, meu querido irmão. Poderá me perdoar?
Lothar emocionou-se
com a profunda dor de seu amigo. Sob uma torrente de lágrimas, os três,
reconciliados, se abraçaram, jurando nunca mais se separarem, vivendo com
fidelidade e afeição constantes.
Parecia a Natanael
que tinha sacudido a pesada carga que o curvava até o chão e que, ao resistir à
potência sombria e carcerária, tinha salvo seu ser do aniquilamento. Após mais
três dias felizes junto a quem amava, retornou a G., onde teria de permanecer
mais um ano, para, em seguida, regressar definitivamente à cidade natal.
Tinham escondido de
sua mãe os fatos relacionados com Coppelius, pois sabiam que ela só pensava
nele com horror. Realmente, como acontecia com Natanael, ela julgava Coppelius
responsável pela morte do marido.
Quando Natanael quis
entrar em seu apartamento, ficou estupefato! A casa pegara fogo e unicamente as
paredes estavam de pé. Amigos corajosos e robustos tinham conseguido penetrar a
tempo no quarto de Natanael, situado no andar de cima, salvando seus livros,
manuscritos e instrumentos, embora o fogo tivesse eclodido no laboratório do
boticário que vivia no andar inferior e se espalhado de baixo para cima.
Carregaram tudo para a casa vizinha, lá alugando um quarto, onde Natanael se
instalou imediatamente.
Não deu maior
importância ao fato de que o professor Spalanzani morasse na casa defronte e
que poderia olhar da sua janela o quarto em que Olímpia ficava, muitas vezes
sozinha, reconhecendo nitidamente sua silhueta, embora as feições se tornassem
confusas, indistintas.
Porém, notou que
Olímpia permanecia sentada numa pequena mesa durante horas, na mesma posição,
sem fazer nada, do mesmo jeito em que a vira anteriormente, através da porta de
vidro, que ela mirava incessantemente.
Julgou não ter visto
talhe mais bonito. Mas, sempre pensando em Clara, esta Olímpia rígida,
estática, não o emocionava. Só tirava os olhos do livro de tempos em tempos
afim de olhar desinteressadamente para aquela bela estátua. E só.
Ia começar a escrever
para Clara, quando bateram suavemente à porta. Mandou que entrassem e surgiu o
rosto repugnante de Coppola. Natanael estremeceu, mas lembrou-se do que Spalanzani
disse de seu compatriota Coppola e do que tinha solenemente prometido à sua
noiva em relação a Coppelius, o Homem da Areia, e se sentiu envergonhado de seu
medo infantil de fantasmas. Fez esforço para se controlar e disse com voz suave
e calma:
– Não quero comprar
barômetros, meu amigo. Vá embora!
Coppola, porém,
entrou de vez no quarto e disse
com voz surda, a grande
boca se torcendo
num sorriso pavoroso,
enquanto os olhinhos perfurantes rebrilhavam debaixo dos longos cílios acinzentados:
– Ah! Barômetros non, barômetros non! Mas eu tere occhi também per vendere. Zoios lindos!
Espantado,
Natanael já gritava:
– Você é maluco! Como é que pode ter olhos? Olhos?
Olhos?
Coppola se
desembaraçou dos barômetros, enfiou os dedos nos enormes bolsos e sacou óculos
e lornhões, colocando-os sobre a mesa:
–He-he-he! Lunetas de nariz! Occhi beli! Enquanto
falava, ia tirando mais lunetas e mais outras de seus bolsos, até que a mesa
ficou toda cintilante, mar de
reflexões multicoloridas.
Milhares de olhos
pareciam dardejar olhares reluzentes
para Natanael, que não conseguia afastar os seus da mesa. Coppola sacava mais outras lunetas, e
olhares faiscantes se entrecruzavam, cada vez com mais fúria, projetando
clarões sangrentos, dirigidos contra o peito de Natanael.
Apavorado, loucamente apavorado, Natanael grita:
– Para, monstro!
Segurou o braço de Coppola, que já levava
a mão até o bolso
para sacar mais lunetas, embora
a mesa já estivesse recoberta por elas. Coppola se
desvencilhou calmamente dele,
enquanto debochava, dizendo:
– Ah! Non vuoi luneta!
Ma eu ter lonhone!
Já tinha
guardado todas as lunetas e já sacava binóculos de outro bolso, grandes e
pequenos. Natanael ficou mais calmo, logo que as lunetas foram guardadas, e,
pensando em Clara, convenceu-se de que esse pesadelo era fruto de seu cérebro.
Coppola não era mais um mágico ou
aparição apavorante, apenas honesto oculista, nada tendo a ver com Coppelius.
Além disso, os binóculos que Coppola colocara sobre a mesa não tinham nada de especial, sobretudo não eram fantásticos como as lunetas e lornhões.
Então, para não
ficar mal, resolveu comprar qualquer coisa de Coppola. Apanhou uma pequena
luneta de bolso, delicadamente trabalhada, olhando pela janela, a fim de testá-la.
Nunca tinha
visto lentes que aproximassem os objetos com tanta pureza,
acuidade e perfeição.
Sem querer,
olhou para o quarto
de Spalanzani. Olímpia estava
sentada, como sempre, defronte à mesinha, braços à frente, as mãos juntas. Só
então Natanael repara nos traços admiráveis do rosto de Olímpia. Apenas os
olhos lhe pareceram estranhamente fixos, mortos.
Mas como olhasse
insistentemente para ela através da luneta imaginou
que dos olhos de Olímpia se desprendessem vaporosos
clarões lunares. Parecia que a vida voltava para eles, pois flamejavam cada vez
mais vivamente, enquanto Natanael permanecia à janela, como se estivesse
enfeitiçado, contemplando sem se cansar a beleza celestial de Olímpia.
Um pigarro, um arrastar de pés o acordaram de seu encantamento. Coppola estava de pé, atrás dele:
– Tre zecchini!
Três ducados!
Natanael se esquecera do oculista – pagou, em seguida, o que devia.
– Buona luneta,
né? – perguntou Coppola com sua voz rouca, aterrorizante e seu sorriso
peculiar.
– Sim, sim – Natanael
respondeu irritado. – Adeus, meu amigo!
Antes de sair do
quarto, Coppola olhou Natanael de
soslaio. Olhar estranho, debochado – e desceu
rindo as escadas. Bem, pensou Natanael, está rindo de mim. Acho que paguei
caro por esta luneta, muito caro. Enquanto
pensava, teve a impressão de ouvir um estertor profundo reboar pelo
quarto, sinistramente. Mas tinha sido ele mesmo que suspirara. Clara, pensou,
tem razão de me considerar um idiota,
mais do que um idiota, por ficar
atormentado pela ideia de que paguei caro demais pela luneta.
Sentou-se em
seguida, para terminar sua carta para Clara, mas uma olhada pela janela revelou
que Olímpia permanecia sentada no mesmo lugar e, movido por força irresistível,
deu um pulo, pegou a luneta e ficou contemplando a sedutora Olímpia, até que o
companheiro e amigo Siegmund veio chamá-lo para irem à aula de Spalanzani.
Desta vez, a
cortina tinha sido cuidadosamente corrida à porta do quarto fatal. Nos dois
dias seguintes não viu mais Olímpia, ainda que não saísse da janela, mantendo a
luneta de Coppola nos olhos. Ao terceiro dia, até a janela foi coberta por uma
cortina. Desesperado, com pesar e
saudade, partiu para o campo.
A imagem
de Olímpia ia à sua frente, flutuando no ar, surgindo
dos tufos de plantas, a olhá-lo com grandes olhos fulgurantes
lá do fundo do claro riacho. A imagem
de Clara tinha desaparecido totalmente de seu coração. Só pensando em Olímpia,
se lamuriava, ao chorar muito alto:
– Ó
meu doce astro, minha estrela amorosa, você apareceu em meu horizonte para
apagar-se em seguida, me deixando apenas uma noite escura e sem esperança?
Ao voltar para
casa, reparou que a residência de
Spalanzani estava muito movimentada: portas às escâncaras, todo tipo de objeto
era levado para dentro. As janelas do primeiro andar também estavam abertas, e
pessoas atarefadas iam e vinham, espanando e varrendo
com grandes vassouras de crina; tapeceiros e marceneiros batiam,
martelavam. Natanael parou, no meio da rua, estupefato. Siegmund se
aproximou sorrindo:
– Pois é. O que é que você me diz de nosso velho Spalanzani?
Natanael
respondeu que não podia dizer coisa alguma, pois não tinha notícias do
professor, mas que notara, para sua surpresa, a grande agitação e barafunda que
reinavam naquela casa habitualmente
tão silenciosa e sombria. Então, Siegmund contou:
Spalanzani
deveria dar – no dia seguinte – grande festa com concerto e baile e meia universidade fora convidada. Todos diziam
que Spalanzani deixaria sua filha Olímpia aparecer em público pela primeira
vez, pois até então a tinha mantido escondida.
Natanael
encontrou em casa um convite e à hora marcada foi para a casa
do professor, quando já chegavam as
primeiras carruagens e as luzes da casa eram acesas nos salões elegantemente
decorados. Sociedade elegante e numerosa. Olímpia apareceu com roupa cara e de bom gosto. Não se podia deixar de admirar o
rosto de feições tão puras e o talhe perfeito. A curiosa curva do dorso e a
estreiteza da cintura de vespa deviam ser
feitas por um espartilho muito
apertado. O andar e sua atitude tinham qualquer
coisa de compassado, de rígido que algumas pessoas julgavam desagradável, mas era explicada pela
inibição que devia estar sentindo por causa da festa.
O concerto
começou. Olímpia tocava piano com virtuosismo e cantou uma canção patriótica, a
voz clara como cristal cortante. Natanael estava deslumbrado. De pé, na última
fila, não conseguia ver claramente o rosto de Olímpia à luz estonteante das
velas. Sem ninguém reparar, tirou do bolso a luneta de Coppola para mirar a bela Olímpia. Ah! Deu-se
conta, então, de que ela o olhava langorosamente, e seus traços se esvaneciam com seu olhar amoroso, fazendo-o arder
inteiramente. Parecia que as cascatas de notas exprimiam o júbilo celestial de alma iluminada pelo amor, e quando o
trinado final vibrou, prolongado, estridente, pelo salão, não conseguiu se
conter e – como se estivesse apertado por braços apaixonados – exclamou bem alto, com dor e deslumbramento:
– Olímpia!
Todos se viraram para ele e muitos começam a rir. O organista da catedral fez uma careta mais sinistra do que a
habitual, apenas murmurando: “Bem, bem.”
Terminou o concerto, o baile vai começar. “Dançar
com ela! Com ela!” era o
objetivo de todos os seus sentidos, de todos os seus esforços. Mas como fazer para criar
coragem de convidá-la, a rainha do baile? Nem mesmo ele soube como aconteceu:
quando a dança começou, estava perto de Olímpia, que ainda não tinha sido
tirada por ninguém, e, após balbuciar algumas palavras, segurou a mão dela.
A mão de Olímpia estava tão fria quanto o
gelo. Ele sentiu correr em suas
veias o frio terrível da morte. Olhou para ela: amor e desejo brilhavam naqueles olhos. Então, imaginou que as artérias daquela mão gelada
começavam a pulsar, a torrente de
sangue ficando mais aquecida. Ardendo
de desejo, Natanael enlaçou a bela
Olímpia e saíram dançando entre os
pares no salão.
Ele tinha a
ilusão de ser um bom dançarino, mas o ritmo inflexível dela, que muitas vezes o
fazia perder o passo, demonstrou logo como seu ouvido
falhava. Ainda assim, não quis dançar com nenhuma
outra mulher e, se pudesse,
teria batido em qualquer
um que se aproximasse de
Olímpia. Mas isso só ocorreu duas vezes. Olímpia sempre esteve disponível, para sua surpresa, e pôde convidá-la para dançar todas as
músicas.
Se Natanael
fosse capaz de ver qualquer outra coisa além
de Olímpia, não teria evitado discussões e brigas lamentáveis, pois
murmúrios de deboche e risos mal disfarçados eclodiam em todos os grupos
de jovens, sem que se soubesse o
motivo, embora não tirassem os olhos
irônicos de Olímpia.
Aquecido por muitos tragos e pela dança, Natanael
tinha abandonado sua natural timidez.
Juntinho de Olímpia,
segurando- lhe a mão, falava de seu amor em termos
inflamados que ninguém
poderia compreender, nem ele mesmo,
nem Olímpia. Bem, talvez ela, pois olhava-o fixamente e emitia pequenos suspiros:
– Ah-ah-ah!
E Natanael
respondia:
– Mulher sublime,
celestial! Exemplo do amor que nos prometem
na outra vida! Alma profunda
em que se reflete todo meu
ser!
Enquanto Olímpia apenas suspirava:
–Ah-ah-ah!
O professor
Spalanzani passou uma vez ou duas perto do feliz casal e os olhou sorrindo, com
expressão curiosamente satisfeita. Ainda que Natanael estivesse em outro mundo, pôde notar, de repente, que
tudo se escurecia aqui, neste mundo, na casa do professor Spalanzani. Olhando
ao redor, percebeu, para sua grande estupefação, que as duas últimas velas da
sala vazia ameaçavam apagar. A música e a dança já tinham terminado há muito tempo.
– Nos
separarmos! Nos separarmos! – exclama, sentindo vivo desespero, e beija
a mão de Olímpia e se inclina para a sua boca. Lábios gelados encontraram seus lábios ardentes e sentiu-se presa de
pavor, como se sentira ao tocar-lhe a fria mão. A lenda da morta noiva avivou-se em sua memória, de repente. Mas Olímpia o cerrava
contra o peito e os lábios dela pareceram reviver e ficar quentes.
O professor
Spalanzani atravessou a sala vazia,
lentamente. Seus passos retumbavam e
sua silhueta, rodeada por sombras movediças, tinha aparência terrível e
fantasmagórica.
– Diga que me ama, Olímpia!
Você me ama? Diga apenas uma palavra. Você me ama? – murmurava Natanael,
embora Olímpia apenas suspirasse: “Ah-ah-ah!”, enquanto se levantava.
– Meu doce astro, minha linda estrela de amor,
você se ergueu em meu céu e você
brilhará, iluminando minha alma para sempre – continuava Natanael.
– Ah-ah-ah!
– respondia Olímpia, enquanto se afastava. Natanael a seguiu e ficaram frente
a frente com o professor.
– Você teve uma conversa
muito animada com minha filha – disse o professor
sorrindo. – Se você tem prazer em conversar
com essa bobinha, sua visita será
sempre bem-vinda.
Natanael foi embora, carregando em seu coração
todo um céu radioso de claridade.
A festa de Spalanzani foi assunto das
conversas por vários dias. Ainda que o professor tivesse feito todos os
esforços para receber as pessoas esplendidamente, maliciosos criticavam as
coisas bizarras e incongruentes que ocorreram na festa, sobretudo a rígida,
muda Olímpia, à qual atribuíam, a despeito de sua beleza, a mais total
estupidez. Era a razão que citavam para explicar sua ausência permanente,
determinada por Spalanzani.
Natanael ouviu os comentários encolerizado, mas sem dizer nada, pois não valeria a pena
mostrar àqueles engraçadinhos que era a própria estupidez deles que os impedia de ver a alma
magnífica e profunda de Olímpia.
– Por
favor, meu caro – perguntou-lhe um dia Siegmund: – Podia me dizer como você,
um rapaz inteligente, conseguiu se
apaixonar por aquele rosto de cera, aquela boneca de madeira?
Natanael já ia explodir
de raiva, mas se conteve
rapidamente e respondeu:
– Diga-me, Siegmund, como os encantos
celestiais de Olímpia
escaparam aos seus olhos, em geral tão prontos a distinguir a beleza, e ao seu espírito
alerta? Mas agradeço a Deus! Assim
não há rival em você,
senão um de nós teria de verter todo o seu
sangue.
Siegmund
percebeu o estado do amigo e
concordou diplomaticamente com o que ele dizia, afirmando que em amor não se deve discutir sobre o objeto
da paixão, e acrescentou:
–
Mas é curioso que, em relação a Olímpia, tantos
companheiros pensem como eu. Nós achamos que ela é – não se zangue, meu irmão – muito
rígida e sem alma. Ela é bem-feita, tem o rosto
bonito, é verdade. Poderia até ser bela se o olhar não fosse despido de calor e de toda acuidade, se posso me exprimir
assim. O andar é estranhamente cadenciado e cada um dos movimentos parece
feito por mecanismo de relojoaria. Os gestos, o canto, têm ritmo odiosamente regular e sem alma como os
de uma caixa de música. E a maneira de dançar é igual. Achamos que esta Olímpia
tem qualquer coisa de sinistro e nós queremos ficar longe dela, pois temos a
impressão de que apenas finge ser criatura viva e que há algum lamentável equívoco nessa história toda.
Natanael não se
entregou ao sentimento de amargura que parecia querer tomar conta dele ao ouvir
tais palavras. Ele se controlou, contentando-se em dizer gravemente:
– Para vocês,
homens prosaicos e frios, pode ser que Olímpia pareça inquietante. Só às
sensibilidades poéticas se revela tal
organização! Apenas eu percebi seu olhar amoroso, que me iluminou
a alma e os pensamentos. É com o
amor de Olímpia que encontro por fim a
mim se entregar a conversas vãs e
vulgares, como o fazem outros
espíritos superficiais. Fala pouco, é verdade, mas suas raras palavras são como
hieróglifos de um mundo interior,
onde reinam o amor e o conhecimento
sublime da vida espiritual, contemplando a eternidade. Mas vocês não têm
intuição dessas coisas e o que ela diz para vocês são palavras jogadas fora.
– Deus o guarde,
meu irmão! – disse Siegmund com doçura,
quase com melancolia. – Mas acho que
você está no caminho errado. Conte comigo, sobretudo se... Mas não, não quero
dizer mais nada.
Natanael
percebeu, então, que o frio, prosaico Siegmund tinha muito carinho por ele, e
apertou cordialmente a mão que o
amigo lhe estendia.
Natanael
esquecera, completamente, a existência de Clara, tão amada antigamente. Sua
mãe, Lothar, todos tinham se esvanecido em sua
mente. Só vivia para Olímpia, a quem ia
ver todos os dias e para quem falava
com palavras exaltadas de suas almas,
coisas que Olímpia escutava com muita
discrição.
Natanael sacou
das profundezas de sua secretária tudo o que tinha escrito.
Poemas, fantasias, visões,
romances, novelas, aos quais eram acrescentados, diariamente, todos os tipos de sonetos,
estâncias, canções, envoltos pelo azul do céu, e que ele lia para Olímpia
durante horas, sem se cansar. Jamais
tivera tão magnífico ouvinte. Ela não bordava, nem tricotava, nem olhava
pela janela, nem dava de comer a seu pássaro, nem brincava com seu cãozinho favorito ou seu gatinho
mimado, nem enrolava pedaços de
papel entre os dedos. Nunca tinha de disfarçar um bocejo com tosse
forçada e ficava quieta por muitas horas, o olhar fixo, preso aos olhos do
namorado, sem o movimentar nem um pouquinho,
e esse olhar pouco a pouco ia se tornando luminoso. Só quando Natanael se
levantava, ao beijar sua mão, ela dizia:
– Ah-ah-ah! – e logo depois: – Boa-noite, querido!
Alma profunda,
alma maravilhosa, gemia Natanael ao retornar ao seu quarto, só você, apenas
você me compreende completamente. E tremia de felicidade ao pensar na concórdia
miraculosa que existia entre sua alma e a de Olímpia e que aumentava a cada
dia. Pois lhe parecia que ela se manifestava em relação às suas obras e ao seu
talento poético exatamente como ele teria feito, como se a voz de
Olímpia saísse de sua própria alma. O que, sem dúvida, era verdade, pois
Olímpia jamais pronunciou outras palavras além
das já mencionadas.
Mas se Natanael – em seus momentos de
lucidez e de bom-senso, como ao despertar pela manhã, por exemplo – se lembra da
passividade de Olímpia e de seu mutismo, se consola dizendo: “Que significam as palavras, as palavras! A expressão
de seus olhos celestiais diz mais do que toda a linguagem daqui de baixo. Como
poderia uma filha do céu se acomodar aos estreitos limites traçados pelas
miseráveis necessidades humanas?”
O professor Spalanzani parecia muito feliz com o
relacionamento de sua filha e Natanael, dando-lhe sinais inequívocos de sua aceitação. Quando Natanael teve coragem
– por fim – de fazer vaga de referência ao casamento com Olímpia, o professor
sorriu largamente, declarando que
daria à filha toda a liberdade de escolha.
Encorajado por essas
palavras, o coração
ardendo de desejo,
Natanael resolveu jantar no dia seguinte em casa de Olímpia a fim de
suplicar-lhe que dissesse, sem rodeios,
de maneira explícita, o que lhe tinha confessado há muito tempo o doce olhar
amoroso dela; ou seja, que ela
queria ficar com ele para sempre.
Procurou o anel
que sua mãe lhe tinha dado quando partira,
para oferecê-lo a Olímpia, em sinal
de sua eterna devoção e do presente
que lhe fazia de sua própria vida, que acabava de renascer e floresceria ao
lado dela. Nesse momento, as cartas de Clara e Lothar caíram no chão. Não as apanhou, porém. Encontrou o anel, colocou-o no bolso e foi para a
casa de Olímpia.
No patamar da
escadaria, escutou a algazarra que parecia vir do gabinete de Spalanzani: arrastar
de pés, ruído de vidro partido, trancos e golpes contra a porta, misturados a
palavrões e maldições.
“Deixe-a! Deixe-a!
– infame – patife – é a isso que sacrifiquei a minha vida e meus
trabalhos? – ha-ha-ha-ha! – não foi
o que nós apostamos – eu, fui eu quem fez os olhos – eu, os rolamentos – imbecil, com seus rolamentos – maldito cão relojoeiro
idiota – vai embora – Satanás – para – torneiro de cabeças de cachimbo – besta
infernal – para – vai embora – deixe-a!” As
vozes de Spalanzani e do terrível Coppola se entrecruzavam naquele furioso turbilhão. Natanael
precipitou-se pelo gabinete, sentindo uma angústia lhe apertar o peito.
O professor
segurava pelos ombros um corpo de mulher, enquanto o italiano Coppola o
segurava pelos pés. Puxavam, disputavam, para lá, para cá, lutando com furor pela sua posse. Natanael recuou,
tomado de horror, ao reconhecer o corpo de Olímpia. Ardendo em furiosa cólera,
quis reaver sua bem-amada daqueles enlouquecidos, mas naquele momento Coppola,
juntando suas forças de gigante,
torce o corpo e o arranca do professor, enquanto
lhe dá um soco tão violento, que ele tropeça e cai de costas por cima da mesa,
ao meio de garrafinhas, retortas, frascos e provetas. Todos os utensílios
voaram em mil pedaços, com grande retinir. Coppola, então, joga o corpo em seus
ombros e desce correndo as escadas, rindo seu riso horrível e estridente,
enquanto o manequim pendia sem graça, batendo ressoando nos degraus, com som de
madeira.
Natanael
permanece imóvel. Tinha visto tudo direitinho. O rosto de cera de Olímpia, de
mortal palidez, não tinha mais olhos, apenas cavidades negras. Era uma boneca
sem vida. Spalanzani rolava pelo
chão. Fragmentos de vidro tinham ferido
sua testa, seu peito, seus braços. O
sangue jorrava. Mas se recompôs:
– Corre atrás
dele, corre! Não fica aí parado. Coppelius roubou meu mais belo autômato.
Depois de ter trabalhado vinte anos, e sacrificar minhas forças e minha vida!
Os mecanismos, a linguagem, o andar, é tudo meu! Os olhos, os olhos é que
roubei dele. Maldito, condenado! Corre
atrás dele, me traz Olímpia de volta.
Olha aí os olhos dela!
Natanael viu,
então, dois olhos ensanguentados no soalho. Os olhos olhavam para ele. Spalanzani os segura com sua mão intacta e os joga contra Natanael.
Bateram com força em seu peito. Então a loucura enfiou nele suas garras
ardentes, lacerando-lhe alma e pensamentos. “Haha-ha! Roda de fogo,
roda de fogo,
gira, gira, alegremente, alegremente. Opa! Boneca de madeira, opa, linda boneca de
madeira!” E se atira contra o professor, agarrando-o pela garganta. E o teria
estrangulado, mas a barulheira tinha atraído pessoas, que acorrem em massa e
puxam Natanael, salvando o professor, imediatamente socorrido. Siegmund, apesar
de toda a sua força, não conseguia dominar o demente, que berrava sem parar:
“Boneca de madeira, gira, gira!”, agitando seus punhos fechados. Por fim,
unindo forças, um grupo o segura, o
joga por terra e o amarra. Suas palavras degeneram em rugido bestial,
inquietante. Foi carregado para o
hospício, se debatendo numa raiva assustadora.
Antes de contar,
amigo leitor, o que ocorreu depois com Natanael, posso garantir – se você tem
algum interesse no habilidoso mecânico, o fabricante de autômatos Spalanzani –
que as feridas dele curaram perfeitamente. Teve, porém, de deixar a
universidade, pois a história de Natanael fez grande escândalo, e se
considerava insolência ter introduzido fraudulentamente nos chás elegantes – Olímpia os tinha frequentado com sucesso – uma boneca
de madeira em lugar de pessoa
viva. Os juristas declararam até ser
fraude insidiosa, passível de punição ainda mais severa por ter sido imposta ao
público, em geral, com tanta astúcia, que ninguém – à exceção de alguns estudantes
particularmente inteligentes – tinha se dado conta disso.
Embora
atualmente todos bancássemos os espertos, pretendendo nos recordar da enorme
quantidade de fatos que denunciavam a
fraude. Mas esses próprios fatos não queriam
dizer muita coisa. A quem, por exemplo, pareceria suspeito que
Olímpia, segundo palavras de um dos elegantes tomadores de chá, espirrasse mais
vezes do que bocejava? Quando ela espirrava, dizia esse elegante, era a mola do
mecanismo escondido que dava corda a ela mesma, rangendo, etc.
O professor de poesia e eloquência cheirou rapé, bateu a tampa da tabaqueira, pigarreou e disse, em tom solene: “Honrada assembleia, senhoras e
senhores, não adivinharam onde se
esconde a lebre? Tudo isso não passa de alegoria, uma metáfora prolongada,
compreenderam? Sapient sa!”
Mas acontece
que muitos daqueles
honrados senhores não ficaram satisfeitos com essa coisa
toda. Essa história
de autômato ficou gravada
neles, produzindo, em seguida, terrível desconfiança em relação às figuras humanas em geral.
