Tuesday, January 24, 2012

Crônicas de verão I - Essa cerveja é minha!

Praia lotada, o vermelho das barracas e cadeiras ajudando a esquentar um sol de 38 graus nas areias escaldantes. Nessas horas, não se pode ler um jornal em paz, tirando o gosto das notícias alarmantes com uma cervejinha bem gelada, que ele infalivelmente surge, implacável, à sua frente: o catador de latinha, com seu indefectível saco cheio de latas de alumínio. Parece enxergar a latinha de longe – talvez o brilho dela, talvez o cheiro, o fato é que ele vem para ficar. Não arreda pé enquanto você não entrega a ele o precioso objeto. Por sua vez, você se certifica bem se a latinha está mesmo vazia, enxuga a última gota e, não sem um quê de contrariedade, libera-a para ele, que, a passos rápidos, vai em busca de outra presa.
Neste verão tem chovido bastante, como, aliás, vem acontecendo, independentemente da estação. Segundo alguns, culpa do controverso “aquecimento global”. De qualquer modo, é preciso aproveitar qualquer brecha de sol na cortina de água que São Pedro resolveu cerrar sobre a cidade. Mas, naquele dia, o disco solar imperando no céu não deixava dúvidas: ia dar praia.
O helicóptero dos bombeiros passa em voo rasante e barulhento, bem junto à água, desalojando os banhistas do seu sagrado conforto. Alguém se afoga, num mar exuberante como aquele. A plaquinha com o aviso “Perigo: correnteza” torna-se inútil, absurda, obsoleta, gerando certo sentimento de impotência que parece refletir-se nas escamas prateadas da água. À noite, o sombrio noticiário na tevê: “um homem se afogou hoje no mar de Copacabana. Os bombeiros conseguiram retirá-lo da água, mas ele chegou já sem vida ao hospital”. O corpo do homem, só de calção de banho, ficará no IML até que alguém o reclame? Turista? Brasileiro? Gringo? Não é doce morrer no mar.
“Enxuguei” a latinha, entreguei-a ao homem das latas e fui “molhar os pés”, com toda cautela possível, depois da passagem do helicóptero de salvamento. Água gelada, onda fortíssima. A plaquinha não mentia. Nem o som das hélices do helicóptero, vermelho como as barracas, que ainda repercutia no quebra-mar. E me vêm à mente a crônica belíssima de Rubem Braga, O Afogado, e a abertura do romance Barco a seco, de Rubens Figueiredo, boas páginas da nossa literatura que tratam de quase-afogamentos no mar. “Ele prefere ser lançado contra as pedras, ainda que se arrebente todo”. Mas por aqui não há pedras, constato. “Existe um limite para tudo”. Exceto para a imprudência, replico comigo mesma.
Esperei algumas ondas quebrarem para retornar à barraca, onde o jornal com as notícias alarmantes e uma ou outra crônica amena me esperava. A latinha também me aguardava, encostada ao pau da barraca, curtindo uma sombra fresquinha. Antes de mergulhar no jornal, desconfiei de que a cerveja ainda estivesse gelada. Aliás, desconfiei mesmo de que houvesse alguma cerveja naquela lata. Peguei-a. Sim, estava pesadinha, mas, pelo tempo em que estive na beira da água, a cerveja devia ter virado um caldo quente. Pelo sim, pelo não, provei. Geladíssima. Virei todo o conteúdo de um gole só.
Praia dá mesmo muita sede. Debaixo da barraca, a salvo do sol e do mar, saboreando minha cerveja gelada, constatei que as ondas, ironicamente, haviam se acalmado. Os curiosos, antes aglomerados à beira-mar, assistindo ao espetáculo de salvamento, já haviam se dispersado. O mar, pacífico, era agora uma imensa fita azul-royal ligando gentilmente entre si os continentes, as línguas, os costumes. Por mais diversos que estes sejam.
Do nada, ele apareceu, reclamando a latinha, cheio de razões que a minha razão desconhecia. Segurei firme o alumínio. “Que desaforo”, pensei. E em voz alta: “moço, a latinha ainda não está vazia. Calma aí”. E ele: “cadê a cerveja?”. “Já disse, a lata ainda está cheia”. “Não está cheia, não”, retrucou, “estava pela metade. Quero a minha cerveja”. E a ficha começando a cair: “Cerveja? Sua cerveja?”. “Sim”, continuou o homem, “essa cerveja é minha. Pedi para deixar aí enquanto dava um mergulho”.
Olhei para meu filho, que a essa altura, assistia à discussão impassível, sentado na cadeira vermelha, exibindo apenas um leve sorriso no canto da boca. O garoto esclareceu: “É, mãe, essa cerveja é dele mesmo. Quando você estava na água, ele me pediu para guardar a latinha debaixo da barraca”.
Sorriso amarelo, sem saber que fizesse: “É mesmo?!”. E para o garoto, que calmamente passava filtro solar: “bom saber. Assim, não deixo você tomando conta da minha cerveja”.