Para ficarem bem seguros de que não amavam uma boneca de madeira, alguns
namorados exigiam que sua bem-amada não cantasse no compasso
e nem dançasse ritmadamente; que ao ouvir uma leitura, bordasse ou tricotasse
ou brincasse com seu gatinho etc. Mas, sobretudo, não se contentasse apenas em
ouvir, que falasse algumas vezes e suas palavras fizessem supor fosse capaz de
pensar e sentir.
Algumas ligações
amorosas se tornaram mais sólidas e
mais agradáveis e outras foram desfeitas
rapidamente. “Assim, não se pode confiar em ninguém”, dizia tanto um quanto o outro.
Bocejavam demais nos chás, jamais espirrando, para não despertar suspeitas.
Como já
dissemos, Spalanzani teve de fugir, para evitar inquérito policial por haver
introduzido fraudulentamente um autômato na sociedade dos humanos. Coppola
também havia desaparecido.
Natanael acordou
um dia como se tivesse
saído de pesadelo
aterrador. Abriu os olhos,
sentindo indizível volúpia correr por seus membros num calor
suave e celestial. Deitado em sua
cama, Clara se inclinava sobre ele, e sua mãe e Lothar estavam ao lado.
– Por
fim, por fim, meu bem-amado Natanael, você ficou curado dessa grave doença.
Agora, você é meu novamente! – Clara dizia com voz enternecida, apertando
Natanael em seus braços, enquanto ele, acabrunhado de melancolia e langor,
deixava escorrer lágrimas ardentes, suspirando fundo: “Minha Clara, minha!”
Siegmund, que tinha fielmente acompanhado o amigo, chegou. Natanael estendeu a mão para ele:
– Você é amigo de verdade. Não me abandonou.
Todos os sinais
de demência desapareceram. Logo, os cuidados devotados de sua mãe, de sua noiva
e dos amigos lhe devolviam as forças.
Entrementes, a felicidade retorna
àquela casa, pois um tio velhinho, com quem ninguém
se importava, tinha morrido, deixando para a mãe de Natanael pequena fortuna, além de um imóvel situado perto da cidade. Era lá que desejavam se instalar: a mãe, Lothar, Natanael e
Clara, com quem ele deveria se unir em breve.
Natanael estava
mais calmo. Tinha
readquirido a inocência da infância e descoberto o coração admirável, divinamente puro de
Clara. Ninguém fazia alusões ao
passado. Só quando Siegmund foi se despedir, Natanael lhe disse:
– Por Deus,
irmão! Eu ia por um caminho ruim,
mas um anjo me reconduziu, em tempo, à estrada do céu! É Clara, esse anjo.
Siegmund não o deixou prosseguir, com medo de que as recordações dolorosas
ressuscitassem, com força devoradora.
Finalmente,
chegou a hora em que esses quatro felizes mortais iriam se instalar em sua nova
propriedade. Ao meio-dia, atravessaram as
ruas da cidade, pois tinham cumprido
várias obrigações. O alto campanário
projetava sua sombra gigantesca sobre a praça do mercado.
– Ah! – disse Clara.
– Vamos subir mais uma vez lá em cima para vermos
as montanhas ao longe.
Assim foi dito, assim foi feito.
Os dois,
Natanael e Clara, começaram a subir,
enquanto a mãe voltava para casa com uma
empregada. Lothar disse não querer subir todos aqueles degraus e ficaria
esperando embaixo. Os dois amorosos já estavam na alta galeria da torre, de
braços dados, olhando as florestas longínquas e atrás delas as montanhas azuladas, iguais a
uma cidade de gigantes.
– Repare só naquela moita cinzenta, engraçadinha, que parece avançar
para nós – disse Clara.
Natanael
instintivamente põe a mão no bolso, saca a luneta de Coppola e a dirige para
aquele ponto. Clara aparece enquadrada nas lentes.
Súbito, uma convulsão contrai suas artérias
e veias. Mortalmente pálido, via Clara,
mas logo, torrentes de fogo ardem, cintilantes, em seus olhos
desvairados. Urra!... Rugido horrível, de animal acuado. Depois, deu um salto no ar
e grita com voz forte, enquanto ria ameaçadoramente:
– Boneca de madeira, gira, gira! Boneca
de madeira, gira!
Em seguida,
agarrou Clara com violência – quer jogá-la no espaço –, mas Clara segura a
balaustrada, com mortal desespero, em seu pavor. Lothar ouviu as explosões de
raiva do demente e os gritos de infortúnio de Clara. Terrível pressentimento o faz subir a
escadaria de quatro
em quatro degraus.
A porta do segundo andar estava fechada! Louco de raiva
e ansiedade, joga-se contra a porta, que acaba cedendo.
Os gritos
de Clara soam mais fracos,
agora.
– Socorro! Salvem-me! – Ouvia os gritos lá de cima.
“Ela está morta, assassinada por este louco!”,
geme Lothar.
A porta da galeria também estava fechada, mas o desespero deu a Lothar a força que não tinha. Arrebenta a porta, que gira sobre seus
gonzos. Deus do céu! Clara, segura nos braços esticados de Natanael, está
suspensa no espaço, por cima da balaustrada, ainda agarrando as barras de ferro
com as mãos. Rápido como o relâmpago,
Lothar segura a irmã, puxa-a para trás e dá um
soco no rosto do demente, que tomba de costas, largando sua presa.
Lothar desce as
escadas correndo, a irmã em seus
braços. Está salva! Natanael começa a correr de um lado para outro da galeria, aos pulos, gritando:
– Roda de fogo,
gira, gira! Roda de fogo,
gira! As pessoas se juntaram
ao ouvir os gritos selvagens. Entre
elas se destacava a figura gigantesca do advogado
Coppelius, que acabara de
chegar à cidade, indo diretamente para o mercado. Queriam subir para prender o louco, mas Coppelius
começa a gargalhar e diz:
– Ora! Vamos
esperar que desça sozinho! – E levantou
o rosto, como todas as outras pessoas.
De repente, Natanael estaca, como se estivesse
congelado, se dobra sobre a
balaustrada, vê Coppelius, e dá gritos agudos: “Ah! Occhi belli!
Occhi belli!”, salta por cima dela.
Natanael jaz no pavimento, a cabeça arrebentada. E Coppelius desaparece na multidão.
Muitos anos
depois, disseram ter visto Clara, numa região longínqua, sentada ao lado de um
homem de boa aparência. Estavam de mãos dadas, na soleira da linda casa de
campo. Dois alegres garotos faziam travessuras à frente deles. A conclusão:
Clara acabou encontrando a tranquila
felicidade doméstica que convinha a seu caráter
benigno e a seu gosto pela vida.
Felicidade que Natanael, com sua
alma dilacerada, jamais lhe poderia ter dado.
[1817]
(In: O Homem da Areia. Trad. Ary Quintella.
Org. e apresentação Fernando Sabino. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2012).
***
O gato preto
Edgar Allan Poe
Não espero nem peço que acreditem
nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de
escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus
sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente
não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha
alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente,
sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que
domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me
terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá-los
nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão
menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum
intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma
inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta
perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, nada mais que uma
sucessão ordinária de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância observaram minha
docilidade e a humanidade de meu caráter. A ternura de meu coração era de fato
tão conspícua que me tornava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava
especialmente de animais e, assim, meus pais permitiam que eu criasse um grande
número de mascotes. Passava a maior parte de meu tempo com eles e meus momentos
mais felizes transcorriam quando os alimentava ou acariciava. Esta
peculiaridade de caráter cresceu comigo e, ao tornar-me homem, prossegui
derivando dela uma de minhas principais fontes de prazer. Todos aqueles que
estabeleceram uma relação de afeto com um cão inteligente e fiel dificilmente
precisarão que eu me dê ao trabalho de explicar a natureza da intensidade da
gratificação que deriva de tal relacionamento. Existe alguma coisa no amor
altruísta e pronto ao sacrifício de um animal que vai diretamente ao coração
daquele que teve ocasiões frequentes de testar a amizade mesquinha e a frágil
fidelidade dos homens.
Casei-me cedo e tive a felicidade de
encontrar em minha esposa uma disposição que não era muito diferente da minha.
Observando como gostava de animais domésticos, ela não perdeu oportunidade para
me trazer representantes das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros,
peixinhos dourados, um belo cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
Este último era um animal
notavelmente grande e belo, completamente preto e dotado de uma sagacidade realmente
admirável. Ao falar de sua inteligência, minha esposa, cujo coração não era
afetado pela mínima superstição, fazia frequentes alusões à antiga crença
popular de que todos os gatos pretos eram bruxas disfarçadas. Não que ela
jamais mencionasse esse assunto seriamente – e se falo nele é simplesmente
porque me recordei agora do fato.
Pluto – esse era o nome do gato – era
minha mascote favorita e era com ele que passava mais tempo. Era só eu que o
alimentava e o animal me acompanhava em qualquer parte da casa em que eu fosse.
De fato, era difícil impedi-lo de sair à rua comigo e acompanhar-me.
Nossa amizade perdurou desta forma
por diversos anos, durante os quais meu temperamento geral e meu caráter –
devido à interferência da Intemperança criada pelo Demônio – tinham (meu rosto
se cobre de rubor ao confessá-lo) sofrido uma mudança radical para pior. A cada
dia que se passava eu ficava mais mal-humorado, mais irritável, menos
interessado nos sentimentos alheios. Permitia-me usar linguagem grosseira com
minha própria esposa. Após um certo período de tempo, cheguei a torná-la alvo
de violência pessoal. Naturalmente, minhas mascotes sentiram a diferença em
minha disposição. Não apenas as negligenciava, como chegava a tratá-las mal.
Mas com relação a Pluto, entretanto, eu ainda conservava suficiente
consideração para conter-me antes de maltratá-lo, ao passo que não tinha
escrúpulos em judiar dos coelhos, do macaco e até mesmo do cão quando, por
acidente ou até mesmo por afeição, eles se atravessavam em meu caminho. Porém
minha doença cresceu cada vez mais – pois que doença é pior que o vício do
alcoolismo? – e, finalmente, até Pluto, que estava agora ficando velho e, em
consequência, um tanto impertinente, até Pluto começou a experimentar os
efeitos de meu mau humor.
Uma noite, ao chegar em casa bastante
embriagado, depois de um de meus passeios sem destino através da cidade,
imaginei que o gato estava evitando minha presença. Agarrei-o à força; e então,
assustado por minha violência, ele infligiu uma pequena ferida em minha mão com
os dentinhos. A fúria de um demônio possuiu-me instantaneamente. Nem sequer
conseguia reconhecer a mim mesmo. Minha alma original parecia ter fugido
imediatamente de meu corpo; e uma malevolência mais do que satânica, alimentada
pelo gim, assumiu o controle de cada fibra de meu corpo. Tirei um canivete do bolso
de meu colete, abri a lâmina, agarrei a pobre besta pela garganta e
deliberadamente arranquei da órbita um de seus olhos. Encho-me de rubor e meu
corpo todo estremece enquanto registro esta abominável atrocidade.
Quando a manhã me trouxe de volta à
razão – depois que o sono tinha apagado a maior parte do fogo de minha orgia
alcoólica –, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime
que havia cometido. Mas este sentimento foi no máximo débil e elusivo e a alma
permaneceu intocada. Novamente mergulhei em meus excessos e logo afoguei na
bebida toda lembrança de minha má ação.
Enquanto isso, o gato lentamente se
recuperou. A órbita vazia do olho perdido apresentava, naturalmente, uma
aparência assustadora, mas ele não parecia estar sofrendo mais nenhuma dor.
Andava pela casa, como de costume, mas, como se poderia esperar, fugia de mim
em extremo terror cada vez que chegava perto dele. Ainda me restava uma certa
parte de meu ânimo anterior e a princípio lamentei que agora me detestasse
tanto uma criatura que já me havia amado. Mas este sentimento logo deu lugar à
irritação. E então fui acometido, como se fosse para minha queda final e
irrevogável, pelo espírito da Perversidade. A própria filosofia não estudou
este espírito. E todavia, assim como tenho certeza de possuir uma alma vivente,
é minha convicção que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração
humano – uma das faculdades primárias e indivisíveis, um dos sentimentos que
dão origem e orientam o caráter do Homem. Quem já não se flagrou uma centena de
vezes a cometer uma ação vil ou meramente tola por nenhuma razão exceto sentir
que não devia? Não temos todos nós uma inclinação perpétua e contrária a nosso
melhor julgamento para violar as Leis, simplesmente porque compreendemos que
são obrigatórias? Pois foi este espírito de Perversidade, digo eu, que veio a
causar minha queda final. Foi este anseio insondável da alma, que anela por
prejudicar a si mesma, por oferecer violência à sua própria natureza, por
praticar o mal pelo amor ao mal e nada mais, que me impulsionou a prosseguir e
finalmente consumar a injúria que tinha infligido sobre a pequena besta
inofensiva. Uma manhã, a sangue-frio, passei-lhe um laço ao redor da garganta e
o pendurei no galho de uma árvore – enforquei-o com lágrimas nos olhos,
sentindo ao mesmo tempo o remorso mais amargo em meu coração –, assassinei o
pobre gato porque sabia que ele me tinha amado e porque eu entendia muito bem
que ele não me tinha dado razão alguma de queixa – matei-o porque sabia que ao
fazê-lo estava cometendo um pecado – um pecado mortal que iria manchar minha
alma imortal ao ponto de colocá-la – se isso fosse possível – fora do alcance
até mesmo da infinita misericórdia do Deus Mais Misericordioso e Mais
Terrível.
Na noite seguinte ao dia em que
pratiquei esta ação cruel, fui despertado do sono por gritos de “Fogo!”. As cortinas
de meu leito estavam em chamas. A casa inteira estava ardendo. Foi com grande
dificuldade que minha esposa, uma criada e eu mesmo escapamos da conflagração.
A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram consumidos e a
partir desse momento entreguei-me ao desespero.
Estou acima da fraqueza de tentar
estabelecer uma sequência de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade.
Mas estou detalhando um encadeamento de fatos – e não desejo deixar imperfeito
um só dos elos da corrente. No dia que se seguiu ao incêndio, visitei as
ruínas. Todas as paredes tinham desabado, à exceção de uma única. Esta exceção
foi a de um aposento interno, uma parede não muito grossa, que se erguia mais
ou menos na metade da casa, justamente aquela contra a qual descansava a
cabeceira de minha cama. O próprio reboco tinha ali, em grande parte, resistido
à ação do fogo – segundo julguei, porque era feito de argamassa nova, talvez
ainda um pouco úmida. Em torno desta parede estava reunida uma grande multidão;
e muitas pessoas pareciam estar examinando um trecho especial dela, com
minuciosa atenção. As palavras “estranho”, “singular” e outras semelhantes
excitaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se estivesse gravado em bas
relief sobre a superfície branca, a
figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão
realmente maravilhosa. Havia uma corda esboçada ao redor do pescoço do
animal.
Da primeira vez que contemplei esta
aparição – porque dificilmente poderia chamá-la de algo menos assombroso –, meu
espanto e meu terror foram extremos. Mas, finalmente, o raciocínio e a reflexão
vieram em meu amparo. O gato, segundo recordava, tinha sido enforcado em um
jardim adjacente à casa. Logo que fora dado o alarme de incêndio, este jardim
ficou imediatamente cheio de basbaques, um dos quais provavelmente tinha
cortado a corda que prendia à arvore o gato e jogado o animal dentro de meu
quarto através de uma janela aberta. Talvez até mesmo a intenção fosse boa,
quem sabe queriam acordar-me do sono e lançassem o animal janela adentro para
esse fim. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima de minha
crueldade na própria substância do reboco recém-aplicado; o cal contido nele,
misturado à amônia proveniente da carcaça, com o calor das chamas, tinha então
realizado o retrato que contemplava agora.
Embora eu satisfizesse minha razão
assim rapidamente, se bem que não tivesse podido acalmar totalmente minha
consciência e tentasse desse modo descartar o fato assombroso que acabei de
descrever, isso não impediu que produzisse forte impressão sobre minha imaginação.
Durante meses não conseguia livrar minha visão interna do fantasma do gato; e,
durante esse período, retornou a meu espírito uma espécie de sentimento que se
assemelhava a remorso, mas não era exatamente isso. Cheguei ao ponto de
lamentar a perda do animal e a procurar, nos ambientes ordinários que agora
habitualmente frequentava, outra mascote da mesma espécie, cuja aparência fosse
semelhante e pudesse ocupar o vazio deixado pela primeira.
Uma noite eu estava sentado,
entorpecido de tanto beber, em um botequim da pior espécie, quando minha
atenção foi subitamente atraída para um objeto preto que repousava sobre a
tampa de uma das imensas bordalesas de gim ou de rum que constituíam o
principal mobiliário da peça. Há vários minutos eu já contemplava fixamente a
tampa desse barril, e o que agora me causava surpresa era o fato de que não
houvesse percebido antes o objeto que se encontrava sobre ele. Aproximei-me a
passos vacilantes, estendi a mão e toquei-o. Era um gato preto – um animal
muito grande –, tão grande quanto Pluto e extremamente parecido com ele em
todos os detalhes, salvo um: Pluto não tinha um pelo branco sequer em qualquer
porção de seu corpo; mas este gato tinha uma mancha branca bastante grande,
embora de formato indefinido, cobrindo-lhe quase inteiramente o peito.
Assim que o toquei, o animal
ergueu-se imediatamente, ronronou bem alto, esfregou-se contra minha mão e
pareceu encantado com minha atenção. Tinha encontrado a própria criatura que
vinha procurando. Imediatamente fui falar com o taverneiro e ofereci-me para
comprar o bichano, mas ele disse que o animal não lhe pertencia – que nunca o
tinha visto antes e que não fazia a menor ideia de onde tinha vindo ou a quem
pudesse pertencer.
Continuei com minhas carícias, e,
quando me dispus a ir para casa, o animal demonstrou estar disposto a me
acompanhar. Permiti-lhe que o fizesse; de fato, durante o caminho,
ocasionalmente parava, curvava-me e fazia-lhe carícias. Quando chegamos à casa
em que agora eu morava, ele familiarizou-se de imediato, adquirindo em seguida
as boas graças de minha esposa.
Quanto a mim, para meu
desapontamento, logo descobri que não gostava do animal. Isto era justamente o
reverso do que havia antecipado; porém – não sei como nem por que – o evidente
prazer que o gato achava em minha companhia me aborrecia e enojava. Lenta e
progressivamente, estes sentimentos de desgosto e aborrecimento se
transformaram em rancor e ódio. Evitava a criatura, sempre que podia; uma certa
sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo feito de crueldade evitaram
que eu o machucasse fisicamente. Durante algumas semanas, eu não bati nele nem
o maltratei violentamente; mas gradualmente – muito gradualmente – comecei a
encará-lo com uma repugnância indescritível e a fugir silenciosamente de sua
presença odienta, como se estivesse tentando escapar do sopro sufocante de um
pântano ou do hálito pestilento de uma praga.
Sem a menor dúvida, o que originou
meu rancor pelo animal foi a descoberta, logo na manhã seguinte à noite em que
o trouxe para casa, de que ele, exatamente como Pluto, também tivera um dos
olhos arrancado. Esta circunstância, entretanto, só levou minha esposa a gostar
ainda mais dele, a qual, conforme relatei anteriormente, possuía em alto grau
aquela humanidade de sentimentos que em épocas passadas fora também um de meus
traços característicos e a fonte de muitos de meus prazeres mais simples e
puros.
À medida que aumentava minha aversão
pelo gato, seu amor por mim parecia crescer na mesma proporção. Seguia meus
passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender. Onde
quer que me assentasse, vinha enroscar-se embaixo de minha cadeira ou saltar
sobre meus joelhos, cobrindo-me de carinhos nojentos. Se eu me erguesse para
caminhar, ele se intrometia entre meus pés e quase me fazia cair; ou, então,
cravava suas unhas longas e afiadas em minhas roupas e procurava, desta forma,
trepar até chegar a meu peito. Nessas ocasiões, embora eu ansiasse por
rebentá-lo à pancada, ainda me sentia incapaz de fazê-lo, em parte pela
recordação de meu crime anterior, mas especialmente – confessarei de imediato –
porque tinha absoluto pavor daquele animal.
Este pavor não era exatamente um
temor da possibilidade de algum dano físico, todavia não sou capaz de defini-lo
de outra forma. Estou quase envergonhado de admitir – sim, mesmo nesta cela de
condenado tenho quase vergonha de admitir – que o terror e horror que o animal
me inspirava tinham sido muito aumentados por uma das mais ilusórias quimeras
que teria sido possível conceber. Minha esposa me tinha chamado a atenção, mais
de uma vez, para o caráter da mancha de pelo branco que já mencionei e que constituía
a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha morto.
O leitor há de lembrar que esta marca, embora grande, era originalmente muito
indefinida; porém, muito lentamente, de uma forma quase imperceptível, uma
forma que por muito tempo minha Razão lutou para considerar como meramente
fantasiosa, acabou por assumir um contorno rigorosamente distinto. Era agora a
representação de um objeto tal que a simples ideia de mencioná-lo me faz
tremer. Era por isso, acima de tudo, que eu detestava e temia tanto aquele
monstro e teria me livrado dele, se ao menos eu ousasse. Essa imagem, escrevo
agora, era a imagem de uma coisa horrível, uma coisa apavorante... a imagem de
uma FORCA! Ah, melancólico e terrível instrumento de Horror e de Crime – de
Agonia e de Morte!
E agora eis que me encontrava
realmente desgraçado, um miserável além da desgraça e da miséria da natureza
humana. E era um animal sem alma, cujo companheiro eu tinha destruído com
desprezo, era um animal sem alma que originava em mim – eu, que era um homem,
criado à imagem do Deus Altíssimo – tanta angústia intolerável! Ai de mim! Nem
de dia, nem de noite eu era mais abençoado pelo Repouso! Durante o dia a
criatura não me deixava por um único momento; e, de noite, eu me acordava de
hora em hora, despertado de sonhos cheios de um pavor indescritível, para
encontrar a respiração quente daquela coisa soprando diretamente sobre meu
rosto e seu enorme peso – um pesadelo encarnado do qual eu não poderia jamais
me acordar, oprimindo e esmagando eternamente o meu coração!
Sob a pressão de tormentos assim, os
débeis traços que restavam de minha boa natureza sucumbiram totalmente. Os maus
pensamentos se tornaram meus amigos íntimos, meus únicos amigos, logo os
pensamentos mais ímpios e mais maléficos. O mau humor de minha disposição
habitual transformou-se em um rancor indefinido voltado para todas as coisas e
para toda a humanidade; e os acessos de fúria súbitos, frequentes e
incontroláveis aos quais eu agora me abandonava cegamente e sem o menor remorso
eram descarregados – ai de mim! – precisamente sobre minha esposa, a sofredora
mais paciente e mais constante, que nunca emitia sequer uma palavra de queixa
ou de revolta contra mim.
Um dia ela me acompanhou, com a
intenção de executar alguma tarefa doméstica, ao porão do velho edifício em que
nossa pobreza atual nos obrigava a morar. O gato me seguiu pelos degraus
íngremes e, quando me fez tropeçar e quase me levou a cair escada abaixo,
deixou-me exasperado a ponto de enlouquecer. Erguendo um machado, esquecido em
minha cólera do medo infantil que até então havia impedido que levantasse um
dedo contra ele, dirigi um golpe ao animal que, sem a menor dúvida, teria sido
fatal se tivesse acertado onde eu queria. Porém a machadada foi impedida pela
mão de minha esposa a segurar-me o braço. Esta interferência me lançou em uma
raiva mais do que demoníaca: arranquei o braço de seu aperto e, com um único
golpe, enterrei o machado na cabeça dela. Ela caiu morta no mesmo lugar, sem
soltar um único gemido.
Tendo cometido este assassinato
pavoroso, imediatamente, sem remorsos e da maneira mais deliberada possível,
voltei-me para a tarefa de esconder o corpo. Sabia que não podia removê-lo da
casa, tanto de dia como de noite, sem correr o risco de ser observado pelos
vizinhos. Uma série de projetos passou por minha cabeça. Durante algum tempo,
pensei em cortar o corpo em minúsculos fragmentos que depois destruiria no
fogo. Depois pensei em cavar-lhe uma cova no chão do porão. Também me passou
pela cabeça jogar o cadáver no poço que ficava no pátio; ou colocá-lo dentro de
uma caixa, como se fosse uma mercadoria, aplicando todos os cuidados que em
geral se dedica à preparação de tais volumes e contratando um carregador para
retirá-lo da casa. Finalmente, imaginei o que me pareceu ser um expediente
melhor que qualquer um desses. Resolvi emparedá-lo em um dos cantos do porão –
conforme dizem que os monges da Idade Média costumavam fazer com suas
vítimas.
O porão estava perfeitamente adaptado
para esse propósito. Suas paredes tinham sido muito mal-construídas e há pouco
tempo tinham sido novamente rebocadas com uma argamassa grosseira, que a umidade
do ambiente não deixara endurecer. Além disso, em uma das paredes havia uma
projeção, causada por uma falsa chaminé ou lareira que tinha sido preenchida
com tijolos na intenção de assemelhá-la ao restante das paredes do porão. Não
tinha dúvidas de que poderia facilmente retirar os tijolos neste ponto, enfiar
o cadáver e depois restaurar a parede inteira ao estado anterior, de tal modo
que olhar algum poderia detectar qualquer coisa suspeita.
Não me enganava neste ponto. Com um
pé de cabra retirei facilmente os tijolos e, depois de depositar o corpo
cuidadosamente contra a parede interna, ergui-o de modo a deixá-lo em pé,
apoiado contra a parede. Com pouca dificuldade recoloquei os tijolos e deixei a
estrutura precisamente da maneira em que se achava antes. Tendo trazido cal,
areia e uma porção de pelos de animais retirados de couros, como era costume na
época, preparei, com todas as precauções possíveis, uma argamassa que não podia
ser diferente da que recobria o restante da parede e com esta reboquei muito
cuidadosamente os tijolos que havia recolocado. Ao terminar, sentia-me
satisfeito com a perfeição do trabalho. A parede não apresentava o menor sinal
de que tinha sido modificada. Recolhi a caliça do chão com o cuidado mais
minucioso. Olhei ao meu redor triunfantemente e congratulei-me: “Pelo menos
desta vez não trabalhei em vão”.
Minha próxima tarefa era a de
procurar a besta que tinha sido a causa de tamanha desgraça, porque tinha,
finalmente, a firme resolução de matá-la. Se nesse momento tivesse podido
encontrá-la, seu destino estaria selado, mas aparentemente o animal ardiloso
tinha pressentido alguma coisa ou se amedrontado com a violência de minha raiva
anterior, evitando apresentar-se diante de mim enquanto durasse minha má
disposição. É impossível descrever ou imaginar a sensação de alívio profunda e
abençoada que a ausência da detestada criatura causou em meu peito. Melhor
ainda, o gato não apareceu nessa noite – e assim, ao menos por uma noite, desde
que o desgraçado se introduzira em minha casa, dormi profunda e tranquilamente;
sim, dormi o sono dos justos, mesmo que tivesse agora o peso de um assassinato
em minha alma!