Tuesday, November 29, 2011

Série minirresenhas VII – O Pequeno Príncipe

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Trad. Dom Marcos Barbosa. Prefácios de Amélia Lacombe, Micheal Quesnel e Anne Solange Noble. Rio de Janeiro: Agir, 2004, 125 p.

Não pretendo recontar aqui a conhecida história do principezinho que desembarca no sétimo planeta de suas aventuras, a Terra, para dar a nós, “terráqueos”, lições de amor, tolerância e sabedoria, e que os estudiosos consideram ser fruto dos trágicos tempos da guerra suscitada pelo nazismo. Gostaria apenas de chamar a atenção para o caráter cético deste belo livro, escrito por Antoine de Saint-Exupéry e publicado em abril de 1943, há pouco mais de um ano antes de ele morrer – ou melhor, desaparecer misteriosamente, uma vez que apenas os destroços do avião foram encontrados – em sua última missão como piloto de guerra, em julho de 1944. Embora frases como “o essencial é invisível aos olhos” e “o que torna belo o deserto é que ele esconde um poço em algum lugar” possam apresentar um viés essencialista, herdeiro da tradição platônica – que afirma que o mundo essencial (e invisível) das ideias é o mundo perfeito da Verdade, ao qual se opõe o mundo das meras aparências enganosas –, é possível vislumbrar na obra-prima do piloto francês alguns aspectos do ceticismo criado por Pirro no século III a. C.
À moda pirrônica, O Pequeno Príncipe “coloca em suspenso” o “mundo dos adultos” para oferecer uma “outra” visão: a visão desarmada e sem “conceitos preconcebidos” de uma criança, que não precisa ser, necessariamente, uma visão infantilizada. Basta ser o ponto de vista de quem respeita as diferenças ou de quem tem a capacidade de “outrar-se” – velha proposta cética, retomada por poetas como Fernando Pessoa, e que Saint-Exupéry exemplifica bem nas páginas d’O Pequeno Príncipe, entre um texto intensamente poético e as delicadas aquarelas, feitas pelo próprio escritor. E quem melhor que o autor para dar aos seus leitores uma ideia suficientemente precisa do menino louro com sua echarpe esvoaçante, dos terríveis baobás ou da cara feia do “homem de negócios” do quarto planeta visitado pelo principezinho?