Passaram-se o segundo e o terceiro
dias e meu atormentador não regressou. Novamente eu respirava como um homem livre.
O monstro tinha fugido aterrorizado e deixado para sempre minha companhia!
Nunca mais iria vê-lo! Minha felicidade era suprema! O remorso ocasionado por
minha ação tão negra e perversa praticamente não me perturbava. Algumas
perguntas haviam sido feitas, mas fora fácil responder. Até mesmo havia sido
feita uma busca pela polícia, mas naturalmente não haviam descoberto nada.
Pensei que minha felicidade futura estava assegurada.
Mas no quarto dia depois do
assassinato, uma patrulha da polícia retornou, muito inesperadamente, entrou em
minha casa e recomeçou a fazer uma investigação rigorosa do prédio. Achava-me
seguro, todavia, devido à impenetrabilidade do lugar em que escondera o
cadáver, e assim não me senti nem um pouco constrangido pela busca. Os policiais
ordenaram-me que os acompanhasse enquanto procuravam. Não deixaram nem canto
nem escaninho sem explorar. Finalmente, pela terceira ou quarta vez, desceram
ao porão. Não senti estremecer nem um só de meus músculos. Meu coração batia
calmamente como o de alguém perfeitamente inocente. Caminhei de ponta a ponta
do porão. Cruzei os braços e fiquei andando de um lado para outro. A polícia
finalmente satisfez-se e estava a ponto de partir, desta vez em definitivo. A
alegria em meu coração era grande demais para ser contida. Ansiava para dizer
ao menos uma palavra de triunfo e queria garantir-me duplamente de que eles me
julgavam inocente.
– Cavalheiros – disse finalmente,
enquanto o grupo subia as escadas –, estou encantado por ter desfeito todas as
suas suspeitas. Desejo a todos uma boa saúde e um pouco mais de cortesia. A
propósito, cavalheiros esta casa, esta casa é muito bem-construída. (Tomado de
um violento desejo de aparentar a maior naturalidade, falava sem prestar muita
atenção no que dizia.) Posso até dizer que é uma casa excelentemente
bem-construída. Estas paredes – já estão de partida, cavalheiros? –, estas
paredes são muito sólidas.
E foi neste ponto que, tomado por um
estúpido frenesi de bravata, bati pesadamente com uma bengala que tinha na mão
justamente sobre aquela porção da parede atrás da qual jazia o cadáver da
esposa que tinha apertado tantas vezes contra o peito.
Possa Deus escudar-me e proteger-me
das presas do Pai dos Demônios! Tão logo a reverberação dos golpes que havia
dado desapareceu no silêncio, foi respondida por uma voz de dentro do túmulo! –
respondida por um grito, a princípio abafado e entrecortado, como os soluços de
uma criança, mas rapidamente se avolumando em um grito longo, alto e contínuo,
totalmente anormal e desumano – um uivo –, um guincho lamentoso, meio de horror
e meio de triunfo, tal como só poderia ter subido das profundezas do inferno,
um berro emitido conjuntamente pelas gargantas de centenas de condenados à
danação eterna, torturados em sua agonia, e pelos demônios que exultam em sua
condenação.
É tolice tentar descrever meus
pensamentos. Sentindo-me desmaiar, cambaleei até a parede oposta. Por um
instante, o grupo de policiais que subia as escadas permaneceu imóvel, em um
misto de espanto e profundo terror. No momento seguinte, uma dúzia de braços
robustos esforçava-se por esboroar a parede. Ela caiu inteira. O cadáver, já
bastante decomposto e coberto de sangue coagulado, estava ereto perante os
olhos dos espectadores, na mesma posição em que eu o deixara. Mas sobre sua
cabeça, com a boca vermelha escancarada e uma chispa de fogo no único olho,
sentava-se a besta horrenda cujos ardis me tinham levado ao assassinato e cuja
voz denunciadora agora me levaria ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro
dentro do túmulo!
[1843]
(Fonte: Internet)
***
Sem olhos
Machado de Assis
O chá foi servido na saleta das palestras íntimas às quatro visitas do casal Vasconcelos. Eram estas o sr. Bento Soares, sua esposa D. Maria do Céu, o bacharel Antunes e o desembargador Cruz. A conversa, antes do chá, versava sobre a íntima soirée do desembargador; quando o criado entrou, passaram a tratar da morte de um conhecido, depois das almas do outro mundo, de um conto de bruxas, finalmente de lobisomem e das abusões dos índios.
– Pela minha parte – disse o Sr. Bento Soares –, nunca pude compreender como o espírito humano pode inventar tanta tolice e crer no invento. Vá que uma ou outra criança dê crédito às suas próprias ilusões; para isso mesmo é que são crianças. Mas, que um homem feito...
– Que tem isso? – observou o desembargador apresentando a xícara ao criado para que lhe repetisse o chá –; a vida do homem é uma série de infâncias, umas menos graciosas que as outras.
– Queres mais chá, Maria? – perguntou a dona da casa à esposa de Bento Soares que acabava de beber a última gota do seu.
– Não.
O bacharel Antunes apressou-se a receber a xícara de D. Maria do Céu, com uma cortesia e graça, que lhe rendeu o mais doce dos sorrisos.
– Eu acompanho o desembargador –, disse Bento Soares.
Enquanto o bacharel Antunes ampliava ao marido de Maria o obséquio que acabava de prestar a esta, com a mesma solicitude, mas sem receber do mesmo nem outro sorriso, e passava ao criado a xícara vazia, Bento Soares prosseguia em suas ideias acerca das abusões humanas. Bento Soares estava profundamente convencido que o mundo todo tinha por limites os do distrito em que ele morava, e que a espécie humana aparecera na Terra no primeiro dia de abril de 1832, data de seu nascimento. Esta convicção diminuía ou antes eliminava certos fenômenos psicológicos e reduzia a história do planeta e de seus habitantes a uma certidão de batismo e vários acontecimentos locais. Não havia para ele tempos pré-históricos, havia tempos pré-soáricos. Daí vinha que, não crendo ele em certas lendas e contos da carocha, mal podia compreender que houvesse homem no mundo capaz de ter crido neles uma vez ao menos.
A conversa porém bifurcou-se; enquanto o desembargador referia a Bento Soares e ao dono da casa algumas notícias relativas a crenças populares antigas e modernas, as duas senhoras conversavam com o bacharel sobre um ponto de toilette... Maria do Céu era uma mulher bela, ainda que baixinha, ou talvez por isso mesmo, porquanto as feições eram consoantes à estatura; tinha uns olhos miúdos e redondos, uma boquinha que o bacharel comparava a um botão de rosa, e um nariz que o poeta bíblico só por hipérbole poderia comparar à torre de Galaad. A mão, que, essa, sim, era um lírio dos vales – lilium convalium –, parecia arrancada a alguma estátua, não de Vênus, mas de seu filho; e eu peço perdão desta mistura de cousas sagradas com profanas, a que sou obrigado pela natureza mesma de Maria do Céu. Quieta, podiam pô-la num altar; mas, se movia os olhos, era pouco menos que um demônio. Tinha um jeito peculiar de usar deles que enfeitiçou alguns anos antes a gravidade de Bento Soares, fenômeno que o bacharel Antunes achava o mais natural do mundo. Vestia nessa noite um vestido cor de pérola, objeto da conversa entre o bacharel e as duas senhoras. Antunes, sem contestar que a cor de pérola ia perfeitamente à esposa de Bento Soares, opinava que era geral acontecer o mesmo às demais cores; donde se pode razoavelmente inferir que em seu parecer a porção mais bela de Maria não era o vestido, mas ela mesma.
Uma contestação, em voz mais alta, chamou a atenção deles para o grupo dos homens graves. Bento Soares dizia que o desembargador mofava da razão afiançando acreditar em almas do outro mundo; e o desembargador insistia em que a existência dos fantasmas não era cousa que absolutamente se pudesse negar.
– Mas, desembargador, isto é querer supor que somos uns beócios. Pois fantasmas...
– Não me dirá nada de novo –, interrompeu Cruz –; sei o que se pode dizer contra os fantasmas; não obstante, existem.
– Como as bexigas; também se diz muita cousa contra elas.
– Fantasmas! – exclamou Maria do Céu –. Pois há quem tenha visto fantasmas?
– É o desembargador quem o diz – observou Vasconcelos.
– Deveras?
– Nada menos.
– Na imaginação – disse o bacharel.
– Na realidade.
Os ouvintes sorriram; Maria fez um gesto de desdém.
– Se a entrada na Relação dá em resultado visões dessa natureza, declaro que vou cortar as asas às minhas ambições – observou o bacharel olhando para a esposa de Bento Soares, como a pedir-lhe aprovação do dito.
– Os fantasmas são fruto do medo – disse esta, sentenciosamente –. Quem não tem medo não vê fantasmas.
– Você não tem medo? – perguntou a dona da casa.
– Tanto como deste leque.
– Sempre há de ter algum – opinou Vasconcelos.
– Não tenho medo de nada nem de ninguém.
– Pode ser – interveio o desembargador –; mas se visse o que eu vi uma vez, estou certo de que ficaria apavorada.
– Alguma bruxa?
– O Diabo?
– Um defunto à meia-noite?
– Um duende?
Cruz empalidecera.
– Falemos de outra cousa – disse ele.
Mas o auditório tinha a curiosidade aguçada, e o próprio mistério e recusa do desembargador faziam crescer o apetite. Os homens insistiram; as senhoras fizeram coro com eles. Cruz imolou-se ao sufrágio universal.
– O que eu vi foi há muitos anos – disse ele –; ainda assim conservo a memória fresca do que me aconteceu. Não sei se poderei ir até o fim; e desde já estou certo de que vou passar uma triste noite...
Uma risadinha de Maria do Céu interrompeu o desembargador.
– Prepare o auditório! – disse ela –. Vamos ver que a montanha dá à luz um ratinho.
Alguns sorriram; mas o desembargador estava sério e pálido. Bento Soares ofereceu-lhe uma pitada de rapé, enquanto Vasconcelos acendia um charuto. Fez-se grande silêncio; só se ouvia o tic-tac do relógio e o movimento do leque de Maria do Céu. O desembargador olhou para os interlocutores, como a ver se era possível evitar a narração; mas a curiosidade estava tão pendente de todos os olhos, que era impossível resistir.
– Vá lá! – disse ele –; Contarei isto em duas palavras. Quando eu estudava em São Paulo raras vezes gozava as férias todas na fazenda de meu pai; ia a Cantagalo passar algumas semanas e voltava logo para o Rio de Janeiro, aonde me chamava o meu primeiro e último namoro; paixão de quatro anos, que a Igreja consagrou e só a morte extinguiu. Nas férias do terceiro ano fui morar no primeiro andar de uma casa da rua da Misericórdia. No segundo morava um homem de quarenta anos que parecia ter mais de cinquenta, tão alquebrado e encanecido estava. Éramos os dois moradores únicos, salvo o meu pajem, que fazia o número três. O vizinho de cima não tinha criado.
A primeira vez que o vi foi logo no dia seguinte da minha entrada na casa. Ao passar pelo corredor dei com ele na escada, que ia do primeiro para o segundo andar; de pé, com livro aberto nas mãos. Tinha um pé no quinto e outro no sexto degrau. Fiquei a olhar de baixo para ele, durante algum tempo; não o conhecendo, entrei a suspeitar se seria algum ladrão. O pajem explicou-me que era o morador de cima.
Dois dias depois, estando eu à noite em casa, perto das onze horas, a ler na minha sala, senti alguém bater-me à porta; fui abrir; era o vizinho, que descera, com um livro na mão, talvez o mesmo que lia dois dias antes na escada, não sei.
– Venho incomodá-lo, não? – disse ele.
Fiz um gesto duvidoso, e fiquei a olhar para ele como quem espera uma explicação.
– O morador da loja – continuou ele – disse-me hoje que o senhor é estudante. Talvez me possa explicar uma cousa. Sabe hebraico?
– Não.
– É pena! - disse ele consternado.
Ficou alguns instantes silencioso a olhar para o livro e para o teto. Depois fitou-me, e disse:
– Ando a ver se meto dente numa passagem de Jonas.
Dizendo isto, sentou-se abrindo o livro sobre os joelhos. Joelhos chamo eu, porque é esse o nome daquela região; mas o que ele tinha naquele lugar das pernas eram dois verdadeiros pregos, tão magro estava. A cara angulosa e descarnada, os olhos cavos, o cabelo hirsuto, as mãos peludas e rugosas, tudo fazia dele um personagem fantástico. Esteve algum tempo ainda silencioso, até que continuou:
– Há aqui um versículo de Jonas, é o 11 do cap. IV, em que leio: “E então eu não perdoarei a grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil homens, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda?”. Como entende o senhor este versículo?
A ideia de que o vizinho era doido apoderou-se logo de meu espírito. Que outra cousa seria, vindo consultar a semelhante hora a um vizinho de três dias, sobre um texto de Jonas? Também eu não tinha medo nesse tempo – tal qual como a Sra. D. Maria do Céu –, deixei-me estar quieto na cadeira, a olhar sem responder, contendo uma grande vontade de rir.
– Que lhe parece? – repetiu o vizinho.
– Que quer o senhor que me pareça?
– “Homens que não sabem discernir a mão direita da esquerda”; frase que, geralmente, tem um sentido óbvio, e vem a ser nada menos que isto: o profeta refere-se às crenças ninivitas. Jeová quer perdoar à cidade por amor dos meninos que ela encerra. Mas eu dou do texto uma interpretação que vai assombrar o mundo.
– Sim?
– Jonas não alude às crianças, mas aos canhotos que são os homens que não podem discernir a direita da esquerda. Sendo assim, veja o senhor a importância da minha interpretação. Duas cousas se concluem dela: primeira, que os ninivitas eram geralmente canhotos; segunda, que o ser canhoto era no entender dos hebreus um grande mérito. Desta última conclusão nasceu uma terceira, a saber, que chamar canhoto ao Diabo é estar fora do espírito bíblico. Isto é claro como água e evidente como a luz.
A profunda convicção com que ele disse tudo isto, e o ar de triunfo com que ficou a olhar para mim, confesso que me impressionaram singularmente. Não sabia que dizer; o melhor era concordar, declarando que a sua opinião era por força verdadeira.
– Não lhe parece? – disse ele –. Contudo, não sendo eu forte no hebraico, desejava consultar alguém que me dissesse se o texto original está bem traduzido na Vulgata, e se a expressão bíblica é essa ou outra diferente. Liquidado este ponto, escreverei um livro. Afiança-me que não sabe hebraico?
– Não sei sequer o alfabeto.
– Nesse caso há de perdoar.
Dizendo isto, ergueu-se, fez-me uma cortesia e deu um passo para a porta. Ali parou e voltou-se.
– Esquecia-me dizer-lhe o meu nome; devia de ser a primeira cousa. Chamo-me Damasceno Rodrigues; moro há três anos aqui em cima, onde estou às suas ordens. Viva.
Não esperou que lhe dissesse o meu nome; curvou-se e saiu. Imaginam facilmente como fiquei; a vontade de rir foi o primeiro efeito; o segundo foi uma mistura de pena, receio e curiosidade. No dia seguinte, disse ao pajem que tirasse informações acerca de Damasceno Rodrigues. Tirou-as e o que liquidei delas foi que o meu vizinho morava ali havia três anos, como dissera; que era um velho médico, sem clínica; que vivia pacificamente, saindo apenas para ir comer a uma casa de pasto da vizinhança ou ler duas horas na biblioteca pública; enfim, que no bairro ninguém o tinha por doido, mas que algumas velhas o supunham ligado com o Diabo. Esta crença, comparada com a ideia que o homem tinha a respeito do Canhoto, dava bem para uma anedota romântica que eu podia escrever logo depois que voltasse a São Paulo; tal foi o motivo que me levou a visitá-lo alguns dias depois.
O segundo andar era antes um sótão puxado à rua; compunha-se de uma sala, uma alcova e pouco mais. Subi. Achei-o na sala, estirado em uma rede, a olhar para o teto. Tudo ali era tão velho e alquebrado como ele; três cadeiras incompletas, uma cômoda, um aparador, uma mesa, alguns farrapos de um tapete, ligados por meia dúzia de fios, tais eram as alfaias da casa de Damasceno Rodrigues. As janelas, que eram duas, adornavam-se com umas cortinas de chita amarela, rotas a espaços. Sobre a cômoda e a mesa havia alguns objetos disparatados; por exemplo, um busto de Hipócrates ao pé de um bule de louça, três ou quatro bolos, meio pote de rapé, lenços e jornais. No chão também havia jornais e livros espalhados. Era ali o asilo do vizinho misterioso.
Achei-o, como lhes disse, estirado na rede, a olhar para o teto. Não me sentiu entrar; mas eu falei-lhe e ele ergueu um pouco a cabeça.
– Quem é? – disse ele.
– Eu.
– O senhor?
– Seu vizinho de baixo.
– Ah! – disse ele erguendo-se –. Pode entrar.
– Não se incomode; vinha apenas pagar-lhe a visita.
Damasceno tinha-se levantado; e das cadeiras ofereceu-me a melhor, isto é, a que não tinha costas, porque das outras duas, uma estava exausta de palhinha e a outra possuía três pés somente.
– Não é incômodo – disse ele sorrindo –; dá-me até muito prazer.
O riso de Damasceno era pior que a seriedade; sério, dava ares de caveira; rindo, havia nele um gesto diabólico; à tudo resiste porém a ambição do escritor juvenil. Eu queria uma novela, e estava disposto a conversar com o Diabo em pessoa. Para dizer alguma cousa, falei-lhe na passagem de Jonas.
– Descobriu alguma cousa? – perguntei-lhe.
– Nada -–tornou ele –; mas cuida que pensei mais em semelhante assunto?
– Suponho.
– Qual! No dia seguinte deixei-o de lado.
– Entretanto, creio que era importante decidir se realmente o nome de Canhoto dado ao Diabo...
Damasceno interrompeu-me com uma risadinha sardônica e gelada, que me tapou a boca. Não tive ânimo de continuar e faltava-me assunto para entretê-lo. Ele, entretanto, meteu as mãos nas algibeiras das calças e começou a andar de um para outro lado, ora cabisbaixo e silencioso, ora olhando para o teto e murmurando alguma cousa que eu não podia perceber. Havia no rosto daquele homem, além da velhice precoce, uma expressão de tristeza e amargura que os olhos não podiam contemplar impunemente. Ao mesmo tempo era tão extraordinária a figura e tão singulares os costumes dele, que a gente tinha prazer em o conversar e atrair, quando menos por sair um pouco da vulgaridade dos outros homens.
Damasceno passeou cerca de oito minutos, sem me dizer palavra. Ao cabo deles, parou defronte de mim.
– Mancebo – disse ele –, quais são as suas ideias a respeito da lua?
– Poucas... algumas notícias apenas.
– Sei – disse ele desdenhosamente –; o que anda nos compêndios. Pífia ciência é a dos compêndios! O que eu lhe pergunto...
– Adivinho.
– Diga.
– Quer saber se também suponho que o nosso satélite seja habitado?
– Qual! São devaneios, são conjecturas... A lua, meu rico vizinho, não existe, a lua é uma hipótese, uma ilusão dos sentidos, um simples produto da retina dos nossos olhos. É isto que a ciência ainda não disse; é isto o que convém proclamar ao mundo. Em certos dias do mês, o olho humano padece uma contração nervosa que produz o fenômeno lunar. Nessas ocasiões, ele supõe que vê no espaço um círculo redondo, branco e luminoso! O círculo está nos próprios olhos do homem.
– Pode ser.
– Nem é outra cousa.
– Donde se conclui que todos somos lunáticos –, aventurei eu galhofeiramente.
– Talvez – redarguiu ele rindo muito.
Depois de rir, caiu na rede; as pernas, que andavam à larga nas calças aliás estreitas, cruzavam-se à maneira oriental, e ele ficou sentado defronte de mim.
– Lunáticos! – repetiu ele.
– Dada a sua teoria – expliquei eu.
– Teoria de lunático?
– Perdão.
Já me não ouvia; com os dedos no ar fazia figuras extravagantes, retas, curvas, ângulos e triângulos, rindo à toa, com o riso pálido e sem expressão dos mentecaptos. Não havia dúvida; era uma alma sem consciência. Arrependi-me de alguma cousa que disse menos pousada, e procurei ao mesmo tempo um meio de sair dali sem o irritar. Não me foi difícil; três vezes me despedi, sem que ele me respondesse; saí sem objeção.
Chegando ao meu aposento, senti alguma cousa semelhante ao prazer de um homem que foge a um perigo ou a um incidente desagradável. Efetivamente a conversa de um homem sem juízo não era segura. Eu cuidava ter diante de mim um espírito original; saía-me um louco: o interesse diminuía ou mudava de natureza. Determinei acabar ali as minhas relações com Damasceno.
Durante quinze dias encontrei-o duas vezes, na escada; cumprimentou-me e falou-me como se tivera intactas todas as molas do cérebro. Queixou-se-me apenas de alguma dor de cabeça e palpitações do coração.
– Temo que isto vá a acabar – disse ele à segunda vez.
– Não diga isso!
– Verá; estou à beira da eternidade; vou dar o salto mortal.
Não alimentei a conversa, e saí. Nessa noite contou-me o pajem que Damasceno Rodrigues me procurara com muitas instâncias dizendo que desejava confiar-me um segredo. Era provavelmente alguma nova fantasia semelhante à de Jonas e à da lua, e eu não queria animar os desvarios de um pobre velho. Não lhe mandei dizer que estava em casa nem o procurei. Alta noite, e estando a ler, ouvi um gemido no andar de cima. Subi devagarinho, colei o ouvido à porta da sala de Damasceno, mas nada mais ouvi.
Soube no dia seguinte que Damasceno adoecera. Fui vê-lo pela volta do meio-dia. Como ele nunca fechava as portas, não foi preciso incomodá-lo, para lá entrar. Achei-o deitado na cama, com os olhos cerrados e os braços estendidos ao longo do corpo e por fora da coberta. Abriu os olhos, e sorriu ao ver-me.
– Que tem? – perguntei.
– Uma opressão no peito.
– Tomou alguma coisa?
– Que me fizesse mal?
– Não; algum remédio.
– Não tomei nada.
– Bem; é preciso ver o que isso é; vou mandar vir um médico.
Damasceno tinha os olhos cravados na parede; não me respondeu. Ia sair para dar ordens ao meu criado quando vi o enfermo sentar-se na cama, e olhando para a parede que lhe ficava ao lado dos pés, clamar aflito:
– Não! Ainda não! Vai-te! Depois! Daqui a um ano!... a dois... a três... Vai-te, Lucinda! Deixa-me!
Corri a Damasceno, falei-lhe, apalpei-lhe a testa, que estava quente, e obriguei-o a deitar-se. Uma vez deitado, ficou arquejante, a olhar para a sala, sem querer dirigir os olhos para os pés da cama.
– O que é que sente? – perguntei.
Não disse nada; talvez me não ouvisse. Saí para mandar chamar um médico, e voltei ao quarto do enfermo. Estava dormindo. O médico veio, examinou-o, interrogou-o, receitou enfim alguma cousa, que imediatamente mandei preparar na mais próxima botica. Mandei a uma casa da vizinhança arranjar caldos e galinha; finalmente dispus-me a não sair de casa nesse dia.
Não contava com o amor; duas linhas escritas em uma folha de papel bordado – como se usava no meu tempo – vieram mudar a resolução em que eu assentara. Saí, depois de fazer muitas recomendações ao criado e prometendo voltar cedo. Às oito horas da noite achava-me em casa; fui ter logo com o doente. Achei-o sossegado.
– Entre, entre, meu amigo – disse ele –; deixe-me chamar-lhe assim porque não tenho ninguém mais a quem dê esse doce nome.
– Está melhor?
– Estou; mas são melhoras passageiras.
– Não diga isso.
– São. Isso há de acabar cedo; sabe o que é a morte?
– Imagino.
– Não sabe. A morte é um verme, de duas espécies, conforme se introduz no corpo ou na alma. Mata em ambos os casos. Em mim não penetrou no corpo; o corpo geme porque a doença reflete nele; mas o verme está na alma. Nela é que eu o sinto a roer todos os dias.
– Pois matemos o verme–- disse eu, apresentando-lhe uma colher do remédio.
Damasceno olhou para o remédio e para mim e sorriu, com uma expressão de tranquilo ceticismo.
– Pobre moço! – disse ele depois de alguns instantes de silêncio.
– Vamos!
– Logo mais, amanhã, ou depois que eu morrer. Talvez ainda possa fazer algum beneficio ao meu cadáver. A alma não bebe água.
Insisti, mas foi baldado. Damasceno resistiu intrepidamente. Quando as minhas instâncias lhe pareceram excessivas começou a irritar-se, e eu, receoso de algum novo delírio, proveniente da exacerbação, cedi; fui ter com o criado que me referiu haver Damasceno tomado apenas uma colher do remédio e um caldo. Voltei ao quarto, achei-o tranquilo.
A luz do quarto era pouca, e esta circunstância, ligada ao espetáculo da doença e às feições do pobre velho alienado não menos que às recordações que já me prendiam a ele, tornara a situação por extremo penosa. Sentei-me ao pé da cama e tomei-lhe o pulso; batia apressado; a testa estava quente. Ele deixou que eu fizesse todos esses exames sem dizer nada. Tinha os olhos no teto e parecia alheio de todo à minha pessoa e à situação. Pouco depois chegou o médico, soube da resistência do enfermo em continuar a tomar o remédio, examinou-o, fez um gesto de desânimo, e ao sair disse-me que era homem perdido.
A perspectiva não era para mim agradável. Não podia razoavelmente desampará-lo e tinha talvez de assistir à sua morte naquela noite. Chamei o criado e escrevi um bilhete a dois colegas de São Paulo, residentes na Corte, pedindo-lhes que viessem passar a noite comigo. O criado saiu e eu sentei-me outra vez ao pé da cama.
No fim de alguns minutos, vi que Damasceno se agitava. Perguntei-lhe o que tinha.
– Nada – respondeu ele–-; mudo de posição. Que horas são?
– Nove e um quarto.
– O senhor pretende passar a noite comigo?
– Naturalmente.
O rosto do enfermo iluminou-se.
– Boa alma! – exclamou ele.
Depois procurou a minha mão e teve-a presa entre as suas algum tempo, olhando para mim com uma expressão de agradecimento, que lhe parecia tornar bela a fisionomia seca e dura.
– Que lhe fiz eu para merecer tanta dedicação? – perguntou ele ao cabo de alguns minutos de silêncio.
– Não falemos disso.
Damasceno calou-se.
– Que idade tem?
– Vinte e dois anos.
– Feliz! Feliz!
Calou-se outra vez e pareceu concentrar-se de novo. Pensei que iria dormir, mas ele voltou-se para mim dizendo:
– Quero pagar-lhe os seus benefícios.
– Pagará depois.
– Não; há de ser já.
Ergueu o corpo, apoiando o cotovelo na cama, pegou-me na mão e cravou em mim os olhos, acesos de uma luz repentina e única.
– Mancebo – disse ele, com a voz cava –; não olhe nunca para a mulher do seu próximo!
– Sossegue – disse eu.
– Sobretudo não obrigue a que ela olhe para o senhor. Comprará por esse preço a paz de sua vida toda.
A gravidade com que ele proferiu estas palavras excluía toda a ideia de loucura. A própria fisionomia parecia revelar o regresso da consciência. Olhei para ele algum tempo sem responder, nem ousar pedir-lhe explicação. Damasceno fitou o ar com expressão melancólica, abanou a cabeça três vezes e suspirou. Depois a cabeça caiu sobre o ombro, e ele ficou algum tempo quieto. Ouvindo o sino das dez horas, abriu os olhos e voltou-se para mim.
– Por que se não vai deitar?
– Não tenho sono.
– Perder uma noite por causa de um desconhecido!
– Não se preocupe comigo; descanse, que é melhor.
Damasceno meteu a mão debaixo do travesseiro, como procurando alguma cousa. Era uma chave. Deu-ma.
– Abra-me a gavetinha da cômoda, a do lado da rua.
– E depois?
– Tire de lá uma caixinha.
Obedeci. A caixinha era de couro e teria um palmo de comprimento. Quando lha levei, ele pô-la sobre a cama e olhou mudo para ela. Depois, tocou em uma pequena mola; a caixa abriu-se, e ele tirou de dentro um pequeno maço de papéis.
– Se eu morrer – disse ele –, queime isto.
– Feche tudo, é melhor.
– Não é preciso. O que aí está é um segredo, mas eu não quero morrer sem lho revelar. Não lhe disse há pouco que não consentisse nunca em olhar ou ser olhado pela mulher de seu próximo? Pois bem; saberá o resto.
A curiosidade pendurou-se-me dos olhos e, apesar da pouca luz da alcova, é possível que ele reparasse nisto, porque vi-o sorrir com uma expressão maliciosa e discreta.
– São papéis de família – continuou Damasceno –; cousas que só a mim interessam. Há aqui porém uma cousa que o senhor pode ver desde já.
Dizendo isto, destacou do maço de papéis uma miniatura e deu-ma pedindo que a visse. Aproximei-me da luz e vi uma formosa cabeça de mulher, e os mais expressivos olhos que jamais contemplei na minha vida. Ao restituir a miniatura reparei que ele a desviou apressadamente dos olhos metendo-a logo, com a mão trêmula, entre os papéis.
– Viu-a?
– Vi.
– Não me diga nada do que lhe parece. Imagino qual será a sua impressão. Calcule qual seria a minha há quinze anos, diante do original. Ela tinha vinte anos; eu, vinte e cinco...
Damasceno interrompeu-se; arrependia-se talvez; e eu não ousava, em tal situação, mostrar-me indiscreto e curioso. Ele entretanto atava o maço de papéis e a miniatura com um cadarço velho, e entregou-me tudo.
– Guarde. Jura que queimará isso?
– Juro.
Guardei no bolso o maço enquanto ele, reclinando o corpo, ficou tranquilo. Durante cinco minutos nada disse; começou a murmurar palavras sem sentido, com esgares próprios de louco. Esta circunstância chamou-me à realidade. Não seriam os papéis e o retrato cousas sem valor, a que ele em seu desvario atribuía tamanha importância? Damasceno falou de novo.
– Guardou?
– Guardei.
– Deixe ver.
– Está aqui – disse-lhe eu, mostrando o embrulho.
– Está bem.
E depois de uma pausa:
– Eu era moço, ela, moça; ambos inocentes e puros. Sabe o que nos matou? Um olhar.
– Um olhar!
– Era no interior da Bahia; Lucinda casara-se na capital com o dr. Adr... Não importa o nome; era médico como eu, mas rico e dado a estudos de botânica e mineralogia. Andava por Jeremoabo naquele tempo. Eu encontrei-o num engenho e travei relações com ele. A mulher era linda como o senhor a viu aí. Ele era sábio, taciturno e ciumento. Havia nela tanta modéstia e recato – talvez medo –, que o ciúme dele podia dormir com as portas abertas. Mas não era assim; o marido era cauteloso e suspeitoso; ameaçava-a e fazia-a padecer. Eu percebi isso, e a compaixão apoderou-se de mim. A compaixão é um sentimento pérfido; abstenha-se dele ou combata-o. Quem sabe se a que sente agora por mim não lhe dará mau resultado?
Estremeci ouvindo esta última palavra. Ele parou um instante e continuou:
– Lucinda não me olhava nunca. Era medo, era talvez uma intimação do marido. Se me falava alguma vez era secamente e por monossílabos. Meu coração deixou-se ir da compaixão ao amor pelo mais natural dos declives, amor silencioso, cauto, sem esperança nem repercussão. Um dia, em que a vi mais triste que de costume, atrevi-me a perguntar-lhe se padecia. Não sei que tom havia em minha voz, e certo é que Lucinda estremeceu, e levantou os olhos para mim. Cruzaram-se com os meus, mas disseram nesse único minuto – que digo? Nesse único instante – toda a devastação de nossas almas; corando, ela abaixou os seus, gesto de modéstia, que era a confirmação de seu crime; eu deixei-me estar a contemplá-la silenciosamente. No meio dessa sonolência moral em que nos achávamos, uma voz atroou e nos chamou à realidade da vida. Ao mesmo tempo achou-se defronte de nós a figura do marido. Nunca vi mais terrível expressão em rosto humano! A cólera fazia dele uma Medusa. Lucinda caiu prostrada e sem sentidos. Eu, confuso, não me atrevia a explicar nem a pedir explicações. Ele olhou para mim e para ela. Sucedera à primeira manifestação silenciosa da cólera uma cousa mais apagada e mais terrível, uma resolução fria e quieta. Com um gesto despediu-me; quis falar, ele impôs-me silêncio com os olhos. Quase a sair, voltei e, apesar da oposição, expus-lhe toda a singularidade de seu procedimento. Ouviu-me calado. Vendo que nada alcançava e não querendo que sobre a infeliz pairasse a menor suspeita, nem que ela padecesse sem outro motivo mais grave, expus-lhe francamente os meus sentimentos em relação a ele e a ela, a afeição que Lucinda me inspirara, protestando com todas as forças pela inteira dignidade da infeliz. Riu-se, e não me disse nada. Despedi-me e saí...
Estas recordações pareciam abater o enfermo. A voz, ao chegar àquela palavra, era fraca e rouca; ele fez uma longa pausa, cobrindo os olhos com as mãos ocas e transparentes. Alguns minutos depois continuou:
– Passaram-se algumas semanas. Um dia, levado por necessidades de ofício, fui a Jeremoabo, pensando em Lucinda e um pouco receoso de algum sucesso desagradável. Lucinda havia morrido; e a pessoa que me deu esta notícia benzeu-se supersticiosamente e não revelou mais nada, apesar de minhas instâncias. Que teria havido? A ideia de que o marido a houvesse assassinado apoderou-se de meu espírito; mas eu não ousava formular a pergunta. Indagando mais, ouvi de uns que ela cometera suicídio, de outros, que desaparecera; enfim alguns criam que estava apenas doente e às portas da morte. Esta diversidade de notícias era claro indício de que alguma cousa grave se passava ou estava passando. Fui ter à propriedade do marido, resoluto a saber tudo e a salvar a vida da inocente, se fosse possível...
Damasceno interrompeu-se de novo. Estava cansado e opresso. Pedi-lhe que suspendesse por algum tempo a narração ou guardasse o fim para o dia seguinte, apesar da curiosidade que me picava interiormente. Ao mesmo tempo admirava a perfeita lucidez com que ele me referia aquelas cousas, a comoção da palavra, que nada tinha do vago e desalinhado da palavra dos loucos. Era aquele mesmo o homem que me consultara acerca de Jonas e me expusera uma teoria nova acerca da lua? Enquanto, em meu espírito, resolvia esta dúvida, Damasceno agitava-se no leito, como buscando melhor cômodo. A vela estava a extinguir-se, acendi outra e fui até à janela ansioso pelo criado e os dois amigos a quem escrevera. A rua estava deserta; apenas ao longe se ouvia o passo de um ou outro transeunte. Voltei ao quarto. Damasceno estava então sentado na cama, um pouco reclinado sobre os travesseiros.
– Não tenha medo – disse ele –, venha ouvir o resto, que é pouco, mas instrutivo. Fui ter com o médico. Logo que soube que eu o procurara, veio receber-me contente. Disse-lhe francamente o que ouvira dizer a respeito da mulher, as opiniões e versões diferentes, a necessidade que havia de instruir o povo da verdade e retirar de sobre ele alguma suspeita terrível. Ouviu-me calado. Logo que acabei, disse-me que eu fizera bem em ir vê-lo; que Lucinda estava viva, mas podia morrer no dia seguinte; que, depois de cogitar na punição que daria ao olhar da moça, resolvera castigar-lhe simplesmente os olhos... Não entendi nada; tinha as pernas trêmulas e o coração batia-me apressado. Não o acompanharia decerto, se ele, apertando-me o pulso com a mão de ferro, me não arrastasse até uma sala interior... Ali chegando... vi... oh! É horrível! Vi, sobre uma cama, o corpo imóvel de Lucinda, que gemia de modo a cortar o coração. “Vê”, disse ele, “só lhe castiguei os olhos”. O espetáculo que se me revelou então, nunca, oh, nunca mais o esquecerei! Os olhos da pobre moça tinham desaparecido; Ele os vazara, na véspera, com um ferro em brasa... Recuei espavorido. O médico apertou-me os pulsos clamando com toda a raiva concentrada em seu coração: “Os olhos delinquiram, os olhos pagaram!”.
A cabeça do enfermo rolou sobre os travesseiros, enquanto eu, aterrado do que ouvia e da expressão de sincero horror e aparente veracidade com que ele falava, olhei em volta de mim como procurando fugir. Damasceno ficou longo tempo arquejante.
De repente, dando um estremeção, ergueu a cabeça e olhou para a parede que ficava do lado inferior da cama:
– Vai-te! – exclamou ele aflito –. Vai-te! Ainda não!... Olhe!... Olhe! Lá está ela! Lá está!... O dedo magro e trêmulo apontava alguma cousa no ar, enquanto os olhos, mortalmente fixos, resumiam todo o terror que é possível conter a alma humana. Insensivelmente olhei para o lugar que ele indicava... Olhei; e podem crer que ainda hoje não esqueci do que ali se passou. De pé, junto à parede, vi uma mulher lívida, a mesma do retrato, com os cabelos soltos, e os olhos... Os olhos, esses eram duas cavidades vazias e ensanguentadas.
Naquela meia luz da alcova, e no alto de uma casa sem gente, a semelhante hora, entre um louco e uma estranha aparição, confesso que senti esvairem-se-me as forças e quase a razão. Batia-me o queixo, as pernas tremiam-me tanto, eu ficara gelado e atônito. Não sei o que se passou mais; não posso dizer sequer que tempo durou aquilo, porque os olhos se me apagaram também, e perdi de todo os sentidos.
Quando dei acordo de mim, estava no meu quarto, deitado, tendo a meu lado os dois amigos que mandara chamar. Ambos procuraram desviar-me do espírito a lembrança do que se passara no quarto de Damasceno; precaução ociosa, porque nada me lembrava então e o abalo fora tamanho que o passado como que desaparecera. Passei uma noite cruel, entre a agitação e o abatimento. Sobre a madrugada dormi.
Acordei com sol alto. Pude então recordar a cena da véspera, e só a recordação me fazia tiritar e gelar a alma. Quis ir ver o doente porque, apesar dos sucessos anteriores, interessava-me o pobre velho condenado a uma triste visão perpétua.
– É tarde! – disseram-me.
– Por quê?
– O doente morreu.
Senti que uma gota me brotava dos olhos, foi a única lágrima que ele obteve dos homens.
Meus colegas referiram-me que a morte sucedera ao romper da manhã, estando presente um deles e o criado. Damasceno morreu a falar das mais desencontradas cousas: de guerras, de meteoros e de São Tomás de Aquino. Seu último gesto foi para abraçar o sol, que dizia estar diante dele. Morreu enfim, ou antes, restituiu-se à eternidade, segundo a expressão do meu colega, a cujos olhos o doente parecera um esqueleto que visitara por algum tempo a terra.
Não pude assistir ao enterro; estava abatido e doente; mas um dos meus amigos foi até o cemitério. Com um deles fui dormir aquela e as noites seguintes, não podendo passá-las debaixo do mesmo teto em que se dera a terrível aparição. A justiça arrecadou o que pertencia a Damasceno Rodrigues; ele vivia do aluguel de duas casinhas e de algumas apólices, que se lhe encontraram. Não tinha herdeiros.
Só muitos dias depois atrevi-me a ver de novo o retrato da mulher que ele me dera. Ainda assim não foi sem terror, e arrependi-me de o ter feito, porque toda a cena se me reproduziu logo ante os olhos. Era miraculosamente bela a mártir de Jeremoabo; eu compreendia não só a loucura de Damasceno, mas também a ferocidade do esposo.
O desembargador fez pausa, no meio do geral silêncio de constrangimento que sua narração produzira. Vasconcelos foi o primeiro que falou:
– Não podemos duvidar que o senhor visse a figura dessa mulher – disse ele –; mas como explicar o fenômeno?
– A dificuldade é maior do que pensa – acudiu o desembargador –. O episódio teve um epílogo.
– Ah!
– Quando referi a aparição a algumas pessoas, ninguém me deu crédito; e os mais polidos atribuíam o caso a um pesadelo. Evitei expor-me à incredulidade e ao ridículo. Mais tarde, já senhor de mim, determinei contar a catástrofe de Damasceno em um jornal que escrevíamos na Academia. Tratando de colher alguma cousa mais acerca do infeliz, vim a saber, com grande surpresa, que ele nunca estivera na Bahia, nem saíra do Sul. Já então não era só o interesse literário que me inspirava; era a liquidação de um ponto obscuro e a explicação de um fenômeno. Casara aos vinte e dois anos em Santa Catarina, donde só saiu aos trinta e três, não podendo, portanto, encontrar-se com o original do retrato, aos vinte e cinco, solteiro, em Jeremoabo; finalmente, a miniatura que me confiara era simplesmente o retrato de uma sobrinha sua, morta solteira. Não havia dúvida; o episódio que ele me referira era uma ilusão como a da lua, uma pura ilusão dos sentidos, uma simples invenção de alienado.
– Mas, sendo assim...
– Sendo assim, como vi eu a mulher sem olhos? Esta foi a pergunta que fiz a mim mesmo. Que a vi, é certo, tão claramente como os estou vendo agora. Os mestres da ciência, os observadores da natureza humana lhe explicarão isso. Como é que Pascal via um abismo ao pé de si? Como é que Bruto viu um dia a sombra de seu mau gênio?
– O seu caso é talvez mais simples que esses todos; o desvario do doente foi contagioso, e fez com que o senhor visse o que ele supunha ver.
– Pois é pena! – exclamou o desembargador –, a história de Lucinda era melhor que fosse verdadeira. Que outro rival de Otelo há aí como esse marido que queimou com um ferro em brasa os mais belos olhos do mundo, em castigo de haverem fitado outros olhos estranhos? Crê agora em fantasmas, D. Maria do Céu?
Maria do Céu tinha seus olhos baixos. Quando o desembargador lhe dirigiu a palavra, estremeceu, ergueu-se, e a junto e de corrida se encaminhou para o bacharel Antunes. O bacharel fez o mesmo; mas foi dali a uma janela – talvez tomar ar –, talvez refletir a tempo no risco de vir a interpretar algum dia um hebraismo das Escrituras.
[Jornal das famílias, dez. 1876 a fev. 1877]
(In: Obra completa. São Paulo: Nova Aguilar, 2015, vol. 2).
***
Os olhos que comiam carne
Humberto de Campos
Na manhã seguinte à do aparecimento,
nas livrarias, do oitavo e último volume da História do Conhecimento Humano,
obra em que havia gasto catorze anos de uma existência consagrada, inteira, ao
estudo e à meditação, o escritor Paulo Fernandes esperava, inutilmente, que o
sol lhe penetrasse no quarto. Estendido, de costas, na sua cama de solteiro, os
olhos voltados na direção da janela que deixara entreaberta na véspera para a
visita da claridade matutina, ele sentia que a noite se ia prolongando demais.
O aposento permanecia escuro. Lá fora, entretanto, havia rumores de vida.
Bondes passavam tilintando. Havia barulho de carroças no calçamento áspero.
Automóveis buzinavam como se fosse dia alto. E, no entanto, era noite, ainda.
Atentou melhor, e notou movimento na casa. Distinguia perfeitamente o arrastar
de uma vassoura, varrendo o pátio. Imaginou que o vento tivesse fechado a janela,
impedindo a entrada do dia. Ergueu, então, o braço e apertou o botão da
lâmpada. Mas a escuridão continuou. Evidentemente, o dia não lhe começava bem.
Comprimiu o botão da campainha. E esperou.
Ao fim de alguns instantes, batem
docemente à porta.
– Entra, Roberto.
O criado empurrou a porta, e entrou.
– Esta lâmpada está queimada, Roberto? –
indagou o escritor, ao escutar os passos do empregado no aposento.
– Não, senhor. Está até acesa.
– Acesa? A lâmpada está acesa, Roberto?
– exclamou o patrão, sentando-se repentinamente na cama.
– Está, sim, senhor. O doutor não vê
que está acesa, por causa da janela que está aberta.
– A janela está aberta, Roberto? –
gritou o homem de letras, com o terror estampado na fisionomia.
– Está, sim, senhor. E o sol está até
no meio do quarto.
Paulo Fernando mergulhou o rosto nas
mãos, e quedou-se imóvel, petrificado pela verdade terrível. Estava cego.
Acabava de realizar-se o que há muito prognosticavam os médicos.
A notícia daquele infortúnio em breve
se espalhava pela cidade, impressionando e comovendo a quem a recebia. A morte
dos olhos daquele homem de quarenta anos, cuja mocidade tinha sido consumida na
intimidade de um gabinete de trabalho, e cujos primeiros cabelos brancos haviam
nascido à claridade das lâmpadas, diante das quais passara oito mil noites
estudando, enchia de pena os mais indiferentes à vida do pensamento. Era uma
força criadora que desaparecia. Era uma grande máquina que parava. Era um facho
que se extinguia no meio da noite, deixando desorientados na escuridão aqueles
que o haviam tomado por guia. E foi quando, de súbito, e como que
providencialmente, surgiu na imprensa a informação de que o professor Platen,
de Berlim, havia descoberto o processo de restituir a vista aos cegos, uma vez
que a pupila se conservasse íntegra, e se tratasse, apenas, de destruição ou
defeito do nervo óptico. E, com essa informação, a de que o eminente oculista
passaria em breve pelo Rio de Janeiro, a fim de realizar uma operação desse
gênero em um opulento estancieiro argentino, que se achava cego há seis anos e
não tergiversara em trocar a metade da sua fortuna pela antiga luz dos seus
olhos.
A cegueira de Paulo Fernando, com as
suas causas e sintomas, enquadrava-se rigorosamente no processo do professor
alemão: dera-se pelo seccionamento do nervo óptico. E era pelo restabelecimento
deste, por meio de ligaduras artificiais com uma composição metálica de sua
invenção, que o sábio de Berlim realizava o seu milagre cirúrgico. Esforços
foram empregados, assim, para que Platen desembarcasse no Rio de Janeiro por
ocasião de sua viagem a Buenos Aires.
Três meses depois, efetuava-se, de
fato, esse desembarque. Para não perder tempo, achava-se Paulo Fernando, desde
a véspera, no Grande Hospital das Clínicas. E encontrava-se já na sala de
operações, quando o famoso cirurgião entrou, rodeado de colegas brasileiros, e
de dois auxiliares alemães, que o acompanhavam na viagem, e apertou-lhe
vivamente a mão.
Paulo Fernando não apresentava, na
fisionomia, o menor sinal de emoção. O rosto escanhoado, o cabelo grisalho e
ondulado posto para trás, e os olhos abertos, olhando sem ver: olhos castanhos,
ligeiramente saídos, pelo hábito de vir beber a sabedoria aqui fora, e com
laivos escuros de sangue, como reminiscência das noites de vigília. Vestia
pijama de tricoline branca, de gola caída. As mãos de dedos magros e curtos
seguravam as duas bordas da cadeira, como se estivesse à beira de um abismo, e
temesse tombar na voragem.
Olhos abertos, piscando, Paulo Fernando
ouvia, em torno, ordens em alemão, tinir de ferros dentro de uma lata, jorro
d'água, e passos pesados ou ligeiros, de desconhecidos. Esses rumores eram, no
seu espírito, causa de novas reflexões.
Só agora, depois de cego, verificara a
sensibilidade da audição, e as suas relações com a alma, através do cérebro. Os
passos de um estranho são inteiramente diversos daqueles de uma pessoa a quem
se conhece. Cada criatura humana pisa de um modo. Seria capaz de identificar,
agora, pelo passo, todos os seus amigos, como se tivesse vista e lhe pusessem
diante dos olhos o retrato de cada um deles. E imaginava como seria curioso
organizar para os cegos um álbum auditivo, como os de datiloscopia, quando um
dos médicos lhe tocou no ombro, dizendo-lhe amavelmente:
– Está tudo pronto... Vamos para a
mesa... Dentro de oito dias estará bom. .
O escritor sorriu, cético. Lido nos
filósofos, esperava, indiferente, a cura ou a permanência na treva, não
descobrindo nenhuma originalidade no seu castigo e nenhum mérito na sua
resignação. Compreendia a inocuidade da esperança e a inutilidade da queixa.
Levantou-se, assim, tateando, e, pela mão do médico, subiu na mesa de ferro
branco, deitou-se ao longo, deixou que lhe pusessem a máscara para o
clorofórmio, sentiu que ia ficando leve, aéreo, imponderável. E nada mais soube
nem viu.
O processo Plateu era constituído por uma aplicação da lei de Roentgen, de que resultou o Raio-X, e que punha em contato, por meio de delicadíssimos fios de “hêmera”, liga metálica recentemente descoberta, o nervo seccionado. Completava-o uma espécie de parafina adaptada ao globo ocular, a qual, posta em contato direto com a luz, restabelecida integralmente a função desse órgão. Cientificamente, era mais um mistério do que um fato. A verdade, era que as publicações europeias faziam, levianamente ou não, referências constantes às curas miraculosas realizadas pelo cirurgião de Berlim, e que seu nome, em breve, corria o mundo, como o de um dos grandes benfeitores da Humanidade.
Meia hora depois as portas da sala de
cirurgia do Grande Hospital de Clínicas se reabriam e Paulo Fernando, ainda
inerte, voltava, em uma carreta de rodas silenciosas, ao seu quarto de
pensionista. As mãos brancas, postas ao longo do corpo, eram como as de um
morto. O rosto e a cabeça envoltos em gaze, deixavam à mostra apenas o nariz
afilado e a boca entreaberta. E não tinha decorrido outra hora, e já o
professor Platen se achava, de novo, a bordo, deixando a recomendação de que
não fosse retirada a venda, que pusera no enfermo, antes de duas semanas.
Doze dias depois passava ele, de novo,
pelo Rio, de regresso para a Europa. Visitou novamente o operado, e deu novas
ordens aos enfermeiros. Paulo Fernando sentia-se bem. Recebia visitas,
palestrava com os amigos. Mas o resultado da operação só seria verificado três
dias mais tarde, quando se retirasse a gaze. O santo estava tão seguro do seu
prestígio que ia embora sem esperar pela verificação do milagre.
Chega, porém, o dia ansiosamente
aguardado pelos médicos, mais do que pelo doente. O Hospital encheu-se de
especialistas, mas a direção só permitiu, na sala em que se ia cortar a gaze, a
presença dos assistentes do enfermo. Os outros ficaram fora, no salão, para ver
o doente, depois da cura.
Pelo braço de dois assistentes, Paulo
Fernando atravessou o salão. Daqui e dali, vinham-lhe parabéns antecipados,
apertos de mão vigorosos, que ele agradecia com um sorriso sem endereço. Até
que a porta se fechou, e o doente, sentado em uma cadeira, escutou o estalido
da tesoura, cortando a gaze que lhe envolvia o rosto.
Duas, três voltas são desfeitas. A
emoção é funda, e o silêncio completo, como o de um túmulo. O último pedaço de
gaze rola no balde. O médico tem as mãos trêmulas. Paulo Fernando, imóvel,
espera a sentença final do Destino.
– Abra os olhos! – diz o doutor.
O operado, olhos abertos, olha em
torno. Olha e, em silêncio, muito pálido, vai se pondo de pé. A pupila entra em
contacto com a luz, e ele enxerga, distingue, vê. Mas é espantoso o que vê. Vê,
em redor, criaturas humanas. Mas essas criaturas não têm vestimentas, não têm
carne; são esqueletos apenas; são ossos que se movem, tíbias que andam,
caveiras que abrem e fecham as mandíbulas! Os seus olhos comem a carne dos
vivos. A sua retina, como os raios-X, atravessa o corpo humano e só se detém na
ossatura dos que a cercam, e diante das cousas inanimadas! O médico, à sua
frente, é um esqueleto que tem uma tesoura na mão! Outros esqueletos andam,
giram, afastam-se, aproximam-se, como um bailado macabro!
De pé, os olhos escancarados, a boca
aberta e muda, os braços levantados numa atitude de pavor, e de pasmo, Paulo
Fernando corre na direção da porta, que adivinha mais do que vê, e abre-a. E o
que enxerga, na multidão de médicos e de amigos que o aguardam lá fora, é um
turbilhão de espectros, de esqueletos que marcham e agitam os dentes, como se
tivessem aberto um ossuário cujos mortos quisessem sair. Solta um grito e
recua. Recua, lento, de costa, o espanto estampado na face. Os esqueletos
marcham para ele, tentando segurá-lo.
– Afastem-se! Afastem-se – intima, num
urro que faz estremecer a sala toda.
E, metendo as unhas no rosto, afunda-as
nas órbitas, e arranca, num movimento de desespero, os dois glóbulos
ensanguentados, e tomba escabujando no solo, esmagando nas mãos aqueles olhos
que comiam carne, e que, devorando macabramente a carne aos vivos,
transformavam a vida humana, em torno, em um sinistro baile de esqueletos...