A pintura, considerada por Platão como uma “obra enganosa”, “afastada em três graus da Verdade”, foi condenada pelo filósofo, assim como a poesia e a retórica, como “mera imitação do real”. No livro de Saint-Exupéry, as “gravuras enganosas” possuem, ao contrário, imensa importância. Não tentam apenas “copiar o real”, mas também acrescentar a livre imaginação sobre ele, como o carneiro que o piloto da história desenha para o principezinho. Desconhecido para eles e para nós, o carneiro, contudo, existe, ainda que apenas dentro da caixa desenhada – única coisa que informa sobre ele.
A certa altura, eis que surge a raposa: “Por favor, cativa-me” (p. 99), pede ela para o menino. E porque não possui um “pré-conceito” sobre raposas, o menino diz simplesmente: “Você é bem bonita”. Contrariando a imagem, talvez pré-fabricada por homens “que têm fuzis e caçam” (p. 97), de um ser abominável, esperto e trapaceiro, que só pensa em “caçar galinhas”, a raposa d’O Pequeno Príncipe parece sugerir que, se as aparências enganam, só dispomos delas para nos orientar – outro preceito cético, utilizado, ainda, para construir uma importante personagem da história, senão a mais importante, pelo menos para o menino, que, graças a ela, soube o que é sofrer por amor. Tão igual a todas as rosas do mundo e ao mesmo tempo tão específica em sua comovente arrogância, a rosa do pequeno príncipe – que se defende dos perigos do mundo com seus ingênuos quatro espinhos – parece lembrar-nos, ceticamente, de que não devemos somente “enxergar para além das aparências”. Ao contrário, devemos levar em conta precisamente as aparências (as cinco mil rosas num só jardim) e suas limitações, que levam à necessidade dos espinhos, das redomas e também da mordaça – que o menino pede ao piloto para desenhar a fim de impedir que o carneiro, que ele leva igualmente “desenhado” na bagagem, devore a sua preciosa flor, quando ele retornar ao seu planeta. Pois somente assim poderemos, como o piloto da história, nos “consolar um pouco” (p. 121), apesar da dúvida que infinitamente persistirá: “se num lugar, que não sabemos onde, um carneiro, que não conhecemos, comeu ou não uma rosa...” (p. 123).

Tuesday, November 08, 2011

Um elefante numa loja de porcelanas

Isabel Pires

De pedra-sabão, tinha uns quinze centímetros de altura por uns vinte de comprimento. Pesado, parecia mais uma arma que um bibelô. Por curiosidade, ela perguntou o peso. “Tudo isso?”. Espantada, mudou-o de mão. Perguntou o preço. Nem caro, nem barato. Recolocou-o no lugar, entre corujas e cisnes também de pedra-sabão. A vendedora ficou apreensiva.
— Não vai levar o elefantinho?
— Ainda não me decidi – mentiu.
Os olhos do elefante, esculpidos na pedra, fixavam-na. Ela disfarçou o quanto pôde, e, de um bote, atirou-se para fora da pequena loja. No entanto, precisava daquele bibelô. Em casa, reservava lugar para ele, na estante, entre outros bibelôs. Dia seguinte, retornou à loja. Foi direto aos artesanatos de pedra-sabão. Empalideceu, estacando diante de corujas que a olhavam de esguelha.
— Já escolheu? – quis saber a moça ao seu lado, perseguidora.
— O elefantinho que estava aqui ontem?... Foi vendido? – ela apontava para um vago lugar, entre dois cisnes.
A vendedora abriu um sorriso claro e asseado.
— Um momento – pediu. Voltou com o pesado objeto, depositando-o com cuidado nas mãos dela. – Alguém o havia reservado. Mas como você está mesmo interessada...
Ela virava e revirava o elefantinho em suas mãos, com medo e alegria. “É ele”, pensou. Súbito, seus olhos esbarraram numa das patas dianteiras do bibelô. Mostrou-a para a vendedora.
— Está quebrada!...
A pequenina perna de pedra-sabão, sólida e frágil. Quebrada. O sorriso claro e asseado da vendedora voltou a iluminar a pequena loja.
— Não! Veja, não está quebrada. É que, com certeza, o bloco de pedra usado para esculpir o elefantinho não era do tamanho exato, e foi preciso completar a perninha com um pedaço. Isso acontece demais. Mas não é defeito, de jeito nenhum – finalizou, devolvendo a ela o objeto.