[1932]
(In:
O monstro e outros contos. São Paulo:
Mérito, 1962.)
***
As rosas
Júlia Lopes de Almeida
O meu jardineiro era
um homem de feio aspecto, todo coberto de pelos eriçados, vermelhaço de pele e
de olhar desconfiado e sombrio.
Toda a gente me
dizia:
– Olha que aquele
sujeito compromete a tua casa! Põe-no fora!
Mas, como ele era
calado, metido consigo, e porque, principalmente, tratava muito bem das minhas
flores, eu levantava os ombros:
– Não era tanto
assim! O pobre homem! Aqueles modos de animal bravio, não os tinha decerto
por culpa sua!
E assim íamos vivendo.
Uma tarde, em
setembro, desci ao jardim. Que crepúsculo aquele! No céu, esgarçado de nuvens,
a lua, em foice, brilhava já, e com tamanha doçura, que dava vontade na gente
de não fazer outra coisa senão olhar para ela! Havia também no ar, transparente
e calmo, tal delicadeza de colorido, que a minha alma ficaria nela estática, se
os olhos, percorrendo tudo, não vissem logo a infinidade de rosas, que as
minhas roseiras prometiam.
– Quantos botões, Mãe
do Céu!
– Tudo isto abre
esta noite – resmungou com voz soturna o jardineiro... – Amanhã haverá centenas
de rosas no jardim!
A minha fantasia
desencadeou-se. Centenas de rosas frescas, todas abertas, deveriam dar uma
graça nova àquele recanto, pouco acostumado a semelhante fartura de flores.
Eu mesma queria colhê-las
ainda frescas de orvalho: mandaria um ramalhete à minha mãe, cobriria de rosas
a sepultura de minha filha, encheria de rosas a minha casa...
E, usando de uma
forma imperativa e severa, pouco comum em mim, disse ao medonho e hirsuto
jardineiro que não tocasse nenhuma flor! Seria eu quem as colhesse todas!
Ele curvou-se, em
obediência.
Nessa noite, fui cedo
para a cama, preparando-me para madrugar no dia seguinte. E tal era o meu
propósito, que peguei logo no sono doce e tranquilo.
Eram seis horas e já
eu estava no jardim. Como quem desperta de um sonho, apatetada, olhei à roda e
só vi folhas... Folhas e mais folhas verdes! Nem uma flor!
Gritei pelo
jardineiro, e ele veio, como por encanto, num momento, mas com tal jeito e tão
demudadas feições, que tive medo.
Os olhos, de
vermelhos, eram só sangue; a barba áspera, longa e ruiva estava revolvida como
por um vento de loucura, e nos grossos braços tisnados tinha sinais fundos de
unhadas...
– As minhas rosas?! –
perguntei-lhe, disfarçando o pavor que a sua figura estranha me infundia.
– Estão aqui! –
Disse ele, com voz grossa, como um baixo de órgão de catedral; e caminhou para
o quarto.
Fui atrás dele,
espantadíssima, mal segurando a saia do vestido, que se não molhasse na relva –
cheia de raiva e curiosa ao mesmo tempo.
O quarto do
jardineiro era ao fundo, entre a horta e o jardim, ao pé de dois limoeiros da
Pérsia, de gostoso cheiro. Ensombrando a porta, havia uma latada de maracujá,
e, à esquina, encostados à parede, estavam os utensílios de jardinagem.
– Que quererá ele? –
perguntava a mim mesma. De repente, estaquei:
– Não entro – respondi,
a um gesto que me fazia.
– Então, olhe daí! – replicou
o homem bruscamente, escancarando a porta.
Encostei-me ao umbral
para não cair. No meio do quarto, sob uma avalanche de rosas perfumadíssimas,
entrevi o corpo de uma mulher.
– Era minha filha –
disse o jardineiro, entre soluços que mais se assemelhavam a uivos que a dor
humana; – um dia abandonou-me, correu por esse mundo... Esta noite, veio bater
ao portão, muito chorosa... que o amante lhe batera... Ouviu bem, senhora?!
Quis fazê-la jurar que desprezaria agora esse bandido, para viver só no meu
carinho... Só no meu carinho!... Eu havia de tratá-la com todo o mimo, como se
for uma criancinha... Fiz-lhe mil promessas, de joelhos, com lágrimas... Sabe o
que me respondeu, a tudo?! Que amava ainda o outro!
Cego de raiva,
matei-a; ah! matei-a e não me arrependo... Antes morta por um pai honrado do
que batida por um cão qualquer... Depois de morta... achei-a linda, linda! Mas,
coitadinha! vinha miserável, quase nua... tive pena, e para fazê-la aparecer
bem a Nossa Senhora, vesti-a de rosas!...
[1903]
(In: Ânsia eterna. Rio de Janeiro: Garnier,
1940, p. 261-264).
***
Onde estivestes de
noite
Clarice Lispector
As histórias não têm desfecho.
Alberto Dines
O desconhecido vicia.
Fauzi Arap
Sentado na poltrona,
com a boca cheia de dentes, esperando a morte.
Raul Seixas
O que vou anunciar é
tão novo que receio ter todos os homens por inimigos, a tal ponto se enraízam
no mundo os preconceitos e as doutrinas, uma vez aceitas.
William
Harvey
A noite era uma
possibilidade excepcional. Em
plena noite fechada de um verão escaldante um galo soltou seu grito fora de
hora e de uma só vez para alertar o início da subida pela montanha. A multidão
embaixo aguardava em silêncio.
Ele-ela já estava presente no alto da montanha, e ela
estava personalizada no ele e o ele estava personalizado no ela. A mistura
andrógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão horrorosamente
estupefaciente que os participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim
como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos
enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes aparecia
com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados pelo que é Belo
diriam: “Ah, Ah”. Era uma exclamação que era permitida no silêncio da noite.
Olhavam a assustadora beleza e seu perigo. Mas eles haviam vindo exatamente
para sofrer o perigo.
Os pântanos se exalavam. Uma estrela de enorme densidade
guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. Subiam a montanha misturando homens,
mulheres, duendes, gnomos e anões – como deuses extintos. O sino de ouro
dobrava pelos suicidas. Fora da estrela graúda, nenhuma estrela. E não havia
mar. O que havia do alto da montanha era escuridão. Soprava um vento noroeste.
Ele-ela era um farol? A adoração dos malditos ia se processar.
Os homens coleavam no chão como grossos e moles vermes:
subiam. Arriscavam tudo, já que fatalmente um dia iam morrer, talvez dentro de
dois meses, talvez sete anos – fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.
Olha o gato. Olha o que o gato viu. Olha o que o gato
pensou. Olha o que era. Enfim, enfim, não havia símbolo, a “coisa” era! a coisa
orgíaca. Os que subiam estavam à beira da verdade. Nabucodonosor. Eles pareciam
20 nabucodonosores. E na noite se desquitavam. Eles estão nos esperando. Era
uma ausência – a viagem fora do tempo.
Um cão dava gargalhadas no escuro. “Tenho medo”, disse a
criança. “Medo de quê?”, perguntava a mãe. “De meu cão.” “Mas você não tem cão.”
“Tenho sim.” Mas depois a criancinha também gargalhou chorando, misturando
lágrimas de riso e de espanto.
Afinal chegaram, os malditos. E olharam aquela sempiterna
Viúva, a grande Solitária que fascinava todos, e os homens e mulheres não
podiam resistir e queriam aproximar-se dela para amá-la morrendo mas ela com um
gesto mantinha todos a distância. Eles queriam amá-la de um amor estranho que
vibra em morte. Não se incomodavam de amá-la morrendo. O manto de Ela-ele era
de sofrida cor roxa. Mas as mercenárias do sexo em festim procuravam imitá-la
em vão.
Que horas seria? ninguém podia viver no tempo, o tempo
era indireto e por sua própria natureza sempre inalcançável. Eles já estavam
com as articulações inchadas, os estragos roncavam nos estômagos cheios de
terra, os lábios túmidos e no entanto rachados – eles subiam a encosta. As
trevas eram de um som baixo e escuro como a nota mais escura de um violoncelo.
Chegaram. O Mal-Aventurado, o Ele-ela, diante da adoração de reis e vassalos,
refulgia como uma iluminada águia gigantesca. O silêncio pululava de
respirações ofegantes. A visão era de bocas entreabertas pela sensualidade que
quase os paralisava de tão grossa. Eles se sentiam salvos do Grande Tédio.
O morro era de sucata. Quando a Ela-ele parava um
instante, homens e mulheres, entregues a eles próprios por um instante,
diziam-se assustados: eu não sei pensar. Mas o Ele-ela pensava dentro deles.
Um arauto mudo de clarineta aguda anunciava a notícia.
Que notícia? a da bestialidade? Talvez no entanto fosse o seguinte: a partir do
arauto cada um deles começou a “se sentir”, a sentir a si próprio. E não havia
repressão: livres!
Aí eles começaram a balbuciar mas para dentro porque a
Ela-ele era cáustica quanto a não disturbarem uns aos outros na sua lenta
metamorfose. “Sou Jesus! sou judeu!”, gritava em silêncio o judeu pobre. Os
anais da astronomia nunca registraram nada como este espetacular cometa,
recentemente descoberto – sua cauda vaporosa se arrastará por milhões de
quilômetros no espaço. Sem falar no tempo.
Um anão corcunda dava pulinhos como um sapo, de uma
encruzilhada a outra – o lugar era de encruzilhadas. De repente as estrelas
apareceram e eram brilhantes e diamantes no céu escuro. E o corcunda-anão dava
pulos, os mais altos que conseguia para alcançar os brilhantes que sua cobiça
despertava. Cristais! Cristais! gritou ele em pensamentos que eram saltitantes
como os pulos.
A latência pulsava leve, ritmada, ininterrupta. Todos
eram tudo em latência. “Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento”:
Goethe. Uma nova e não autêntica história brasileira era escrita no
estrangeiro. Além disso, os pesquisadores nacionais se queixavam da falta de
recursos para o trabalho.
A montanha era de origem vulcânica. E de repente o mar: a
revolta rebentação do Atlântico lhes enchia os ouvidos. E o cheiro salgado do
mar fecundava-os e triplicava-os em monstrinhos. O corpo humano pode voar? A levitação.
Santa Tereza d'Ávila: “Parecia que uma grande força me erguia no ar. Isso me
provocava um grande medo.” O anão levitava por segundos mas gostava e não tinha
medo.
– Como é que você se chama, disse mudo o rapaz, para eu
chamar você a vida inteira. Eu gritarei seu nome.
– Eu não tenho nome lá embaixo. Aqui tenho o nome de
Xantipa.
– Ah, quero gritar Xantipa! Xantipa! Olhe, eu estou gritando
para dentro. E qual é o seu nome durante o dia?
–Acho que é... é... parece que é Maria Luísa.
E estremeceu como um cavalo se eriça. Caiu exangue no
chão. Ninguém assassinava ninguém porque já eram assassinados. Ninguém queria
morrer e não morria mesmo.
Enquanto isso – delicada, delicada – o Ele-ela usava um
timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em abundância e trairia o meu
melhor amigo em troca de mais vida do que se pode ter. Essa procura, essa
ambição. Eu desprezava os preceitos dos sábios que aconselham a moderação e a
pobreza de alma – a simplificação de alma, segundo minha própria experiência,
era a santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.
Sim. Sim: cair até a abjeção. Eis a ambição deles. O som
era o arauto do silêncio. Porque nenhum poderia se deixar possuir por
Aquele-aquela-sem-nome.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e
não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar.
Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o
melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco
da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a
força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.
– Que é que eu faço para ser herói? Porque nos templos só
entram heróis.
E no silêncio de repente o seu grito uivado que não se
sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirando mirra, incenso e benjoim.
Ele-ela cobria a sua nudez com um manto lindo mas como
uma mortalha, mortalha púrpura, agora vermelho-catedral. Em noites sem lua
Ela-ele virava coruja. Comerás teu irmão, disse ela no pensamento dos outros, e
na hora selvagem haverá um eclipse do sol.
Para não se traírem eles ignoravam que hoje era ontem e haveria
amanhã. Soprava no ar uma transparência como igual homem nenhum havia respirado
antes.
Mas eles espargiam pimenta em pó nos próprios órgãos
genitais e se contorciam de ardor. E de repente o ódio. Eles não matavam uns
aos outros mas sentiam tão implacável ódio que era como um dardo lançado num
corpo. E se rejubilavam danados pelo que sentiam. O ódio era um vômito que os
livrava de vômito maior, o vômito da alma.
Ele-ela com as sete notas musicais conseguia o uivo.
Assim como com as mesmas sete notas podia criar música sacra. Ouviram eles
dentro deles o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si, o “si” macio e agudíssimo. Eles eram
independentes e soberanos, apesar de guiados pelo Ele-ela. Rugindo a morte nos
porões escuros. Fogo, grito, cor, vício, cruz. Estou vigilante no mundo: de
noite vivo e de dia durmo, esquivo. Eu, com faro de cão, orgiático.
Quanto a eles, cumpriam rituais que os fiéis executam sem
entender-lhes os mistérios. O cerimonial. Com um gesto leve Ela-ele tocou numa
criança fulminando-a e todos disseram: amém. A mãe deu um uivo de lobo: ela
toda morta, ela, também.
Mas era para ter supersensações que para ali se subia. E
era sensação tão secreta e tão profunda que o júbilo faiscava no ar. Eles
queriam a força superior que reina no mundo através dos séculos. Tinham medo?
Tinham. Nada substituía a riqueza do silencioso pavor. Ter medo era a
amaldiçoada glória da escuridão, silente como uma Lua.
Aos poucos se habituavam ao escuro e a Lua, antes
escondida, toda redonda e pálida, tinha lhes abrandado a subida. Eram trevas
quando um por um subira “a montanha”, como chamavam o planalto um pouco mais
elevado. Tinham se apoiado no chão para não cair, pisando em árvores secas e
ásperas, pisando em cactos espinhosos. Era um medo irresistivelmente atraente,
eles prefeririam morrer que abandoná-lo. O Ele-ela era-lhes como a Amante. Mas
se algum ousasse por ambição tocá-la era congelado na posição em que estivesse.
Ele-ela contou-lhes dentro de seus cérebros – e todos
ouviram-na dentro de si – o que acontecia a uma pessoa quando esta não atendia
ao chamado da noite: acontecia que na cegueira da luz do dia a pessoa vivia na
carne aberta e nos olhos ofuscados pelo pecado da luz – a pessoa vivia sem
anestesia o terror de se estar vivo. Não há nada a temer, quando não se tem
medo. Era a véspera do apocalipse. Quem era o rei da Terra? Se você abusa do
poder que você conquistou, os mestres o castigarão. Cheios do terror de uma
feroz alegria eles se abaixavam e às gargalhadas comiam ervas daninhas do chão
e as gargalhadas reboavam de escuridões a escuridões com seus ecos. Um cheiro
sufocante de rosas enchia de peso o ar, rosas malditas na sua força de natureza
doida, a mesma natureza que inventava as cobras e os ratos e pérolas e crianças
– a natureza doida que ora era noite em trevas, ora o dia de luz. Esta carne
que se move apenas porque tem espírito.
Das bocas escorria saliva grossa, amarga e untuosa, e
eles se urinavam sem sentir. As mulheres que haviam parido recentemente
apertavam com violência os próprios seios e dos bicos um grosso leite preto
esguichava. Uma mulher cuspiu com força na cara de um homem e o cuspe áspero
escorreu-lhe da face até a boca – avidamente ele lambeu os lábios.
Estavam todos soltos. A alegria era frenética. Eles eram
o harém do Ele-ela. Tinham caído finalmente no impossível. O misticismo era a
mais alta forma de superstição.
O milionário gritava: quero o poder! poder! quero que até
os objetos obedeçam as minhas ordens! E direi: move-te, objeto! e ele por si só
se moverá.
A mulher velha e desgrenhada disse para o milionário:
quer ver como você não é milionário? Pois vou te dizer: você não é o dono do
próximo segundo de vida, você pode morrer sem saber. A morte te humilhará. O
milionário: Eu quero a verdade, a verdade pura!
A jornalista fazendo uma reportagem magnífica da vida
crua. Vou ganhar fama internacional como a autora de “O exorcista” que não li
para não me influenciar. Estou vendo direto a vida crua, eu a estou vivendo.
Eu sou solitário, se disse o masturbador.
Estou em espera, espera, nada jamais me acontece, já
desisti de esperar. Eles bebiam o amargo licor das ervas ásperas.
– Eu sou um profeta! eu vejo o além! se gritava um rapaz.
Padre Joaquim Jesus Jacinto – tudo com jota porque a mãe
dele gostava da letra jota.
Era dia trinta e um de dezembro de 1973. O horário
astronômico seria aferido pelos relógios atômicos, cujo atraso é de apenas um
segundo a cada três mil e trezentos anos.
A outra deu para espirrar, um espirro atrás do outro, sem
parar. Mas ela gostava. A outra se chamava J.B.
– Minha vida é um verdadeiro romance! gritava a escritora
falida.
O êxtase era reservado para o Ele-ela. Que de repente
sofreu a exaltação do corpo, longamente. Ela-ele disse: parem! Porque ela se
endemoniava por sentir o gozo do Mal. Eles todos através dela gozavam: era a
celebração da Grande Lei. Os eunucos faziam uma coisa que era proibido olhar.
Os outros, através de Ela-ele, recebiam frementes as ondas do orgasmo – mas só
ondas porque não tinham força de, sem se destruírem, receber tudo.
As mulheres pintavam a boca de roxo como se fosse fruta
esmagada pelos afiados dentes.
O Ela-ele contou-lhes o que acontecia quando não se
iniciava na profetização da noite. Estado de choque. Por exemplo: a moça era
ruiva e como se não bastasse era vermelha por dentro e além disso daltônica.
Tanto que no seu pequeno apartamento havia uma cruz verde sobre fundo vermelho:
ela confundia as duas cores.
Como é que começara o seu terror? Ouvindo um disco ou o
silêncio reinante ou passos no andar de cima – e ei-la aterrorizada. Com medo
do espelho que a refletia. Defronte tinha um armário e a impressão era que as
roupas se mexiam dentro dele. Aos poucos ia restringindo o apartamento. Tinha
medo até de sair da cama. A impressão de que iam agarrar o seu pé embaixo da
cama. Era magríssima. O seu nome era Psiu, nome vermelho. Tinha medo de acender
a luz no escuro e encontrar a fria lagartixa que morava com ela. Sentia com
aflição os dedinhos gelados e brancos da lagartixa. Procurava avidamente no
jornal as páginas policiais, notícias do que estava acontecendo. Sempre
aconteciam coisas apavorantes para pessoas, como ela, que viviam só e eram
assaltadas de noite. Tinha na parede um quadro que era o de um homem que a
fixava bem nos olhos, vigiando-a. Essa figura ela imaginava que a seguia por
todos os cantos da casa. Tinha medo pânico de ratos.
Preferiria morrer a entrar em contato com eles. No
entanto ouvia os guinchos deles. Chegava a sentir-lhes as mordidas nos pés.
Acordava sempre sobressaltada, suando frio. Ela era um bicho acuado. Normalmente
dialogava consigo mesma. Dava prós e contras e sempre quem perdia era ela. Sua
vida era uma constante subtração de si mesma. Tudo isso porque não atendeu ao
chamado da sirene.
O Ele-ela só deixava mostrar o rosto de andrógina. E dele
se irradiava tal cego esplendor de doido que os outros fruíam a própria
loucura. Ela era o vaticínio e a dissolução e já nascera tatuada. O ar todo
cheirava agora a fatal jasmim e era tão forte que alguns vomitavam as próprias
entranhas. A Lua estava plena no céu. Quinze mil adolescentes esperavam que
espécie de homem e mulher eles iriam ser.
Então Ela-ele disse:
– Comerei o teu irmão
e haverá um eclipse total e o fim do mundo.
De vez em quando ouvia-se um longo relincho e não se via
cavalo nenhum. Sabia-se apenas que com sete notas musicais fazem-se todas as
músicas que existem e que existiam e que existirão. Da Ela-ele emanava-se forte
cheiro de jasmim esmagado porque era noite de Lua cheia. O catimbó ou a
feitiçaria. Max Ernst quando criança foi confundido com o Menino Jesus numa
procissão. Depois provocava escândalos artísticos. Tinha uma paixão ilimitada
pelos homens e uma imensa e poética liberdade. Mas por que estou falando nisso?
Não sei. “Não sei” é uma resposta ótima.
O que fazia Thomas Edison, tão inventor e livre, no meio
deles que eram comandados por Ele-ela? Gregotins, pensou o estudante perfeito,
era a palavra mais difícil da língua.
Escutai! os anjos anunciadores cantam!
O judeu pobre gritava mudo e ninguém o ouviu, o mundo
inteiro não o ouvia. Ele disse assim: tenho sede, suor e lágrimas! e para
saciar a minha sede bebo meu suor e minhas próprias lágrimas salgadas. Eu não
como porco! sigo a Torah! mas dai-me alívio, Jeová, que se parece demais
comigo!
Jubileu de Almeida ouvia o rádio de pilha, sempre. “O
mingau mais gostoso é feito com Cremogema”. E depois anunciava, de Strauss, uma
valsa que por incrível que parecesse chamava-se “O pensador livre”. É verdade,
existe mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do “Ao Bandolim de Ouro”, loja de
instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de Strauss. Era
viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era “O Clarim”, concorrente na rua
Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu era também afinador de pianos.
Todos ali estavam prestes a se apaixonar. Sexo. Puro
sexo. Eles se freavam. A Romênia era um país perigoso: ciganos.
Faltava petróleo no mundo. E, sem petróleo, faltava
comida. Carne, sobretudo. E sem carne eles se tornavam terrivelmente
carnívoros.
“Aqui, Senhor, encomendo a minha alma”, dissera Cristóvão
Colombo ao morrer, vestido com o hábito franciscano. Ele não comia carne. Se
santificava, Cristóvão Colombo, o descobridor das ondas, e que descobriu S.
Francisco de Assis. Hélas! ele morrera. Onde estás agora? onde? pelo amor de
Deus, responde!
De repente e bem de leve – fiat lux.
Houve uma debandada assustadiça como de
pardais. Tudo tão rápido que mais parecia terem se esvanecido.
Na mesma hora estavam ora deitados na
cama a dormir, ora já despertos. O que existira era silêncio. Eles não sabiam
de nada. Os anjos da guarda – que tinham tirado um descanso já que todos
estavam na cama sossegados – despertavam frescos, bocejando ainda, mas já
protegendo os seus pupilos.
Madrugada: o ovo vinha rodopiando bem
lento do horizonte para o espaço. Era de manhã: uma moça loura, casada com
rapaz rico, dá à luz um bebê preto. Filho do demônio da noite? Não se sabe.
Apuros, vergonha.
Jubileu de Almeida acordou como pão
dormido: chocho. Desde pequeno fora murcho assim. Ligou o rádio e ouviu: “Sapataria
Morena onde é proibido vender caro”. Iria lá, estava precisando de sapatos.
Jubileu era albino, negro aço com cílios amarelos quase brancos. Ele estalou um
ovo na frigideira. E pensou: se eu pudesse algum dia ouvir “O pensador livre”,
de Strauss, eu seria recompensado na minha solidão. Só ouvira essa valsa uma
única vez, não se lembrava quando.
O poderoso queria no seu breakfast comer
caviar dinamarquês às colheradas, estalando com os dentes agudos as bolinhas.
Ele era do Rotary Club e da Maçonaria e do Diners Club. Tinha o requinte de não
comer caviar russo: era um modo de derrotar a poderosa Rússia.
O judeu pobre acorda e bebe água da bica
sofregamente. Era a única água que tinha nos fundos da pensão baratíssima onde
morava: uma vez veio uma barata nadando no feijão ralo. As prostitutas que lá
moravam nem reclamavam.
O estudante perfeito, que não desconfiava
que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil que existia? Qual
era? Uma que significava adornos, enfeites, atavios? Ah, sim, gregotins.
Decorou a palavra para escrevê-la na próxima prova.
Quando começou a raiar o dia todos
estavam na cama sem parar de bocejar. Quando acordavam, um era sapateiro, um
estava preso por estupro, uma era dona de casa, dando ordens à cozinheira, que
nunca chegava atrasada, outro era banqueiro, outro era secretário etc.
Acordavam, pois, um pouco cansados, satisfeitos pela noite tão profunda de
sono. O sábado tinha passado e hoje era domingo. E muitos foram à missa
celebrada por padre Jacinto que era o padre da moda: mas nenhum se confessou,
já que não tinham nada a confessar.
A escritora falida abriu o seu diário
encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: “7 de julho de 1974.
Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um sol de domingo, depois de
ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo, aprecio as belezas maravilhosas da
Natureza-mãe. Não vou à praia porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade
para quem aprecia tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não
consigo fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua
viperina será cortada pela tesoura da complacência”.
De manhã: agnus dei. Bezerro de ouro?
Urubu.
O judeu pobre: livrai-me do orgulho de
ser judeu!
A jornalista de manhã bem cedo telefona
para sua amiga:
– Claudia, me desculpe telefonar num
domingo a esta hora! Mas acordei com uma inspiração fabulosa: vou escrever um
livro sobre Magia Negra! Não, não li o tal do Exorcista, porque me disseram que
é má literatura e não quero que pensem que estou indo na onda dele. Você já
pensou bem? o ser humano sempre tentou se comunicar com o sobrenatural desde o
antigo Egito com o segredo das Pirâmides, passando pela Grécia com seus deuses,
passando por Shakespeare no Hamlet. Pois eu também vou entrar nessa. E, por
Deus, vou ganhar essa parada!
Havia em muitas casas do Rio o cheiro de
café. Era domingo. E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor, ainda
mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que havia sonhado
mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com mulher.
Enfim, o ar clareia. E o dia de sempre
começa. O dia bruto. A luz era maléfica: instaurava-se o mal-assombrado dia
diário. Uma religião se fazia necessária: uma religião que não tivesse medo do
amanhã. Eu quero ser invejado. Eu quero o estupro, o roubo, o infanticídio, e o
desafio meu é forte. Queria ouro e fama, desprezava até o sexo: amava depressa
e não sabia o que era o amor. Quero o ouro mau. Profanação. Vou ao meu extremo.
Depois da festa – que festa? noturna? – depois da festa, desolação.
Havia o observador que escreveu assim no
caderno de notas: “O progresso e todos os fenômenos que o cercam parecem
participar intimamente dessa lei de aceleração geral, cósmica e centrífuga que
arrasta a civilização ao `progresso máximo', a fim de que em seguida venha a
queda. Uma queda ininterrupta ou uma queda rapidamente contida? Aí está o
problema: não podemos saber se esta sociedade se destruirá completamente ou se
conhecerá apenas uma interrupção brusca e depois a retomada de sua marcha”. E
depois: “O Sol diminuiria seus efeitos sobre a Terra e provocaria o início de
um novo período glacial que poderia durar no mínimo dez mil anos”. Dez mil anos
era muito e assustava. Eis o que acontece quando alguém escolhe, por medo da
noite escura, viver a superficial luz do dia. É que o sobrenatural, divino ou
demoníaco, é uma tentação desde o Egito, passando pela Idade Média até os
romances baratos de mistério.
O açougueiro, que nesse dia só trabalhava
das oito às onze horas, abriu o açougue: e parou embriagado de prazer ao cheiro
de carnes e carnes cruas, cruas e sangrentas. Era o único que de dia continuava
a noite.
Padre Jacinto estava na moda porque
ninguém como ele erguia tão limpidamente a taça e bebia com sagrada unção e
pureza, salvando todos, o sangue de Jesus, que era o Bem. Com delicadeza as
mãos pálidas num gesto de oferenda.
O padeiro como sempre acordou às quatro
horas e começou a fazer a massa de pão. De noite amassar ao Diabo?
Um anjo pintado por Fra Angélico, século
XV, voejava pelos ares: era a clarineta anunciadora da manhã. Os postes de luz
elétrica não tinham ainda sido apagados e lustravam-se empalidecidos. Postes. A
velocidade come os postes quando se está correndo de carro.
O masturbador de manhã: meu único amigo
fiel é meu cão. Ele não confiava em ninguém, sobretudo em mulher.
A que bocejara a noite toda e dissera: “t'isconjuro,
mãe de santo!” começou a se coçar e a bocejar. Diabo, disse ela.
O poderoso – que cuidava de orquídeas,
catleias, lélias e oncídios – apertou impaciente a campainha para chamar o
mordomo que lhe trouxesse o já atrasado breakfast. O mordomo adivinhava-lhe os
pensamentos e sabia quando lhe trazer os galgos dinamarqueses para serem
rapidamente acariciados.
Aquela que de noite gritava “estou em
espera, em espera, em espera”, de manhã, toda desgrenhada disse para o leite na
leiteira que estava no fogo:
– Eu te pego, seu porcaria! Quero ver se
tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É sabido que se eu
desviar um instante o olhar do leite, esse desgraçado vai aproveitar para
ferver e entornar. Como a morte que vem quando não se espera.
Ela esperou, esperou e o leite não
fervia. Então, desligou o gás.
No céu o mais leve arco-íris: era o
anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia.
Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria, gratia plena, dominus
tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta
Maria Mater Dei ora pro nobis pecatoribus.
Nunca et ora nostrae morte Amem.
Padre Jacinto ergueu com as duas mãos a
taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta vinho bom. E uma
flor nasceu. Uma flor leve, rósea, com perfume de Deus. Ele-ela há muito sumira
no ar. A manhã estava límpida como coisa recém-lavada.
AMÉM
Os fiéis distraídos fizeram o sinal da Cruz.
AMÉM
DEUS
FIM
Epílogo:
Tudo o que escrevi é verdade e existe.
Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite?
Ninguém sabe. Não tentes responder – pelo
amor de Deus. Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.
[1974]
(In: Onde estivestes de noite (Contos). Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.
43)
***
Crianças à venda. Tratar aqui
Rosa Amanda Strausz
Todos
disseram que Marialva era louca e desalmada quando ela pôs os filhos à venda.
Até o padre tentou demovê-la de ideia tão cruel. Mas nada adiantou. A mulher
era obstinada. “Quero que eles tenham um futuro melhor que o meu”, ela repetia.
Olhando
bem para o lugar, quem poderia condená-la? Um casebre miserável, perdido numa
curva do rio, sem eletricidade, sem comida, sem dinheiro, sem remédio, sem nada
por perto. Tinha parido nove filhos. Só restavam cinco quando decidiu
vendê-los. Não queria mais ver criança morrendo de fome doença em seus braços
sem que pudesse fazer nada para impedir.
O
primeiro a partir foi Tião, levado por uma família americana. Um mês depois da
viagem, chegou carta com foto do menino, limpo e sorridente, bem vestido e já mais
gordinho, no meio de brinquedos e livros novos, e abraçado a seus novos pais.
Marialva enxugou as lágrimas e teve certeza de que fazia a coisa certa.
Em
seguida, foram Francineide, para o Rio de Janeiro, e Ronivon, para Curitiba.
Com
o dinheiro da venda dos três, Marialva comprou uma cabra, três galinhas, um
cobertor para as noites frias, sabão de tomar banho e uma panela nova.
O
seguinte seria Fabiojunio, que já estava encomendado por uma família que vivia
em Cruz Alta, uma cidade próxima. O casal chegaria dali há dois dias e Marialva
se esforçava para dar banho no menino e torná-lo mais apresentável.
–
Vê se não chora quando eles chegarem, senão eu te mato, viu? E nada de se sujar
porque o sabão já está acabando. Tem que ficar limpo até depois de amanhã.
Melhor nem se mexer muito, fique quieto dentro de casa.
Fabiojunio
olhava os preparativos meio assustado. Mas as fotos dos irmãos cercados de
conforto, carinho e comida já o tinham convencido. Tanto Tião quanto Francineide
e Ronivon pareciam muito felizes. Assim, quando chegou o casal, despediu-se da
mãe e de Simara – a irmã mais velha –, engoliu o choro e entrou no carro de
seus novos pais.
–
Mãe, a senhora não achou esses dois aí meio esquisitos, não? – perguntou a
menina assim que o carro sumiu na estrada.
–
Bobagem, menina. Rico é tudo esquisito mesmo.
Mas,
no fundo, achou que a filha tinha razão. Não sabia dizer direito o que era – se
a expressão meio vazia do casal, o jeito que eles tinham de olhar, meio fixo,
sempre para frente, a maneira de se moverem, lenta demais.
Bobagem,
repetiu mentalmente. Eram os mais ricos, os que tinham pago mais caro. Olhou
para as notas em cima da mesa. Dava para comprar um monte de sabão e botar Simara
para lavar roupa para fora.
O
problema era justamente a filha, que não parava de tagarelar. Menina
inconveniente. Tinha 10 anos, só por isso não dava mais para vendê-la. Ninguém
queria criança grande assim. Pois que ficasse quieta e ajudasse a fazer o
dinheiro render – porque aquele era o último.
Isso
era o que Marialva pensava. Menos de um mês depois da partida de Fabiojunio
chegou uma carta. Trazia uma foto do menino e mais dinheiro ainda. A mulher
ficou radiante.
–
Eles devem estar mesmo muito encantados com Fabinho para mandarem essa
dinheirama toda – disse ela arregalando os olhos.
Simara,
sempre desconfiada, examinava a fotografia.
–
Mãe, olha só...
Mas
a mulher arrancou a foto de sua mão.
–
Olha só digo eu, Simara! Sempre foi lindinho, o seu irmão. Mas com essas
roupas... Benza Deus! Parece um príncipe.
Na
foto, o menino estava de pé, em meio a um imenso jardim sem flores, mas com o
gramado muito bem cuidado, ao fundo do qual se via um casarão com a fachada
ornamentada. Vestia sapatos pretos de verniz, meias brancas, terninho
azul-marinho combinando com a bermuda, camisa branca de colarinho e gravata de
cetim cinza-claro. O cabelo estava penteado para trás, cheio de goma.
Simara
não se convencia. Todos os outros irmãos enviavam fotos em que apareciam
cercados de brinquedos, em parques, comendo doces, rindo, abraçados com a nova
família. Fabiojunio não. Estava sozinho, de pé, com os braços estendidos ao
longo do corpo, no meio daquele jardim imenso. Parecia triste.
Simara
insistiu no assunto, mas Marialva proibiu a filha de prosseguir.
–
Gente chique é assim. Não fica pulando e gritando. Ele está é ficando educado –encerrou
a conversa.
***
Agora,
Fabiojunio aparecia de pé em um quarto amplo e ricamente mobiliado. Estava
diante de uma cama alta, de dossel talhado em madeira escura, e ao lado de uma
escrivaninha cuidadosamente arrumada. Não havia brinquedos à vista. A roupa não
era a mesma da foto anterior, mas muito parecida. E a expressão do menino também,
embora parecesse ainda mais pálido e tristonho.
–
Ele não está feliz – constatou Simara em voz alta, sabendo que a mãe não a
ouviria. Estava ocupada demais fazendo planos para o dinheiro que chegara. Já
dava até para pensar em comprar um fogão de verdade, com bujão de gás e tudo. E
teria comida para fazer todos os dias.
Na
verdade, teve muito mais do que isso. Todo mês chegava novo envelope com a foto
e mais dinheiro. Cega pela boa sorte repentina, mal olhava para o filho
impresso no papel. Ia direto para o maço de notas, contava-as avidamente,
sorria e fazia mais planos.
Apenas
Simara estava cada vez mais intrigada. A cada foto que chegava, parecia-lhe
mais evidente que havia algo muito estranho ocorrendo ao irmão. Sempre o mesmo
tipo de roupa, os ambientes luxuosos – mas antiquados e soturnos –, e a
expressão ausente, o olhar mortiço, a postura imóvel.
A
última foto era ainda mais impressionante. Solitário, sentado à cabeceira de
uma mesa imensa, de madeira escura e polida, Fabiojunio não olhava para a baixela
de prata à sua frente, nem para a louça filetada de ouro, nem para os talheres
de cabo de madrepérola. Seu olhar tampouco se dirigia para o fotógrafo. Parecia
fixar-se num ponto impossível, distante, muito além da realidade.
Intrigada
com aquilo, Simara foi até a casa do padre e pediu-lhe emprestada sua lente de
aumento. Já tinha visto o objeto algumas vezes depois das aulas de catecismo.
Parecia mágico, com seu poder de ampliar pequenos detalhes. Quando era menor,
adorava pegar a lente e observar a ponta de seu polegar, descobrindo as finas
linhas que desenhavam redemoinho em seus dedos.
Mas,
agora, não havia tempo para brincar. Botou a foto sob o vidro da lente e
examinou-a detidamente. Nem precisou procurar muito. Bastou-lhe focalizar os
olhos do irmão para encontrar a explicação de sua expressão vazia: estavam
furados. No lugar das córneas, havia apenas dois buracos negros, redondos e
perfeitos.
Com
um grito apavorado, Simara chamou o padre. O homem fez o sinal da cruz e
prontificou-se a acompanhar a menina até a residência do casal que tinha levado
Fabiojunio embora. Foi só o tempo de pegar uma pesada cruz de prata, um vidro
de água benta e o dinheiro da passagem de ônibus. Com um envelope nas mãos, a
menina o seguiu até a rodoviária
Cruz
Alta ficava há apenas sessenta quilômetros de distância. Duas horas de viagem
na condução velha e malcuidada. Simara sacolejava pela estrada, impaciente. O
padre, no entanto, ignorava a ansiedade da menina e traçava cuidadosamente seu
roteiro. Iriam primeiro à igreja local buscar informações sobre a família. Se
possível, levariam o pároco junto com eles até a casa. As fotos diziam
claramente que se tratava de um caso de bruxaria e não queria enfrentar uma
novidade daquelas sozinho.
Chamava-se
padre André, era jovem e destemido. Mas também inexperiente e humilde o
suficiente para admitir que não tinha a menor ideia do que fazer quando
encontrasse o estranho casal.
Não
custaram a encontrar a igreja nem a conseguir falar com o padre Leal, um
velhinho simpático, que cuidava da paróquia havia mais de trinta anos.
–
Estamos com sorte – confidenciou o padre André a Simara. – Há tanto tempo aqui,
ele deve conhecer a família.
O
padre Leal, no entanto, ficou perplexo ao ver o endereço que Simara lhe
mostrava.
–
Deve haver algum engano, meus filhos. Esse endereço não existe.
Com
um pressentimento ruim, Simara insistiu:
–
É muito importante, padre. Por favor, nos ajude a encontrar essa família.
–
Mas estou lhe dizendo, filha. Conheço o lugar, não existe casa nenhuma nesse
endereço. Essa rua não passa de uma velha estrada abandonada. Nem carroça passa
mais por lá.
Até
então, o padre André só observava a conversa. Mas decidiu intervir:
–
Padre Leal, temos motivos muito sérios para procurar essa casa – disse,
enquanto abria o envelope e espalhava as fotos sobre a mesa.
–
Veja isso.
O
velho pároco examinou as fotos com as mãos trêmulas enquanto ouvia o relato da
história feito por Simara. Por fim, deteve-se na que mostrava Fabiojunio no
jardim. Após observá-la por alguns instantes, mergulhou a cabeça entre as mãos,
murmurando:
–
Não consigo acreditar...
Simara
não se conteve e perguntou:
–
O senhor conhece essa casa?
O
religioso deu um profundo suspiro. Estava pálido e limitou-se a acenar
afirmativamente com a cabeça. Mal conseguia falar.
Mas
a menina era determinada. E não queria perder mais tempo.
–
Então, nos leve até lá. Acho que meu irmão está correndo perigo.
O
religioso limitou-se a balbuciar:
–
Seu irmão está morto.
Padre
André não se deu por vencido.
–
Precisamos da sua ajuda. Talvez ainda possamos salvá-lo. Tenho certeza de que
se trata de um caso de bruxaria.
O
velho o interrompeu:
–
Vou levá-los até o local.
Assim
que entraram no velho Dodge Dart do pároco, este olhou para o padre André e
disse:
–
Preparem-se para ver uma coisa terrível.
Com
o rosto amargurado, o religioso deu a partida no carro e recusou-se a responder
a qualquer pergunta durante o trajeto. Cerca de vinte minutos depois, saiu da
estrada principal e tomou um caminho abandonado e coberto de mato pelo qual o
veículo avançava com dificuldade crescente. Quanto mais andavam, mais ermo
tornava-se o local. Estava claro que havia muito tempo que ninguém passa passava
por ali.
Finalmente,
pararam num ponto a partir do qual seria impossível prosseguir com o carro. O
mato era tão alto que batia no peito dos dois homens e cobria a cabeça de
Simara. Saltaram, e o religioso suspirou:
–
A partir daqui, teremos que seguir a pé.
Nem
Simara nem padre André ousaram abrir a boca. Apesar do sol quente da tarde, a
luminosidade do lugar tinha um toque pouco natural. E um silêncio sepulcral
envolvia o caminho, como se ali não houvesse vida: nem insetos, nem animais,
nem mesmo o vento.
Depois
de uns dez minutos de caminhada, uma clareira abriu-se abruptamente. À frente
do grupo surgiu um imenso terreno abandonado. Nem nesse mato crescia ali, como
se a terra tivesse sido amaldiçoada.
Ao
olhar para a cena, Simara deu um grito. Ao longe, o casarão ornamentado. No
entanto, à sua frente, erguia-se uma ruína, abandonada havia muitos anos em
meio ao terreno desolado
Não
havia dúvida nenhuma, era a casa da foto. Ou era a casa como teria sido muitas
décadas atrás.
–
Vamos até lá – disse Simara energicamente. Ainda não conseguia acreditar no que
via.
Partiu
na frente, seguida pelos dois religiosos, ambos empunhando suas cruzes.
Não
tinha medo. Não sentia nada além de uma urgência imensa e de uma esperança meio
improvável de ainda encontrar o irmão. Abriu o pesado portão com um safanão e
foi entrando. Deparou-se com o saguão de entrada, o mesmo que já tinha visto
nas fotos. No entanto, agora, as paredes estavam descascadas, as vidraças das
janelas, quebradas, a bela escadaria de madeira que conduzia ao segundo andar,
destruída. E não existia mais nenhum dos móveis luxuosos que serviam de cenário
para as poses de Fabiojunio.
Viu,
logo à esquerda, o que deveria ter sido a sala de jantar. A mesa, a mesma onde
o irmão aparecera na última foto, ainda estava lá. Comida por cupins, não
passava de um monte de madeira podre, coberta por uma espessa camada de poeira
e fungos.
Cada
vez mais transtornada, percorreu todas os cômodos do térreo até sair no pátio
dos fundos, de onde podia se ver um antigo cemitério familiar e nove tumbas.
Correu
para lá.
Não
teve dificuldade em reconhecer o estranho casal que levara seu irmão nas
fotografias amareladas que decoravam as duas primeiras sepulturas. Ali, estava
a data da morte deles, ocorridas cerca de 50 anos antes. Próximos das tumbas
principais – as mais ricas e enfeitadas – havia sete pequenos jazigos. O último
era evidentemente recente e foi para ali que Simara correu. Sobre o túmulo, um
nome: Fabiojunio, a última foto que tinha sido enviada à família e a data:
apenas uma semana atrás.
Não tinha mais nada para ser visto ali. Tudo o que Simara queria era voltar para casa e contar para a mãe o que tinha descoberto. Deu meia volta e saiu enxugando as lágrimas enquanto andava cada vez mais rápido, seguida pelos dois religiosos que ainda empunhavam suas cruzes, sem saber muito bem o que fazer com elas.
A
viagem de volta foi lenta e silenciosa. O ônibus quebrou duas vezes e Simara só
chegou em casa no dia seguinte. Achava que encontraria a mãe preocupada, mas a
velha senhora estava radiante quando abriu a porta para a filha.
–
Por que você não disse que ia visitar seu irmão? – perguntou a mulher com um sorriso.
Antes
que a menina pudesse responder, a mãe mostrou-lhe um novo envelope.
–
Olha só, acabou de chegar! Veio com uma carta. E com ótimas notícias.
Simara
avançou para o envelope. A primeira coisa que viu foi a foto. Uma foto dela,
vestida com roupas elegantes e antiquadas, de pé, braços estendidos ao longo do
corpo, no pátio dos fundos da casa, onde havia o cemitério, embora a foto não
mostrasse cemitério algum. Só um bonito jardim, com um gramado muito bem
cuidado e árvores frondosas ao fundo.
Antes
que pudesse se recuperar do susto, a mãe perguntou:
–
Leu a carta? Eles ficaram encantados com você!
E
completou, sorridente:
–
E vêm buscá-la hoje mesmo, à noitinha. Você nem imagina como me pagaram bem!
Diante
do olhar apavorado da menina, Marialva franziu o cenho e engrossou a voz:
–
Já para o banho. Está na hora de você também aprender a ser chique.
(In: Sete ossos e uma maldição. Contos. Rocco - Jovens Leitores. Disponível na Internet)
***
O horrível – conto de horror
Guy de Maupassant
A noite tépida descia lentamente.
As senhoras tinham ficado no salão da quinta. Os homens, sentados ou a cavalo nas cadeiras do jardim, fumavam diante da mesa abandonada, carregada de taças e cálices.
Seus charutos brilhavam como olhos na sombra espessa, de minuto em minuto.
Acabavam de narrar um terrível acidente acontecido na véspera: dois homens e três mulheres afogados à vista dos convidados em frente ao rio.
O General G... pronunciou-se:
— Sim, estas coisas são emocionantes, mas não são horríveis.
“O horrível – esta velha palavra – quer dizer muitíssimo mais que terrível. Um medonho acidente como este emociona. Para que se experimente o horror, é preciso mais que a emoção da alma e mais que o espetáculo de uma morte terrível. É preciso um calafrio de mistério ou uma sensação de pavor anormal, sobrenatural. Um homem que morre, mesmo nas condições mais dramáticas, não causa horror. Um campo de batalha não é horrível. Os crimes, os mais vis, raramente são horríveis.
Eis dois exemplos pessoais que me fizeram compreender o que se pode entender pelo horror.
O primeiro foi durante a guerra de 1870.
Nós nos retiramos para Pont-Audemer, depois de termos atravessado Rouen. O exército – vinte mil homens aproximadamente, vinte mil homens derrotados, debandados, desmoralizados, esgotados – ia reagrupar-se no Havre.
A terra estava coberta de neve.
A noite caía. Dede a véspera que não se comia. Fugia-se, porque os prussianos não estavam longe.
Toda a planície normanda, lívida, manchada pela sombra das árvores em volta das herdades, se estendia sob um céu negro, rude e sinistro.
Não se ouvia mais nada, na luz eterna do crepúsculo, além de um ruído confuso, brando e descompassado de tropas em marcha, de um bater de pés infinito, misturado de um vago tinido de equipamentos e de sabres. Os homens, curvados, arqueados, sujos, muitas vezes mesmo esfarrapados, arrastavam-se, apressavam-se sobre a neve com longo passo extenuado.
A pele das mãos colava ao aço das culatras, porque gelava terrivelmente nessa noite. Muitas vezes, eu via soldado tirar os sapatos para andar com os pés nus, de tanto que sofria com o calçado, e deixava em cada passada um traço de sangue.
Depois, no fim de algum tempo, sentava-se num campo para descansar alguns minutos, e não se levantava mais. Cada homem que sentava era um homem morto.
Tínhamos deixado atrás de nós muitos desses pobres soldados estropiados, que contavam tornar a partir imediatamente, desde que tivessem descansado um pouco as suas pernas inteiriçadas. Mas, mal cessavam de se mover, de fazer circular em sua carne cansada o sangue quase inerte, um entorpecimento invencível apoderava-se deles, pregava-os à terra, fechava-lhes os olhos, paralisava em segundos esta mecânica humana estafada. E eles se abatiam um pouco, com as testas apoiadas nos joelhos, sem, contudo, cair de todo, porque seus rins e seus membros tornavam-se imóveis, duros como um pau, impossíveis de dobrar ou de endireitar.
E nós outros, mais robustos, íamos sempre, gelados até a medula, avançando por uma força de movimento dado nessa noite, nessa neve, nessa planície fria e mortal, esmagados pelo pesar, pela derrota, pelo desespero, sobretudo oprimidos pela abominável sensação do abandono, do fim, da morte, do nada.
Percebi dois gendarmes que seguravam pelo braço um homenzinho singular, velho, sem barba, de aspecto verdadeiramente surpreendente.
Procuravam um oficial, porque acreditavam ter prendido um espião.
A palavra espião correu logo entre os estropiados e estes fizeram um círculo em volta do prisioneiro. Uma voz gritou:
— É preciso fuzilá-lo!
E todos esses soldados, que caíam de cansaço, que se conservavam de pé apoiados nas suas espingardas, tiveram subitamente esse arrepio de cólera furiosa e bestial, que impele as multidões ao massacre.
Eu quis falar. Era então o comandante do batalhão. Mas não se conheciam mais chefes. Teriam fuzilado a mim mesmo.
Um dos policiais disse:
— Há três dias que ele nos segue, pedindo a todo mundo informações sobre a artilharia.
Eu procurei interrogar este ser:
— Que andas fazendo? O que queres? Para que acompanhas o exército?
Ele balbuciou algumas palavras numa linguagem ininteligível.
Era deveras um estranho personagem, de espáduas estreitas, de olhar sonso, e tão perturbado diante de mim que não me restava mais dúvida alguma de que era mesmo um espião. Ele me considerava de cima a baixo, com um ar humilde, estúpido e manhoso.
Os homens à nossa volta gritavam:
— Ao paredão! Ao paredão!
Eu disse aos gendarmes:
— Respondeis pelo prisioneiro?
Não tinha acabado de falar quando um empurrão terrível me deitou por terra, e eu vi, por um segundo, o homem tomado pelos soldados furiosos, derrubado, ferido, arrastado à beira da estrada e lançado contra uma árvore, já quase morto, sobre a neve.
E logo fuzilaram-no.
Os soldados atiravam nele. Tornavam a carregar as armas e atiravam de novo, com um furor brutal.
Batiam-se para ter a sua vez. Desfilavam diante do cadáver e disparavam repetidas vezes, como se desfilassem diante de um féretro para lançar água benta.
Mas, de repente, um grito soou:
— Os prussianos! Os prussianos!
E eu ouvi, por todo o horizonte, o rumor imenso do imenso exército perdido que corria.
O pânico, nascido desses tiros sobre esse vagabundo, havia enlouquecido os próprios executores que, sem compreender que o pavor vinha deles mesmos, fugiram e desapareceram na sombra.
Eu fiquei só, diante do corpo com os dois gendarmes que, retidos pelo dever, haviam permanecido perto de mim.
Eles levantaram aquela carne moída, mole e sangrenta.
— É preciso revistá-lo – disse-lhes.
E dei uma caixa de fósforo de cera que tinha em meu bolso. Um dos soldados iluminava o outro. Eu estava em pé entre os dois.
O gendarme que revistava o corpo declarou:
— Vestido com uma blusa azul, camisa branca, calças e um par de sapatos.
O primeiro fósforo apagou-se. Acendeu-se outro. O homem continuou remexendo os bolsos:
— Uma faca de chifre, um lenço xadrez, uma caixa de rapé, um punhado de barbante, um pedaço de pão.
O segundo fósforo apagou-se. Acendeu-se o terceiro. O gendarme, depois de ter por muito tempo apalpado o cadáver, exclamou:
— É tudo.
Eu disse:
— Vamos despi-lo. Acharemos talvez alguma coisa contra a pele.
E, para que os dois soldados pudessem agir ao mesmo tempo, eu mesmo me pus a iluminá-los. Eu os via, ao clarão rápido do fósforo, tirar a roupa, peça por peça, pôr a nu este fardo de carne ainda quente e morta.
De súbito, um deles exclamou:
— Ah, meu comandante, é uma mulher!
Eu não vos poderia dizer que estranha e pungente sensação de agonia me oprimiu o coração. Não podia acreditar naquilo, e ajoelhei-me sobre a neve, diante dessa massa informe para ver: era mesmo uma mulher!
Os dois gendarmes, interditos e desmoralizados, esperavam que eu emitisse uma opinião.
Mas eu não sabia o que pensar, o que supor.
Então, o brigadeiro pronunciou-se lentamente:
— Talvez ela viesse procurar seu filho, que era soldado de artilharia, e de quem não tinha notícias.
E o outro respondeu:
— Talvez fosse isto mesmo...
Eu, que já tinha visto coisas bem terríveis, comecei a chorar. E senti, em face dessa morta, nessa noite gelada, no meio dessa planície negra, diante desse mistério, diante dessa desconhecida, assassinada, o que quer dizer a palavra horror.
Eu tive esta mesma sensação no ano passado interrogando um fuzileiro argelino, que era um dos sobreviventes da missão Flatters.
Vós conheceis os detalhes desse drama atroz. Mas há um que, decerto, ignoreis.
O coronel ia ao Sudão pelo deserto e cruzava o imenso território dos tuaregues, que são, nesse oceano de areia, que vai do Atlântico ao Egito, e do Sudão à Argélia, uma espécie de piratas comparáveis aos que antigamente assolavam os mares.
Os guias que conduziam a coluna pertenciam à tribo dos Chambaa, de Ouargla.
Um dia, montaram o acampamento em pleno deserto, e os árabes declararam que, como a fonte ainda estava um tanto distante, iriam recolher a água com todos os camelos.