Embora colada com perfeição ao corpo do elefante, a perna evidentemente não fazia parte dele. Fraquejando mais uma vez, porém resoluta, ela depositou o elefantinho na prateleira, agarrando firme um cisne de pescoço longo, desajeitado e triste.
— Ah! Vai ficar com o cisne... Também é lindo! – A vendedora, ainda sorrindo, pegou um pequeno bloco de papel e tirou a nota. – Quer pagar no caixa, por favor? Obrigada.
Por trás do balcão, a dona da loja fazia os embrulhos, simples e para presente.
— Só? – perguntou, embrulhando o cisne para presente.
— Eu queria o elefantinho, mas está com a perna quebrada...
Simples, a mulher detrás do balcão falou:
— É, isso acontece. É o transporte, sabe. Esse artesanato vem de longe. Às vezes, aqui mesmo, na loja, um ou outro acaba se partindo. Tem sempre algum freguês desajeitado, que deixa cair alguma coisa. Que pena! – lamentou, abanando a cabeça.
Ela tomou finalmente o embrulho nas mãos. Pesava um pouco, embora não fosse o elefantinho. Calma e vagarosamente, saiu da loja, deixando para trás, sem piedade, o pequeno elefante de pedra-sabão.

Friday, November 04, 2011

Série "entre aspas" V - Nietzsche

"Somente o jogo do artista e da criança englobam, neste mundo, um devir e um perecer, um construir e um destruir sem qualquer imputação moral, com uma inocência eternamente intacta. E é assim, como a criança e o artista, que o fogo eternamente vivo brinca, construindo e destruindo com inocência; tal jogo é o Aion que o joga consigo mesmo. Transformando-se em água e terra, ele constroi, como uma criança, montinhos de areia na praia, ergue-os e os destroi; de vez em quando, recomeça a mesma brincadeira. Um instante de saciedade, e, logo depois, a necessidade de novo o assalta, assim como a necessidade força o artista a criar. Não é portanto o orgulho ímpio mas o instinto de jogo (Spieltrieb) incessantemente despertado que chama para a vida outros mundos". (Nietzsche, em A filosofia na época trágica dos deuses).

[Citado por Maria Cristina Franco Ferraz, Platão, as artimanhas do fingimento. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999, p. 26-7. (Tradução do alemão para o português da autora)]