Apenas um homem preveniu o coronel de que era uma armadilha. Flatters não acreditou, e acompanhou a caravana com os engenheiros, os médicos e quase todos os seus oficiais.
Eles foram assassinados junto à fonte e todos os camelos capturados.
O capitão do posto árabe de Ouargla, que ficara no acampamento, assumiu o comando dos sobreviventes, spahis e fuzileiros, e iniciaram a retirada, abandonando as bagagens e os víveres, por falta de camelos para transportá-los.
Então, eles partiram naquela solidão sem sombras e sem fim, sob um sol
devorador, que os abrasava de manhã à noite.
Uma tribo veio render-se, trazendo tâmaras. Estavam envenenadas. Quase
todos os franceses morreram e, entre eles, o último oficial.
Só ficaram alguns spahis, com seu
comandante Pebóguim, e mais alguns fuzileiros nativos da tribo Chambaa. Tinham
ainda dois camelos, que desapareceram uma noite com os árabes.
Em seguida, os sobreviventes compreenderam que teriam de devorar-se uns
aos outros e, logo que descobriram a fuga de dois homens com os dois animais,
os que ficaram se separam e começaram a andar, cada um de per si, na areia
macia, sob a cruel chama do sol. Conservavam entre si uma distância maior que a
de um tiro de fuzil.
Andaram, assim, o dia todo, levantando, em cada lugar, na extensão
abrasada e plana, essas colunas de poeira que denunciam, ao longe, quem caminha
pelo deserto.
Mas, numa manhã, um dos viajantes se desviou bruscamente, aproximando-se
de seu companheiro. E todos pararam para olhar.
O homem na direção de quem marchava o soldado faminto não fugiu. Caiu ao
chão e apontou a arma para o que se aproximava. Quando viu que o outro estava a
uma boa distância, atirou. Mas não o atingiu. Este continuou avançando e,
depois, assumindo a sua vez, matou o seu camarada.
Então, de todo o horizonte, acorreram os demais, para garantir a sua
parte. E o que havia matado, esquartejando o morto, distribuiu as postas.
E se separaram novamente aqueles aliados irreconhecíveis, até que o
próximo assassinato os unisse novamente.
Durante dois dias eles viveram daquela carne humana compartilhada. Em
seguida, voltou a fome, e o primeiro a matar matou outra vez. E, novamente,
como um açougueiro, trinchou o cadáver e o ofereceu aos companheiros, mantendo
apenas a sua parte.
E assim continuou a retirada de antropófagos.
O último francês, Pobéguim, morreu assassinado nas margens de um poço,
na véspera do dia em que chegou o socorro. Vós compreendeis agora o que é o que
eu entendo por horrível?”
Eis o que nos contou, naquela noite, o general G...
[escrito por volta de 1880]
(In: 125 contos de Guy de Maupassant. Org. Noemi Moritz Kon Trad. Amilcar Bettega. São Paulo: Companhia das Letras, 2009)
O encontro
Lygia Fagundes
Telles
Em
redor, o vasto campo. Mergulhado em névoa branda, o verde era pálido e opaco.
Contra o céu, erguiam-se os negros penhascos, tão retos que pareciam recortados
a faca. Espetado na ponta da pedra mais alta, o sol espiava através de uma
nuvem.
“Onde, meu Deus?! –
perguntava a mim mesma – Onde vi esta mesma paisagem, numa tarde assim igual?”
Era a primeira vez
que eu pisava naquele lugar. Nas minhas andanças pelas redondezas, jamais fora
além do vale. Mas nesse dia, sem nenhum cansaço, transpus a colina e cheguei ao
campo. Que calma! E que desolação. Tudo aquilo – disso estava bem certa – era
completamente inédito para mim. Mas por que então o quadro se identificava, em
todas as minúcias, a uma imagem semelhante lá nas profundezas de minha memória?
Voltei-me para o bosque que se estendia à minha direita. Esse bosque eu também
já conhecera com sua folhagem cor de brasa dentro de uma névoa dourada. “Já vi
tudo isto, já vi... Mas onde? E quando?”
Fui andando em
direção aos penhascos. Atravessei o campo. E cheguei à boca do abismo cavado
entre as pedras.
Um vapor denso
subia, como um hálito, daquela garganta de cujo fundo insondável vinha um remotíssimo
som de água corrente. Aquele som eu também conhecia. Fechei os olhos. “Mas se
nunca estive aqui! Sonhei, foi isso? Percorri em sonho estes lugares e agora os
encontro, palpáveis, reais? Por uma dessas extraordinárias coincidências teria
eu antecipado aquele passeio enquanto dormia?”
Sacudi a cabeça,
não, a lembrança – tão antiga quanto viva – escapava da inconsistência de um
simples sonho. Ainda uma vez fixei o olhar no campo enevoado, nos penhascos
enxutos. A tarde estava silenciosa e quieta. Contudo, por detrás daquele
silêncio, no fundo daquela quietude eu sentia qualquer coisa de sinistro.
Voltei-me para o sol que sangrava como um olho empapando de vermelho a
nuvenzinha que o cobria. Invadiu-me a obscura sensação de estar próxima de um
perigo. Mas que perigo era esse e em que consistia?
Dirigi-me ao
bosque. E se fugisse? Seria fácil fugir, não? Meu coração se apertou, inquieto.
Fácil, sem dúvida, mas eu prosseguia implacável como se não restasse mesmo
outra coisa a fazer senão avançar. “Vá-se embora depressa, depressa!” – a razão
ordenava enquanto uma parte do meu ser, mergulhada numa espécie de
encantamento, se recusava a voltar.
Uma luz dourada
filtrava-se por entre a folhagem do bosque que parecia petrificado. Não havia a
menor brisa soprando por entre as folhas enrijecidas, numa tensão de
expectativa.
“A expectativa está
só em mim” – pensei, triturando entre os dedos uma folha avermelhada. Veio-me
então a certeza absoluta de já ter feito várias vezes esse gesto enquanto
pisava naquele mesmo chão que arfava sob os meus sapatos. Enveredei por entre
as árvores. “E nunca estive aqui, nunca estive aqui” – fui repetindo a aspirar
o cheiro frio da terra. Encostei-me a um tronco e por entre uma nesga da
folhagem vislumbrei o céu pálido. Era como se o visse pela última vez.
“A cilada” – pensei
diante de uma teia que brilhava suspensa entre dois galhos. No centro, a aranha.
Aproximei-me: era uma aranha ruiva e atenta, à espera. Sacudi violentamente o
galho e desfiz a teia que pendeu em farrapos. Olhei em redor, assombrada. E a
teia para a qual eu caminhava, quem? quem iria desfazê-la? Lembrei-me do sol,
lúcido como a aranha. Então enfurnei as mãos nos bolsos, endureci os maxilares
e segui pela vereda.
“Agora vou
encontrar uma pedra fendida ao meio.” E cheguei a rir, entretida com aquele
estranho jogo de reconhecimento: lá estava a grande pedra golpeada, com tufos
de erva brotando na raiz da fenda. “Se for agora por este lado, vou encontrar
um regato.” Apressei-me. O regato estava seco mas os pedregulhos limosos
indicavam que provavelmente na próxima primavera a água voltaria a correr por
ali.
Apanhei um
pedregulho. Não, não estava sonhando. Nem podia ter sonhado, mas em que sonho
podia caber uma paisagem tão minuciosa? Restava ainda uma hipótese: e se eu
estivesse sendo sonhada? Perambulava pelo sonho de alguém, mais real do que se
estivesse vivendo. Por que não? Daí o fato estranhíssimo de reconhecer todos os
segredos do bosque, segredos que eram apenas do conhecimento da pessoa que me
captara em seu sonho. “Faço parte de um sonho alheio” – disse e espetei um
espinho no dedo. Gracejava mas a verdade é que crescia minha inquietação: “se
for prisioneira de um sonho, agora escapo.” Uma gota de sangue escorreu pela
minha mão, a dor tão real quanto a paisagem.
Um pássaro cruzou
meu caminho num voo tumultuado. O grito que soltou foi tão dolorido que cheguei
a vacilar num desfalecimento, e se fugisse? E se fugisse? Voltei-me para o
caminho percorrido, labirinto sem – esperança. “Agora é tarde!” – murmurei e
minha voz avivou em mim um último impulso de fuga. “Por que tarde?”
A folha que
resvalou pela minha cabeça era a seca advertência que colhi no ar e fechei na
mão, que eu não buscasse esclarecer o mistério, que não pedisse explicações
para o absurdo daquela tarde tão inocente na sua aparência. Tinha apenas que
aceitar o inexplicável até que o nó se desatasse, na hora exata.
Enveredei por entre
dois carvalhos. Ia de cabeça baixa, o coração pesado mas as passadas eram
enérgicas, impelida por uma energia que não sabia de onde vinha. “Agora vou
encontrar uma fonte. Sentada ao lado, está uma moça.”
Ao lado da fonte,
estava a moça vestida com um estranho traje de amazona. Tinha no rosto muito
branco uma expressão tão ansiosa que era evidente estar à espera de alguém. Ao
ouvir meus passos, animou-se para cair em seguida no maior desalento.
Aproximei-me. Ela
lançou-me um olhar desinteressado e cruzou as mãos no regaço.
– Pensei que fosse
outra pessoa, estou esperando uma pessoa...
Sentei-me numa
pedra verde de musgo, olhando em silêncio seu traje completamente antiquado:
vestia uma jaqueta de veludo preto e uma extravagante saia rodada que lhe chegava
até a ponta das botinhas de amarrar. Emergindo da gola alta da jaqueta
destacava-se a gravata de renda branca, presa com um broche de ouro em forma de
bandolim. Atirado no chão, aos seus pés, o chapéu de veludo com uma pluma
vermelha.
Fixei-me naquela
fisionomia devastada. “Já vi esta moça, mas onde foi? E quando?...” Dirigi-me a
ela sem o menor constrangimento, como se a conhecesse há muitos anos.
– Você mora aqui
perto?
–- Em Valburgo –
respondeu sem levantar a cabeça.
Mergulhara tão
profundamente nos próprios pensamentos, que parecia desligada de tudo,
aceitando minha presença sem nenhuma surpresa, não notando sequer o disparatado
contraste de nossas roupas. Devia ter chorado. E agora ali estava numa patética
exaustão, as mãos abandonadas no regaço, alguns anéis de cabelo caindo pelo
rosto. Nunca criatura alguma me pareceu tão desesperada, tão tranquilamente
desesperada, se é que cabia tranquilidade no desespero. Perdera toda a
esperança e decidira resignar-se. Mas sentia-se a fragilidade naquela resignação.
– Valburgo,
Valburgo... – fiquei repetindo. O nome não me era desconhecido. E não me
lembrava de nenhum lugar com esse nome em toda aquela região.
– Fica logo depois
do vale. Não conhece Valburgo?
– Conheço –
respondi prontamente. Tinha agora a certeza de que esse lugar não existia mais.
Com um gesto
indiferente, ela tentou prender o cabelo que desabava do penteado alto.
Afrouxou ansiosamente o laço da gravata, como se lhe faltasse o ar. O bandolim de
ouro pendeu, repuxando a renda. “Esse broche... Mas já não vi esse mesmo broche
nessa mesma gravata?!”
– Eu esperava uma
pessoa – disse com esforço, voltando o olhar dolorido para o cavalo preso a um
tronco.
– Gustavo?
Esse nome
escapou-me com tamanha espontaneidade que me assustei, era como se estivesse
sempre em minha boca, aguardando aquele instante para ser dito.
– Gustavo – repetiu
ela e sua voz era um eco. Gustavo.
Encarei-a. Mas por
que ele não tinha vindo? “E nem virá, nunca mais. Nunca mais.”
Fixei
obstinadamente o olhar naquela desconcertante personagem de um antiquíssimo
álbum de retratos. Álbum que eu já folheara muitas vezes, muitas. Pressentia
agora um drama com cenas entremeadas de discussões tão violentas, lágrimas. A
cena esboçou-se esfumadamente nas minhas raízes, cena que culminou naquela
noite das vozes exasperadas. De homens. De inimigos. Alguém fechou as janelas
da pequena sala frouxamente iluminada por um candelabro. Procurei distinguir o
que diziam quando através da vidraça embaçada vi delinear-se a figura de um
velho magro, de sobrecasaca preta, batendo furiosamente a mão espalmada na mesa
enquanto parecia dirigir-se a uma máscara de cera que flutuava na penumbra.
Moveu-se a máscara
entrando na zona de luz. Gustavo! Era Gustavo. A mão do velho continuou batendo
na mesa e eu não podia me despregar dessa mão tão familiar com suas veias azuis
se enroscando umas nas outras numa rede de fúria. Nos punhos de renda de sua
camisa destacavam-se com uma nitidez atroz os rubis de suas abotoaduras. Um dos
homens avançou. Foi Gustavo? Ou o velho? A garrucha avançou também e a cena
explodiu em meio de um clarão. Antes do negrume total vi por último as abotoaduras
brilhando irregulares como gotas de sangue.
Senti o coração
confranger-se de espanto, “quem foi que atirou, quem foi?!” Apertei os nós dos
dedos contra os olhos. – Era quase insuportável a violência com que o sangue me
golpeava as fontes.
– Você devia voltar
para casa.
– Que casa? –
perguntou ela abrindo as mãos.
Olhei para suas
mãos. Subi o olhar até seu rosto e fiquei sem saber o que dizer: era
parecidíssima com alguém que eu conhecia tanto.
– Por que não vai
procurá-lo? – lembrei-me de perguntar. Mas não esperei resposta. A verdade é
que ela também suspeitava de que estava tudo acabado.
Escurecia. Uma
névoa roxa – e que eu não sabia se vinha do céu ou do chão – parecia envolvê-la
numa aura. Achei-a impregnada da mesma falsa calmaria da paisagem.
– Vou-me embora –
disse apanhando o chapéu.
Sua voz chegou-me
aos ouvidos bastante próxima. Mas singularmente longínqua. Levantei-me. Nesse
instante, soprou um vento gelado com tamanha força que me vi enrolada numa
verdadeira nuvem de folhas secas e poeira. A ramaria vergou num descabelamento
desatinado. Verguei também tapando a cara com as mãos. Quando consegui abrir os
olhos ela já estava montada. O mesmo vento que despertara o bosque, com igual
violência arrancou-a daquela apatia: palpitava em cima do cavalo tão elétrico
quanto as folhas vermelhas rodopiando em redor. Espicaçado, o animal batia com
os cascos nos pedregulhos, desgrenhado, indócil. Quis
retê-la..
– Há ainda uma
coisa!
Ela então voltou-se
para mim. A pluma vermelha de seu chapéu debatia-se como uma labareda em meio
da ventania. Seus olhos eram agora dois furos na face de um tom acinzentado de
pedra.
– Há ainda uma
coisa – repeti agarrando as rédeas do cavalo. Ela arrancou as rédeas das minhas
mãos e chicoteou o cavalo. Recuei. Aquela chicotada atingiu em cheio o
mistério. Desatou-se o nó na explosão da tempestade. Meus cabelos se eriçaram.
Era comigo que ela se parecia! Aquele rosto era o meu.
– Eu fui você –
balbuciei. – Num outro tempo eu fui você! – quis gritar e minha voz saiu
despedaçada. Tão simples tudo, por que só agora entendi?... O bosque, a aranha,
o bandolim de ouro pendendo da gravata, a pluma do chapéu, aquela pluma que
minhas mãos tantas vezes alisaram... E Gustavo? Estremeci. Gustavo! A saleta
esfumaçada se fez nítida. Lembrei-me do que tinha acontecido. E do que ia
acontecer.
– Não! – gritei,
puxando de novo as rédeas. Um raio chicoteou o bosque com a mesma força com que
ela chicoteou o cavalo. Ele empinou, imenso, negro, os olhos saltados,
arrancando-se das minhas mãos. Estatelada, vi-o fugir por entre as árvores.
Fui atrás. O vento
me cegava. Espinhos me esfrangalhavam a roupa. Mas eu corria, corria
alucinadamente na tentativa de impedir o que já sabia inevitável. Guiava-me a
pluma vermelha que ora desaparecia, ora ressurgia por entre as árvores,
flamejante na escuridão. Por duas vezes senti o cavalo tão próximo que poderia
tocá-lo se estendesse a mão. Depois o galope foi se apagando até ficar apenas o
uivo do vento.
Assim que atingi o
campo, desabei de joelhos. Um relâmpago estourou e por um segundo, por um
brevíssimo segundo, consegui vislumbar ao longe a pluma debatendo-se ainda.
Então gritei, gritei com todas as forças que me restavam. E tapei os ouvidos
para não ouvir o eco de meu grito misturar-se ao ruído pedregoso de cavalo e
cavaleira se despencando no abismo.
[1958]
(In: Os melhores contos. São Paulo: Global Editora,
1984.)
***
O defunto
Thomaz Lopes
Quando
ele despertou, deitado ao comprido num estreito caixão negro e dourado, tinha
as mãos postas numa derradeira prece. Lançou vagamente os olhos em torno, e em
torno tudo era silêncio e treva. Procurou levar as mãos aos olhos, mas sentiu
as mãos presas, sem movimento; e pareceu-lhe então que estava morto.
Como
é pesado o ar que respira! Como é profunda a escuridão que o encerra! E onde
está? No seu quarto? No seu leito? Que estranha cama, estreita e dura! E por
que dorme calçado? E que vestes tão solenes! Terá vindo ébrio de alguma festa?
E as mãos amarradas! E que falta de ar! Ah! que dolorosa e lenta agonia.
De
novo distendeu os braços; mas a fita que os unia partiu-se, e as mãos geladas
bateram de encontro às tábuas. Passou os frios dedos pelo rosto e retirou-os
espantado, sentindo a face morta como a de um cadáver. Veio-lhe à memória uma
vaga lembrança de moléstia e de perda de sentidos.
E
sentiu sobre si uma tampa, uma tampa de caixão, de caixão de defunto!
Um
medo contínuo de si próprio, um indefinível asco do “cadáver” que sente a seu
lado, assoberba-o. Rebenta o caixão, levanta-se, quer correr, mas bate de
encontro a uma parede, uma fria e cinzenta parede de mármore. Rápida e rija
vem-lhe a certeza de estar enterrado vivo, prisioneiro da morte, atirado num
calabouço. No silêncio e na treva, entre a loucura e a morte, dá dois passos,
mas tropeça. Que será?
E
como seus pés tateassem na sombra, encontraram um degrau que subiram; depois,
outro mais outros, outros ainda. Oh! que sepultura profunda! Erguendo as mãos
para o céu que está tão longe dos abismos, sentiu nas mãos a fria laje do teto.
Em
vão tenta erguê-la. Respira a longos haustos por uma fresta aberta na pedra. Um
novo esforço para erguê-la: em vão! Uma sepultura de mármore, como que
para guardar o corpo aos vermes e ao pó; uma fresta por onde apenas entra o ar
que prolonga a vida ao condenado; uma escada que os passos sobem e inutilmente
descem; uma laje que se levanta para enterrar os mortos e que se não ergue para
salvar os vivos. – Oh! essa sepultura é com certeza uma sepultura de igreja.
E
novamente luta para erguer a pedra, mas com o esforço inútil, vem o cansaço,
vem o abatimento, vem o desânimo. Então como o inconsciente ou o muito atilado,
que vendo abertos os braços lívidos da Morte, em vez de fugir, aos braços se
atira, ele resignadamente desce. Ao descer alucinado e cego, bate com o corpo
no mármore da parede, e grita. A sua voz sobe e desce, abafada como o eco de um
trovão distante encerrado numa gruta profunda. Agora, sereno e calmo, como quem
leva um sol apagado no coração e uma estrela sem luz em cada olhar, sobe de
novo os degraus da Vida e da Morte. Nos primeiros momentos, com a calma e
serenidade com que subira, junto ao intento a sua força, mas a pedra permanece
impassível. A angústia do sofrimento prolongado destrói-lhe o sossego da ação;
com um doloroso esforço, ingurgitadas as veias, os músculos retesados na
onipotência da sua própria força, os olhos saltando das órbitas, procura num
ansiado desespero levantar a pedra que talvez para sempre o encerra. Trabalho
inútil! Parece que o pranto preso na garganta vai sufocá-lo – e sente uma a uma
ensanguentarem-se, dilacerarem-se, largarem-lhe da carne as unhas. Impossível!
Exausto
de fadiga e dor, deixa-se abater, e o seu corpo doente, rolando de degrau em
degrau como um fardo sinistro, vai parar ao pé da parede cinzenta e fria...
Veio
o sono. Veio seguindo a nébula do sono a doida fantasia do sonho.
Era
vago e tênue. Mas porque tão vago fosse e tão tênue, quase sem torturas, o
Espírito-Zombeteiro dos Sonhos fê-lo aclarar-se – assim como uma cidade
que despe aos primeiros raios de sol a túnica de névoas em manhãs de frio.
Vai-se
largamente o sonho dilatando, mas sempre duvidoso e cinzento.
Era uma noite profunda, iluminada de estrelas. O céu muito alto era como um imenso veludo macio. E o céu alto e a noite profunda cobriam e envolviam uma cidade estranha mas que lhe não era de todo desconhecida. Havia velhos lugares que amava e, pelos sítios conhecidos – nem vivalma! Apenas sombras. Caminhava e, quando era a grande fadiga e o repouso que lhe abria os braços amigos, outros braços mais fortes o impeliam e uma sinistra voz bradava: – Marcha! Marcha! – As pernas pesavam, se entorpeciam; desejos protetores de descanso inundavam-lhe o lasso corpo. À proporção que atravessava caminhos, os caminhos mudavam: eram jardins floridos e perfumados, prados extensos, longas campinas, casarios que fugiam na sombra; outras vezes, charnecas adustas e ressequidas, betesgas exalando podridão. Passou por cemitérios e à sua passagem os defuntos erguiam-se, cobertos de pó e de segredo, acompanhando-o fantasticamente por dilatados e dolorosos momentos. As árvores tomavam assombradoras formas de avejões e as estrelas, apagando-se no céu, deixavam o céu cinzento e frio como o mármore da sua sepultura tão fria e tão cinzenta. E, entretanto, no silêncio, na noite e na treva – o defunto caminhava.
De súbito, como aos olhos tontos e averiguadores do náufrago, aparece a orla branca de uma praia distante, no seu espírito cansado nasceu uma ideia feliz: aquela noite de loucura e de assombramento marcava o aniversário de sua Noiva e por data essa tão formosa haveria uma formosa festa. Devia ser tarde; ansiavam por ele. – Com uma força nova, um grande desejo de ver, de ouvir, de sentir, de querer, de palpitar, de amar e de viver banhou-lhe a alma numa cariciosa sensação de vida. Apressou o passo, correu. Mas, voltando-se para trás, julgou ver na sombra uma sombra que resvalava. Levantaram-se-lhe os cabelos, um calafrio de medo correu-lhe o corpo de alto a baixo – e partiu, assombrado, numa carreira mal segura, de perseguido. Batendo com os pés no solo, todo o solo ressoava ao contato, como se os pés fossem de aço. Depois, com surpresa, sentiu-se leve; houve um suspiro de prazer e de alivio e, flutuando no espaço, começou a voar. Subiu; rompeu a camada cinzenta do céu e o céu tornou-se inteiramente negro. Como subisse mais alto, seus olhos extasiaram-se diante do azul, um azul, tão límpido e transparente como até hoje olhos humanos não sonharam. No alto, imensamente longe, brilhavam as estrelas no glorioso esplendor de uma imortal claridade. Muito embaixo, perto da Terra, desaparecia a Lua amorável dos poetas. Os seus olhos humanos quase cegaram fitando Sírius. – Entre as estrelas abriu-se o céu e aqueles mesmos deslumbrados olhos viram sobre os sóis o suave Jesus dos Humildes. Perto de Cristo apareceram duas sombras que se foram corporificando e nas quais o Defunto se reconheceu, a si e a sua Noiva! Ela! Mas como, se “ele” ali estava oculto contemplando a felicidade do outro “ele”! Jesus sorriu. Jesus os abençoou. E eles voaram. Ah! se ele pudesse, também seguir-lhes o voo!... Quando quis voar, as asas se lhe desfizeram e ele caiu, rolou, precipitou-se, tocou a terra – e partiu novamente, correndo pelas estradas solitárias e ermas. Voltando o rosto viu outra vez, na treva, o mesmo vulto que o acompanhara; dominado pelo medo, correu mais, até que, numa curva do caminho, espessa sebe lhe tomou o passo. Retrocedeu, passou, assombrado, pelo vulto, que lhe estendeu os braços, e na mesma carreira fantástica, atravessou planícies, estepes nuas, estradas mortas, frias e cinzentas. Lamentou a perda das suas asas felizes e lembrou-se da sombra que não o deixava. Mas, se ele estava morto, por que o perseguiam? Cada vez mais o vulto avançava e era tão longe a casa de sua Noiva! O vulto já ia tocá-lo... – Mas ele era cadáver e, na sua qualidade de morto, devia amedrontar os vivos... Voltou-se, mas quem quer que era riu-lhe diante da medrosa face. Mais intenso foi então o pavor de si mesmo e da sombra que devia ser a sua alma... E ela vinha resvalando na sombra, acompanhando-o... Estava perdido! Já não tinha mais forças! Coragem! Uma luz brilhou ao longe; oh! que deliciosa alegria! Era a casa de sua Noiva! Mais um passo! Avante! O alguém seguia-o, quase alcançando-o; mas estava salvo! Era a casa dela, era o som da orquestra, era a luz intensa, era a salvação! Um pouco de ânimo – coragem! E antes de bater com o corpo nas lajes cinzentas e frias da sepultura, pareceu que o vulto perseguidor lhe abriu os braços. E também pareceu que eram os braços regelados da Morte...
Um
raio de sol, fino e tênue, atravessava a fresta aberta na pedra.
*
* *
Despertou
suado, ardendo em febre. Pelo seu rosto lívido andava, molemente, uma larva.
Quis gritar, mas só lhe saiu da boca um grunhido surdo que o apavorou. Abriu os
braços para certificar-se da vida e na treva os braços bateram contra a parede.
Pensou,
então, no seu sonho – e tristemente verificou que era, em verdade, por aqueles
dias, o aniversário de sua Noiva. Que data era a de sua morte? Quem sabe se não
era mesmo aquele o dia festivo! Todo o passado irrompeu, tumultuando, da sombra
e ele reviu as longas horas de contemplação ou de melancolia em que todo o seu
ser era um crente adorando a um ídolo. E outra vez, de repente, voltou a encarar
a sua situação de morto.