Friday, October 28, 2011

A paixão segundo Rose ou a arte de ver do alto as ruas do Rio de Janeiro

Isabel Pires


Quando finalmente abriu, com alguma dificuldade, por causa do braço dolorido, a persiana meio empoeirada do pequeno escritório, ele percebeu um tanto agastado que perdera muito tempo aquele dia com o trabalho, embora soubesse que pouca coisa de fato tivesse produzido, limitando-se a revisar o texto já bastante revisado. No céu de verão, os últimos raios de sol se esbatiam contra fiapos de nuvens douradas, dispersas pelo azul como cabelos revoltos de um anjo desleixado.
Suspensa por trás do vidro hermeticamente fechado, a cidade parecia de papel. Um imenso cartão-postal feito de suor, sangue, areia e pedra. Montanha e praia produzindo um calor de mil diabos. O ar condicionado, porém, acalmava o medo e a solidão que passeavam nas ruas apinhadas de gente lá embaixo.
Bruscamente, ele deixou a janela. Atirou-se à poltrona reservada às poucas visitas, a olhar vazio para as prateleiras cobertas de livros e revistas especializadas. Muitos desses livros e revistas continham os artigos que escrevera, debruçando-se infinitamente sobre outros livros e revistas, fabricando eternos palimpsestos, preso em um círculo vicioso, gastando enormes pedaços de um tempo que agora ele não podia mais dispor. Projetos pessoais adiados, desejos eternamente insatisfeitos em troca do seu nome impresso ou de um convite para alguma palestra. Pressentiu assim sua vida: uma tela com grandes claros, inacabada. Sempre por retocar. Uma infinidade de simpósios, palestras, seminários. Saguões de aeroportos e noites mal dormidas. O estresse das comissárias de bordo contido todo naquela rede que segura, corretamente penteados, os cabelos: “O senhor? Vai beber o quê?”.
Mais adiante, seu olhar esbarrou no arranjo de flores desidratado e brega, herança do antigo ocupante da sala, pendurado próximo à janela. Já perdera a conta das vezes que pedira à moça da limpeza para tirar aquilo de lá, mas, por trás daquele largo sorriso de dentes muito alvos, Rose – era o nome dela – parecia não escutá-lo.
Consultando o relógio de pulso, ele constatou que a sessão de radioterapia daquele dia estava perdida. Deu de ombros, com a mão espalmada no bolso da camisa, no gesto de pegar os cigarros. Lembrou, porém, que desde que o médico lhe diagnosticara o câncer de próstata, que também o aconselhara a parar de fumar. Começara com uma dor discreta nas costas, na altura dos rins, que ele ia adiando dia a dia para “ver depois”. Até que o incômodo estendera-se para os ombros, limitando drasticamente as suas atividades.
A porta abriu-se de repente. Era Rose, armada de vassoura e pá. “Dá licença, doutor?”. Rose esfregava a flanela encharcada de óleo de lustrar móveis na mesa já quase sem verniz, nas prateleiras descarnadas, e ia puxando conversa. Bastava ele perguntar “tudo bem, Rose?”, que um botão automático, do tipo “aperte o play”, disparava uma metralhadora falante. Outras vezes, porém, ela se fechava em copas, apesar do sorriso claro sempre aberto, e o play simplesmente não funcionava.
Enquanto Rose ainda recolhia o lixo, ele, um pouco agastado com o cheiro do óleo de peroba, dirigiu-se à mesa de trabalho, retirando de dentro da velha pasta de couro preto as laudas do artigo, presas por um clipe. De testa franzida, passeou por instantes os olhos pelo trabalho impresso, sentindo necessidade de revisá-lo mais uma vez. Por fim, juntou novamente as laudas e devolveu-as à pasta, inúteis. Ligou o computador. Iria revisar o trabalho na tela mesmo, decidira.
Moro em Costa Barros, ela disse logo no primeiro dia, como se dissesse moro ali na esquina. Rose tinha dois filhos: uma menina de sete anos e um menino de quatro. Seu atual marido não era o pai das crianças. Este, Rose perdera, grávida de oito meses. “Maior barrigão”. Estavam quase chegando em casa, ela, o marido e a menina. O assassino vinha em direção contrária. “Um tiro só, doutor”. O menino nasceu sem pai.
Preso por durex na parede atrás da mesa dele, o “mapa do Rio de Janeiro” apresentava uma cidade perfeitamente ordeira, apesar do seu desenho irregular. Uma cidade de papel, onde as sirenes da polícia, das ambulâncias e dos bombeiros não eram, em absoluto, necessárias. Sorte grande viver na Cidade Maravilhosa sem um arranhão.
Vista do alto, a cidade parecia caber na palma da mão, como o mapa dela, preso por durex na parede, cabia inteiro num só olhar. Do alto, encerrado naquela torre de vidro gelada, ele via a cidade como se não tivesse nada a ver com aquelas ruas e avenidas e artérias invadidas de sangue, suor, lágrimas, sorrisos, desespero e alegrias: um cidadão de gabinete. Exceto, talvez, quando saía de casa para trabalhar, atravessando as ruas dentro do carro fechado e refrigerado. De dentro do carro, o rés do chão da Cidade Maravilhosa parecia um tanto cinzento, com seus prédios de concreto e vidro fumê e seus tapetes de asfalto, cortados aqui e ali por algum inesperado canteiro verde, um outdoor colorido, uma copa de árvore retorcida à beira do rio de carros. A massa compacta de gente, essa sim, bem colorida e diversificada contra o fundo quase neutro, atravessando as avenidas como soldados enfileirados.
Relanceou o olhar pela janela e percebeu, com uma raiva impotente de injustiçado, que o ocaso lá fora era passageiro, se renovando sempre, enquanto o seu se tornava cada vez mais irremediável e definitivo. Olhou para Rose: ela falava algo sobre a inveja das vizinhas, o marido carinhoso que ela tinha, e que esse, não, esse ninguém ia lhe tirar. Trabalhador, pai de família, responsável. A metralhadora falante novamente disparada, enquanto, lá fora, o ocaso...
“O ocaso do Império”, de Oliveira Viana. Ele debruçara-se pacientemente sobre a obra, escrita em 1925 sobre o fim do Império no Brasil. No artigo, procurava demonstrar – e, sobretudo, convencer a si mesmo – que, muitas vezes, o olhar do historiador se impregna de um subjetivismo tal que se aproxima da pintura, mais especificamente do impressionismo. Era o caso, a seu ver, de “O ocaso do Império”, em que o quadro da ascensão da República no Brasil era considerado pelo autor de um ponto de vista essencialmente nostálgico, elegendo a queda da monarquia – e não o estabelecimento do novo regime – como centro de análise. Ele sabia que o tema era um tanto gasto, mas o que podia fazer, se suas melhores ideias o haviam abandonado? E ainda por cima precisava arranjar um título para o trabalho.
“O ocaso do Império: uma visão impressionista da História do Brasil”, repetiu em voz alta. “O que disse?”. Era Rose, tentando estabelecer contato. Mas ele estava longe, não a escutava mais. Decidiu: era esse o título. Teclou as palavras no alto da página virtual à sua frente, quase apaziguado consigo mesmo. Retirou por instantes os olhos da tela fosforescente do computador, buscando mais uma vez a janela, mas esbarrou novamente o olhar no arranjo brega que já o tirava do sério há algum tempo.
“Rose”, ele ia falar, mas era sexta-feira. Toda sexta-feira, ele sabia, Rose largava o serviço mais cedo, por causa do pagode, “que disso eu não abro mão”. Rose na soleira da porta, prestes a atravessá-la, levando consigo a vassoura, o espanador, o saco de lixo e a pá. “Rose”, tentou ele, “tira, por favor, esse arranjo...”. Ela nem sequer se virou. “Segunda-feira, de manhã cedo, eu tiro”, ela disse, e se foi.