Longas
horas passaram; desaparecera o raio de sol; e um sino tangia ao longe, fúnebre
e evocativo, os dobres que deviam ser os da Ave-Maria. O som do triste bronze,
chegando a seus ouvidos, falava na vida e na liberdade A liberdade! A delícia
infinita! Ah! como era doloroso morrer assim, solitário, consciente, indefeso,
abandonado, sem o prazer da luta, sem o esforço da salvação! E por que o
enterraram vivo? Mil vezes amaldiçoou a estupidez criminosa que o atirara à
morte! Os soluços e as lágrimas rebentaram e sofrendo sem termo, e chorando sem
esperança adormeceu, sem sentidos, esperando pela Morte...
*
* *
Ao
despertar, na manhã do outro dia, viu a fita do sol – único que lhe levava à
cova a carícia de uma visita.
Admirando-se
de ainda estar enterrado, quis levantar-se e sentiu que desmaiava. Tinha uma
fome devoradora e uma sede que o requeimava. Ah! quarenta e oito longas,
intermináveis horas sem comer, sem beber! Sem beber! Sentia o estômago vazio e
gelado e a língua, ressequida, estalava. De novo quis levantar-se e de novo
ficou. O dia inteiro – longo como um deserto; a noite inteira – vazia como o
silêncio, ele passou, ora em profunda sonolência, ora acordado, com a ânsia
estranguladora de comer e de beber.
Outra
vez o sol que devia ser o dia, outra vez a manhã que devia ser a vida!
O
enterrado ouviu a seus pés um guincho fino; os olhos tiveram um rápido brilho
de prazer e, estendendo as mãos crispadas, apanhou um rato, vivo e mole.
Abrindo os lábios num sorriso que devia ser de imbecilidade, bestializado e
faminto, levou o rato à boca, frio, áspero, nojento, estrebuchando e guinchando
entre os dentes. Oh! mas a sede! A sede que aquela carne repulsiva aumentar! A
fome que ela fizera crescer! – E então, num esforço hercúleo, ergueu-se; olhou
a treva um instante, com um olhar profundo, calmo, parado. De repente, soltando
um uivo de fera enjaulada, rasgou as roupas, dilacerou-as – e, nu, selvagem,
rugindo e chorando de desespero, retalhou com os dentes a carne branca dos seus
braços. O sangue brotava em ondas rubras que espumavam e ele o sorvia, atirando
a cabeça de um lado para o outro, aparando-o para não perder uma gota chupando
aquele sangue que corria quente espesso, vivo, garganta abaixo, descendo para o
estômago crispado pela fome.
Um
rugido mais rouco, dois saltos contra a parede onde repartiu a cabeça, de onde
brotou mais sangue que lhe envolveu o rosto numa máscara vermelha.
Enlouquecera.
Outra vez, pela última vez, subiu as escadas. Ajoelhou-se, rilhou os dentes, entrelaçou os dedos sobre as mãos, numa prece maldita – e ficou morto, imóvel, rígido e nu, coberto de sangue escarlate, como o mármore cinzento e frio da sua sepultura...
[1907, Histórias da vida e da morte]
(In: O conto fantástico. Antologia. Org. Jerônymo Monteiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959)
Fechado
na catacumba
H. P. Lovecraft
Não sei de crença mais absurda do que essa
associação convencional dos fatos simples às coisas serenas e banais de que
parece imbuída a psicologia das multidões. Em consequência de um bucólico lugarejo yankee, um inepto e obtuso agente funerário de aldeia e um descuido
desastroso no interior de um jazigo tumular, nenhum leitor de mediano entendimento podia esperar outro desfecho que não alegre,
embora grotesco ato de comédia.
Mas só Deus sabe como a tremenda história de George Birch, cuja morte agora me permite contá-la,
apresenta aspectos frente aos quais
as nossas mais sombrias tragédias são perfeitamente simples,
leves, pueris.
Birch, que abandonou a profissão, trocando-a
por outra, em 1881, jamais tocava nesse assunto, fugindo do caso o mais que
podia. Também o velho médico, Dr. Davis, que morreu há alguns anos, não emitira
a menor palavra a respeito. Geralmente se atribuía tal atitude à aflição e ao
abalo resultante de um fatídico descuido pelo qual Birch se fechara, durante
nove horas, na catacumba do cemitério de Peck Valley e de onde só conseguiu
escapar, empregando meios rudes e contundentes. Embora tudo isso fosse incontestável,
havia outras coisas mais negras que o pobre homem me confiou, sussurrando, no
seu delírio de ébrio já às portas da morte. Ele confiou em mim porque eu era o
seu médico e também, provavelmente, por sentir a necessidade de desabafar-se
com alguém depois do falecimento do Dr. Davis. Birch jamais se casara, nem
contava parente algum neste mundo.
Até 1881, fora empreiteiro dos enterros, em
Peck Valley e sempre se mostrara o tipo do individuo rude e primitivo de modos
e idéias. As práticas que ouvi se lhe atribuírem, hoje ninguém as acreditaria
possíveis, pelo menos, em uma cidade, e mesmo Peck Valley teria estremecido de
espanto se soubesse ao certo dos inescrupulosos processos do seu coveiro
exclusivo, tais como, por exemplo, a subtração dos custosos tecidos
amortalhantes, favorecida pela tampa fechada do caixão e a falta de respeito sacrílega na colocação e arranjo dos
restos mortais no ataúdes que fornecia, nem
sempre fabricados no comprimento adequado. Mas, acima de tudo, o coveiro era
moroso, relaxado e mau profissional. Apesar disso, não penso que fosse, no
fundo, mau sujeito. Julgo-o simplesmente duro de inteligência e ação, bronco,
desmazelado e beberrão, como a presente
história o demonstrará à sociedade, e além disso, sem o mínimo grau de
imaginação comum à maioria dos seres humanos, dentro do limite fixado pelo bom
senso.
Dificilmente sei por onde começar o caso de
Birch, uma vez que não possuo prática qualquer
de narrador. Mas como tenho forçosamente de fazê-lo, principiarei por aquele
frio dezembro de 1880, quando os campos gelaram de tal forma que impediram de
cavar-se sepulturas até o advento
da primavera e consequentemente reamolecimento do solo. Felizmente, a aldeia possuía pequenas proporções, o que
tornava muito baixo o seu coeficiente de mortalidade. Assim, foi possível
dar-se todas as cargas fúnebres do enterrador local um abrigo provisório na
única catacumba do cemitério. Com a inclemência do tempo, Birch ficou
dobradamente lerdo e parecia superar-se, a si mesmo, de relaxamento nos diversos misteres
da sua profissão. Jamais construíra ele ataúdes tão grosseiros e mal ajustados, nem mais
flagrantemente descurara antes os cuidados indispensáveis com a enferrujada
fechadura da cripta, cuja porta ele costumava abrir com um safanão e fechava
com desleixados pontapés.
Afinal veio o degelo e as sepulturas puderam
ser cavadas laboriosamente para os silenciosos frutos humanos, safra da
impiedosa segadora eterna e que pacientemente esperavam o repouso final da
última morada. Birch, embora maldizendo o afã, começou a remoção dos cadáveres,
numa desagradável manhã de abril, interrompendo-a, porém, antes do meio-dia,
devido à pesada chuva que cegava o cavalo da carreta, e depois de só ter
baixado um único defunto ao seio da terra. Este era Darius Peck, nonagenário, cuja cova ficava
perto da catacumba. O coveiro resolveu
começar, no dia seguinte, com
Matthew Fenner, velhinho miúdo que tinha o seu túmulo também não muito
distante. Acabou, porém, adiando o serviço para três dias depois, só voltando a
trabalhar na Sexta- feira Santa, dia quinze. Não sendo supersticioso, nenhuma
importância deu à data, se bem que, depois da história, sempre se recusou a
fazer qualquer serviço de importância neste fatídico dia. Certamente, os
acontecimentos daquela noite mudaram por completo, o feitio de George Birch.
Então, na tarde de Sexta-Feira Santa, quinze
de abril, o nosso homem se dirigiu à catacumba,
com o cavalo a puxar a carroça, a fim de apanhar o caixão de Matthew Fenner. A
verdade é que Birch já gostava da bebida, conforme ele próprio o confessou mais
tarde, muito embora, naquele tempo, ainda contraíra o vício desbragado pelo
qual procurou esquecer, na embriaguez, certos fatos penosos. O agente funerário
sentia-se, então, bastante entontecido e abstrato que esquecia o necessário incitamento ao seu cavalo que, vendo-se
assim dignificantemente
conduzido, relinchava, batia com as patas no solo e remexia continuamente a
cabeça, molestado pela chuva.
Entretanto, o dia mostrava-se claro e a aventura soprava, o que pôs o coveiro
contente, com a idéia de abrigar-se, ao abrir a porta de ferro e penetrar na
cripta cavada no flanco da colina. Um outro não teria gostado daquele recinto
úmido e malcheiroso, com oito esquifes dispostos cuidadosamente ao centro, mas Birch tinha
a alma já calejada pelo ofício e só se preocupava em não
errar a sepultura de cada um. Jamais esquecera os protestos levantados, quando
os parentes de Hanna Bixby, desejando transportar-lhe os restos para o
cemitério da cidade para onde se haviam mudado, encontraram, sob a lápide de
Hanna, a urna do Juiz Capwell.
O interior da catacumba mergulhava-se em
densa penumbra. Birch, no entanto, possuía excelente vista e não confundiu o
caixão de Fenner com o de Asaph Sawyer, embora fosse este muito semelhante
àquele. Com efeito, o ataúde de Sawyer destinava-se primitivamente a Matthew
Fenner, mas, à última hora, Birch pusera-o de lado, achando-o demasiado frágil
e tosco pois, num impulso de sentimentalismo agradecido, lembrou-se de quando o velhinho Fenner
o ajudara em uma
falência, cinco anos antes. Assim, deu ao seu bom protetor tudo o que de melhor
a sua arte poderia produzir. Mas, sendo demasiado sovina para desperdiçar o
material defeituoso, aproveitou o refugo, quando Asaph Sawyer morreu de febre
maligna. Este não gozava de bom conceito,
como cidadão, e muitas histórias corriam da sua quase desumana sede de vingança
e da sua memória tenaz que o impedia de esquecer ressentimentos reais ou
imaginários contra os desafetos. Assim, o empreiteiro fúnebre nenhum
constrangimento sentiu em reservar-lhe o ataúde mal feito que, naquele momento,
afastava para lado com um repelão, procurando o de Fenner.
Foi justamente então, quando punha as mãos
no caixão do bom velhinho, que o vento bateu
a porta, mergulhando tudo em negra escuridão. O estreito postigo só
deixava uma fraquíssima claridade e nenhuma virtualmente se coava pela chaminé
de ventilação do teto. O coveiro ficara, pois,
reduzido a um tatear inconsciente, caminhando hesitante, entre
os esquifes, na direção da
porta. Neste débil lusco-fusco, fez tanger a enferrujada aldrava,
sacudiu inutilmente as almofadas de ferro, espantando-se com a súbita
resistência da maciça porta. Compreendeu logo a realidade da situação e pôs-se
a gritar desesperadamente como se o cavalo, lá fora, pudesse fazer mais do que
responder-lhe com relinchos agudos e desolantes. A lingueta da fechadura,
longamente desleixada, quebrara-se finalmente, fechando, na catacumba, a
culpada vítima da própria negligência, como em ratoeira.
A coisa devia ter acontecido cerca das três
horas e meia da tarde. Birch, dotado de temperamento fleumático e prático, não
gritou por muito tempo, pondo-se logo a procurar, às apalpadelas, algumas
ferramentas que lembrava haver visto amontoadas em um canto. Não há, contudo,
certeza se ele avaliou de pronto todo o horror e a impressionante fatalidade da
sua crítica situação, mas o simples fato de se ver encerrado em local fora do
caminho de qualquer ser humano seria bastante para fazer perder a cabeça ao
mais valente indivíduo. A tarefa do dia fora assim desgraçadamente interrompida
e a não ser que a sorte trouxesse até ali algum excursionista errante, Birch
teria de ficar enclausurado durante toda a noite e ninguém podia saber por
quanto tempo mais. Logo que encontrou
o monte de ferramentas, o enterrador escolheu um martelo e um escopo e
voltou à porta, passando por sobre os caixões. O ar começara a ficar
excessivamente empestado, mas ele não atentou em semelhante detalhe,
tão ocupado estava
em atacar o pesado e corroído metal da fechadura. Teria certamente
então dado tudo por uma lanterna acesa ou um simples toco de vela, mas, na
falta de qualquer iluminação bastante, martelava, às cegas, da melhor maneira
que podia.
Percebendo, porém, que o fecho resistiria
inexoravelmente, pelo menos a tão frágeis instrumentos, naquelas tenebrosas
condições, Birch olhou em torno, na esperança de achar outros possíveis meios
de safamento. A catacumba se cavava na encosta de uma elevação, de modo que o
ventilador atravessava vários pés de terra, eliminando assim qualquer
visibilidade de evasão por aquele lado. A clarabóia losangular, tendida bem
alto, sobre a porta, na fachada de tijolos, parecia- lhe mais suscetível de ser
alargada, embora à custa de rudes esforços. Os olhos do homem nela se fixaram
longamente, enquanto espremia o cérebro, em busca do meio de subir e
alcançá-la. Não havia ali espécie alguma de escada e os nichos destinados a
receber as urnas, situados nas paredes laterais e do fundo, não lhe dariam
acesso, muito distantes, à parte superior da porta. Só restava, portanto, o uso
dos próprios esquifes, à guisa de degraus. Fixando o pensamento nesse sentido,
estudo o melhor meio de colocá-los. Calculou que a altura de três caixões
superpostos lhe seria bastante para chegar à clarabóia, mas quatro lhe tornaria
o trabalho ainda mais fácil. As urnas fúnebres era bem niveladas e podiam ser
empilhadas solidamente. Sem mais demora, pôs-se a imaginar como deveria dispor
os oito féretros para construir uma plataforma escalável, cujo piso superior se
constituísse de quatro deles, verticalmente arrumados. Enquanto pensava, só
lamentava não tê-los feito com absoluta solidez. Agora, se a sua imaginação
chegou a desejar que os caixões estivessem vazios, é francamente duvidoso.
Finalmente, decidiu encostar uma base de
três ataúdes à porta e colocar sobre esta duas camadas de dois féretros cada
uma e, em cima de tudo, um único caixão, servindo de estrado. Tal disposição
podia ser erguida com o mínimo de tropeços e lhe forneceria a altura desejada.
Ainda melhor, assim só se utilizaria de dois caixões, na base, para suportar a
superestrutura, deixando o terceiro, como um degrau disponível, para o caso de
ser-lhe necessário maior altura. E o prisioneiro labutou, na penumbra espessa,
erguendo os defuntos com nenhuma cerimônia, naquela muda de torre de babel.
Vários féretros começaram a estalar no decurso da operação e Birch resolveu reservar o de Matthew Fenner, pela sólida
construção, para encimar a pilha, de modo que, ao trabalhar na clarabóia, os
seus pés encontrassem a superfície mais firme possível como apoio.
Por fim, a torre foi terminada e, com os
braços doloridos, Birch fez uma pausa, durante a qual se sentou no primeiro
degrau da estranha escada. A seguir, subiu cautelosamente, com as ferramentas, até a clarabóia, cujos bordos era m de tijolos e que, lhe parecia, não lhe seria difícil dilatar do suficiente para
escapulir daquela fúnebre prisão. Ao ressoar das primeiras marteladas, o
cavalo, lá fora, relinchou em tom que tanto podia ser de encorajamento como de mofa. Em ambas as
hipóteses, a manifestação da alimária se tornava adequada, pois a imprevista
tenacidade da camada de tijolos, de frágil aspecto à vista, simbolizava um
verdadeiro comentário sardônico à falacidade das esperanças terrenas e exigia
um trabalho merecedor dos mais acalorados incitamentos.
Caiu a noite, que encontrou o coveiro ainda
mourejanto. Agora, trabalhava exclusivamente pelo tato, pois grandes nuvens
repentinamente aglomeradas eclipsaram a lua. Embora o progresso geral fosse
medíocre, ele se sentia animado com a extensão das erosões produzidas no alto e
no fundo da clarabóia. Estava firmemente convicto, enfim, de que conseguiria
libertar-se por volta da meia-noite. Abstraído de reflexões opressivas sobre o
tempo, o lugar e a companhia empilhada sob os seus pés, Brich ia
filosoficamente lascando os pétreos tijolos. Praguejava, quando um estilhaço o
atingia no rosto e ria-se quando outros se projetavam sobre o cada vez mais
enlevado cavalo que pastejava, amarrado ao cipreste. De vez em quando, julgava
a abertura tão adiantada que tentava por ela passar o corpo e, ao assim
proceder, tanto se remexia que os esquifes embaixo, dançavam e estalavam.
Esperava, entretanto, não ter de elevar mais a plataforma por meio de um quinto
ataúde, pois o buraco se encontrava no nível exato de ser transposto logo que
as dimensões permitissem a passagem.
Devia ser, pelo menos, meia-noite, quando
Birch decidiu empreender a travessia da clarabóia. Cansado e suarento, a
despeito das inúmeras pausas, desceu ao chão e sentou-se um momento sobre o
esquife inferior, a fim de reunir as forças para o esforço final e o salto para
o exterior. O cavalo, faminto, relinchava repetida e fracamente, enquanto o seu
dono fazia votos para que ele parasse com aqueles lúgubres apelos. Birch
sentia-se paradoxalmente pouco entusiasmado. No momento de realizar a ambiciosa
libertação, assautou-o um como quase medo de iniciá-la, pois a coisa se revestia de intemerata rudeza
dos heróicos tempos medievais. Ao galgar de novo os caixões, já rachados, ele
percebeu, apreensivo, o próprio corpo mais pesado ainda, especialmente quando,
depois de atingir a plataforma, ouviu um estalo forte de madeira que acabava de
ceder. Fora-lhe inútil escolher o caixão mais sólido para encimar o macabro
andaime. Tão pronto voltara a descansar sobre ele o peso do corpo, a tampa
rompeu-se, fazendo-o baixar duas jardas sobre uma coisa mole, de que jamais
imaginara, um dia, haver de sentir, sob os pés, a muralhante e gosmenta
friagem. Estonteado pelo barulho ou pelo fétido que se desprendera, vigoroso,
até o lado de fora, o cavalo emitiu um berro estridente, demasiado selvagem
para chamar-se um relincho, e mergulhou na
noite de piche, louco de pânico, seguido do estrépito infernal da carroça,
arrastada aos trambolhões cegos.
Naquela angustiosa situação, Birch se
encontrava agora impotente para atravessar a
clarabóia já alargada, mas resolveu reunir as energias para uma
tentativa desesperada. Tendo conseguido agarrar-se à beira da abertura pela
ponta dos dedos, dispunha-se a alcançar-se, pela força dos braços, quando notou uma estranha pressão como se
alguém o puxasse para baixo, pelos calcanhares. Então, pela primeira vez,
naquela noite, ele sentiu medo. Sim. Porque, embora se debatesse, esperneando
furiosamente o mais possível, não conseguiu sacudir fora a misteriosa garra que
lhe prendia os pés, em uma tração contínua. Dores horríveis, como de chagas
cruéis, percorriam-lhe a barriga da perna e, em seus espírito, dançava, num
vértice de horror supersticioso, a inequívoca realidade, a prova material; o
lascar das tábuas, os pregos arrancados e todos os demais ruídos característicos da madeira que se parte. Não era,
portanto, uma ilusão dos sentidos, um fenômeno alucinatório gerado pelas
circunstâncias. Pô-se a lutar, dando de pernas, em contorções ainda mais
frenéticas, até passar a um estado de semidesmaio, em que os seus desvairados
movimentos continuaram, ao acaso, automáticos. De repente, sem saber como,
viu-se livre, já com o corpo metido na clarabóia.
Somente o instinto o guiou, no trágico
caminho sinuoso através da abertura e ao rastejar que seguiu o baque surdo da
sua queda, no exterior, sobre o chão úmido. Birch não podia caminhar e a lua
nascente deve ter testemunhado a horrível cena daquele homem delirante,
arrastando os tornozelos em sangue, na direção do pequeno pavilhão do
cemitério, os dedos espasmódicos enterrando-se na relva enegrecida, em pressa
febril, o corpo, porém, respondendo com a clássica lentidão desesperante de que
procura fugir dos fantasmas, nos pesadelos. Evidentemente, ali não havia
perseguidor algum, pois que Birch estava só e acordado, quando Armington, o
guarda da necrópole, atendeu a seu fraco batido à porta.
O guarda levou-o para uma cama de reserva e
mando o filho, Edwin, chamar o Dr. Davis. O pobre empreiteiro de enterros se
achava em perfeito estado de conhecimento, mas nada dizia sobre o acontecimento, murmurando apenas raras
palavras como: “Ai! Meus tornozelos! Largue-me!... Fechado na catacumba...”.
Pouco depois, chegou o médico com a sua maleta de remédios, fez perguntas
insistentes ao ferido e removeu-lhe as roupas de cima, os sapatos e as meias.
As feridas (ambos os artelhos se apresentavam horrivelmente dilacerados sobre o
tendão de Aquiles) intrigaram grandemente o velho doutor e, a seguir, quase o
aterrorizaram. O interrogatório, com efeito, ultrapassou o terreno médico e as
mãos do esculápio tremiam visivelmente ao contribuírem os retalhados membros de
espessas ataduras, como se ele quisesse, sobretudo, ocultar aquelas chagas, o
mais depressa possível.
Realmente, as perguntas angustiosas e
solenes do Dr. Davis tornavam-se mais do que estranháveis, pois deixavam bem
patente a intenção de arrancar do infeliz coveiro até o mais insignificante detalhe
da sua pavorosa aventura, o que era inadmissível em médico. Davis mostrava-
se singularmente ansioso pos saber se Birch tinha a certeza absoluta de quem
era o caixão que servia de
plataforma, de como ele o identificara em plena escuridão e finalmente, por que
maneira o distinguira da duplicata de qualidade inferior, mais tarde ocupada
pelo corpo do mal-afamado Asaph
Sawyer. Em suma, por que artes o sólido ataúde de Fenner cedera assim tão
facilmente? O profissional, antigo médico da aldeia, assistira, naturalmente,
aos funerais de ambos, como também os havia atendido nas suas derradeiras
enfermidades. Até mesmo no enterro de Sawyer, muito se admirara de como se
arranjara o vingativo fazendeiro defunto para acomodar os longos ossos em tão diminuto caixão, feito sob as medidas
do pequeno Fenner.
Após duas longas horas, o Dr. Davis partiu,
insistindo com o paciente para convencer-se de que as suas feridas só poderiam
ter sido causadas por pregos de pontas soltas estilhaços agudos de madeira.
Nada mais explicaria o acontecido, com lógica e verossimilhança, acrescentou.
Sobretudo, recomendou-lhe ainda falar o menos possível sobre o caso e, em
nenhuma hipótese, permitisse que ouro médico lhe tratasse aqueles ferimentos.
Birch seguiu esses conselhos o resto da sua vida, até que um dia, me contou a
sua história. Depois de examinar-lhe as cicatrizes já velhas e esbranquiçadas, achei
que ele fizera
muito bem em manter-se discreto. Do acidente, o pobre homem saira aleijado, pois fora cortado o tendão principal, mas, para mim, a sua
maior invelidez operou-se- lhe na própria alma. De temperamento outrora tão
fleumático, o seu raciocínio guardou, depois do fato, transtornos imperecíveis
e comovia observar-se-lhe as reações e certas alusões causais, como
“sexta-feira, catacumba, caixão” e outras palavras menos diretamente
significativas. O seu cavalo assustado, regressara a casa, nas a razão do pobre
homem nunca mais retornou ao lugar devido. Ele trocou a profissão, mas, para sempre,
algo lhe ficou, penando-o. Talvez fosse apenas o medo, ou o medo envolto em
espécie estranha de implacável remorso pelas más ações do seu passado. Ademais, a bebida só veio agravar o que
ele tencionava aliviar com a embriaguez.
O Dr. Davis, ao deixá-lo,
naquela noite, pegara uma lanterna e se dirigira à catacumba. A luz
iluminava vagamente os destroços dos tijolos espalhados, a fachada esburacada e
o velho cipreste, de cujo tronco ainda pendia o segmento do cabresto
arrebentado pelo equino, em pânico. O trinco
da pesada porta de ferro abriu-se à primeira pressão da maçaneta
exterior. Endurecido pela antiga prática das autópsias, o médico
entrou e correu o olhar em torno, contendo a náusea física e moral que o mau
cheiro e tudo mais ali provocavam. De repente, deixou escapar um grito e, logo
depois, teve um extremeção que lhe pareceu mais terrível do que um berro de
dor. E correu desabaladamente para o pavilhão do cemitério, onde, contra todas
as regras da compostura, agarrou o doente pelas roupas, levantando-o, com
força, atirou-lhe uma série de cochichos frenéticos que entraram pelos ouvidos
do ferido, fervilhantes como vitríolo.
— O caixão era de Asaph, Birch – sibilou-lhe
o doutor, justamente como eu pensava. – Reconheci-lhe o cadáver pela dentadura
a que faltavam incisivos superiores. Pelo amor de Deus, jamais mostre os seus
ferimentos a quem for! O corpo estava completamente putrefeito, mas, ainda
assim, nunca vi expressão tão nítida de vingança satisfeita como a das suas
feições já enegrecidas. Nunca, juro-o, em toda a minha vida! Bem sabe o demônio
tenaz que era ele para vingar-se. Ainda deve estar lembrado de como arruinou o
velho Raymond, trinta anos depois da demanda de terras entre ambos e como
matou, a pisadas, o cãozinho inofensivo que o perseguira, latindo, fez um ano
em agosto... Era o diabo em figura de gente e penso que a sua teoria de olho
por olho e dente por dente tinha tanta ferocidade que resistiu à própria morte.
O seu ódio... meu Deus!... eu não o quisera,
jamais, sobre mim!
Então, por que você o foi provocar, Birch?
Por ter sido um sujeito miserável, não te censuro ter-lhe dado um caixão
refugado. Mas sempre exageras as coisas! Há limites que se devem respeitar, a todo preço, e conhecias muito
bem o tamanho do velhinho Fenner!
Nunca mais se me apagará
da memória, enquanto
vivo for, o quadro que então presenciei. O caixão de Asaph estava por terra, atirado longe. A sua cabeça
esfacelada e tudo mais, dentro, resolvido. Já muita coisa neste mundo, mas uma,
doravante, ficará insuperável! Olho por olho! Francamente, Birch
teve o que merecia. O crânio esmigalhado de Asaph embrulhou-me o estômago, mas a
outra extremidade do corpo fez-me pior. Aqueles tornozelos cortados rentes para
que o defunto coubesse no caixão feito para Matt Fenner!
[1925]
(In: sitelovecraft.com, a
partir de texto publicado originalmente em 1979 na revista Spektro nº 9. Título
original: “In the vault”. Trad. desconhecida)