Friday, October 21, 2011

Raquel, depois que Ricardo foi embora1

Isabel Pires

O zumbido era ensurdecedor, rodopiando dentro de suas têmporas. Aos poucos, foi abrindo os olhos, e se deparou com aquela escuridão gelada e constante, rompida por um tênue fio de luz que penetrava pela rachadura da porta, lá em cima. Manhã? Tarde? Não saberia dizer. Tentou consultar o delicado relógio de pulso folheado a ouro, e ficou na mesma. Com toda aquela claridade, os ponteiros se confundiam, ficavam do mesmo tamanho e se embaralhavam, marcando horas fantasmagóricas. Para quê, afinal, precisava saber das horas?, refletia, consciente da sua condição de enterrada-viva. Mas não queria pensar. Sua cabeça doía, latejando uma dor lancinante, e isso era tudo. A garganta também doía, dilacerada, brasa viva dentro do seu corpo.
— Miserável! – o som rouco e quase inaudível de sua voz parecia rolar sem forças pelo ar rarefeito, ecoando tropegamente pelas partículas de poeira que infestavam o cubículo.
— Ele me paga! – me paaaaga, meeeee pagaaaaa – o som parecia se esbater pelos cantos e retornar, esfarrapado, espectro de si mesmo, assustando-a mais.
Vasculhou mais uma vez a bolsa, à procura do celular, em vão. Evidentemente, ele o havia retirado de lá, num momento de distração. Falha imperdoável. Como fora deixar se impressionar por velhos túmulos rachados e anjos de pedra decapitados? Que vacilo. Sem dúvida, fora imprudente ao extremo. Não podia se perdoar. Mordia os lábios, desesperadamente, constatando a sua demência. Sim, fora completamente idiota. Então não sabia que não podia confiar nele? Seu estômago também doía terrivelmente. Fumara todos os cigarros que haviam restado. E agora?
Deixou a cabeça pender, recostada à parede fria, os braços inermes ao comprido do corpo. Por um momento, sentiu-se, de fato, morta, e imaginava-se cinzenta e imóvel, dura e fria, perfeitamente integrada ao quadrilátero mortífero, envolvida pelos miasmas fétidos que se desprendiam vagarosamente da pedra das gavetas dos mortos em desintegração. Também ela desintegrando-se lentamente. Mas a dor espalhada pelo corpo pulsava quente, inquieta, anunciando-lhe misteriosamente que ainda vivia.
Ouviu um ruído repentino, longínquo. Ficou atenta.
— Ricardo? – ousou pronunciar o nome dele, um jato quente subitamente bombeando um sangue renovado em suas veias. Elas pulsavam, parecendo querer saltar. Sim, estava viva.
Aos poucos, conseguiu identificar o ruído: pareciam fracos pingos de chuva, tamborilando longe, em algum lugar lá fora. Fechou os olhos, apurando bem o ouvido. Porém, mais que o barulho fraco da chuva, que chegava dilacerado lá de fora, o cheiro vivo de terra molhada penetrava ardente e forte em suas narinas, poderoso, invadindo-a toda. Sim, estava viva.
Ela riu, histérica, uma risada descompassada e idiota, risada de quem já havia ultrapassado, de há muito, o precipício do desespero. Não, estava morta. E visualizou seu próprio esqueleto, metido em restos esfarrapados da roupa que um dia fora elegante, sufocado junto com os restos da pequena capela pela fúria violenta da vida, as plantas se enroscando pelas paredes externas, disputando espaço, abafando as cores esmaecidas da morte com seu verde de vida. Via com terror um tufo de cabelos displicentemente caído ao lado do crânio a descoberto e, ridiculamente, o relógio de ouro, circundando com folga o pulso de osso. Ainda marcaria, implacavelmente, as horas?
Não, não estava morta, parecia ouvir dentro de si. Seu coração batendo angustiado dentro do peito, descompassado embora, mas vivo. Esmurrou com força as paredes, apenas para aquecer o sangue congelado nas veias, a pele fina mal recobrindo o sentimento de revolta em seus pulsos cerrados. Também eles doíam agora. Isso era, de algum modo, bom. Pela dor, podia sentir que ainda existia. Sentia que devia agarrar-se a este fio de esperança, ainda que fosse simplesmente para morrer no instante seguinte. Morta-viva, viva e morta, apenas isso.



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[1] Uma continuação do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles.

Tuesday, September 06, 2011

Tijucano

Ninguém sabe
se foi por causa dos gatos
que os pombos foram embora
ou se pela falta da maresia

O Dr. Hans costumava alimentá-los
com miolo de pão e milho
mas o Dr. Hans também se foi
ninguém sabe
se antes ou depois dos pombos
o certo
é que levou consigo
lembranças de outro além-mar
que não o das cruzes de Malta
estendidas nas janelas
em domingos de Maraca,
chope e pizzaria

Os pombos talvez não aprovassem
a falsa maresia
que a baía da Guanabara
sopra por sobre tudo
- vilas, praças, prédios,
as ruas, as raras avenidas,
o Borel, as igrejas, o América -
esbatendo-se no Maciço
arrepiando Joana em seu leito obscuro
derrubando quadros
batendo portas
árvores desmemoriadas pela ventania

Agora os pardais – os pequenos pardais –
somente eles
estragam as pinturas dos carros
estacionados ao longo das vias

(Mas isto não é um privilégio tijucano)