Tuesday, May 15, 2012

Um agregado

(Capítulo de um livro inédito)

Machado de Assis

[Este post é um mimo para os "machadianos" de plantão, que muitas vezes, em seu trabalho de pesquisa, suam a camisa, buscando um texto do mestre que ainda não esteja digitalizado. Este texto, precursor do romance Dom Casmurro, ainda não podia ser encontrado no mundo virtual. Até agora...]

Naquele ano de 1855, por uma tarde de Dezembro, indo eu a entrar na saleta onde a minha família costumava passar a sesta, ouvi o meu nome e parei.

— Senhora D. Maria da Glória, V. Ex. persiste em meter o nosso Bentinho no seminário? perguntou o nosso agregado José Dias.

— De certo. Por quê?

— Pode haver uma dificuldade.

— Que dificuldade?

Espiei pela fresta da porta. Minha mãe despegou o corpo da cadeira, e aguardou a resposta. As outras pessoas que estavam na saleta eram meu tio, o coronel Cosme, irmão de minha mãe, e uma prima, D. Justina, que ali vivia de favor. A casa era na rua do Rezende, um grande prédio de sete janelas, vasto saguão, extensa chácara ao fundo. Era mui bem pintada e algumas salas a fresco, – alguns tetos lavrados. Meu pai, fazendeiro e deputado, já havia trocado a residência de Cantagalo pela do Rio de Janeiro, quando veio a falecer. Minha mãe, depois de viúva, só duas vezes tornou à fazenda; preferia ficar naquela casa, onde as lembranças do marido não eram menores e eram recentes, – perto da igreja onde ele fora enterrado, e cuidando de educar o seu único filho.

Tinha quarenta e dois anos minha mãe. Teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que a natureza quisesse preservá-los da ação do tempo. Vivia metida em um eterno vestido escuro, sem adornos, xale dobrado em triângulo e afrouxado ao pescoço por um velho camafeu. Os cabelos, em bandós, andavam apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga. Às vezes, trazia touca. Lidava assim, com os sapatos de cordovão, rasos e surdos, abaixo e acima, de um lado para outro, vendo e guiando o serviço dos fâmulos. Ia à missa, aos domingos, e a alguma visita rara e de obrigação. Guardava os vestidos de outro tempo, e as joias que nunca mais pôs, desde que enviuvou. A vida, como a casa, era assim monótona e soturna. Pelas festas de junho consentiam-me um oratório. Nas noites de festa nacional ou religiosa, nas três de S. Sebastião, mandava pendurar luminárias. Tudo o mais contrastava com a vida externa.

A vida externa era festiva, intensa e variada. Tinham acabado as revoluções políticas. Crescia o luxo, abundava o dinheiro, nasciam melhoramentos. Tudo bailes e teatros. Um cronista de 1853 (se não vos fiais em mim) dizia haver trezentos e sessenta e cinco bailes por ano. Outro de 1854 escreve que do princípio ao fim do ano toda a gente ia ao espetáculo. Salões particulares à porfia. Além deles, muitas sociedades coreográficas, com os seus títulos bucólicos ou mitológicos, a Campestre, a Sílfide, a Vestal, e outras muitas chamava a gente moça às danças, que eram todas peregrinas, algumas recentes. A alta classe tinha o Cassino Fluminense. Tal era o amor ao baile que os médicos organizaram uma associação particular deles, a que chamaram Cassino dos Médicos. Hoje, se dançam, dançam avulsos. A Ópera Italiana tinha desde muito os seus anais; no decênio anterior, mais de uma cantora entontecera a nossa população maviosa e entusiasta; agora desfilava uma série de artistas mais ou menos célebres, a Stoltz, o Tamberlick, o Mirate, a Charton, a La-Grua. O próprio teatro dramático mesclava nos seus espetáculos o canto e a dança, árias e duos, um passo a três, um passo a quatro, não raro um bailado inteiro. Já havia corridas de cavalos, um clube apenas, que chamava a flor da cidade. As corridas começavam às dez horas da manhã e findavam à uma da tarde. Ia-se a elas por elas mesmas. A Europa mandava para cá as suas modas, as suas artes, os seus clowns. Traquitanas e velhas seges cediam o passo ao coupé, e os cavalos do Cabo entravam como triunfadores. Modinhas e serenatas brasileiras iam de par com árias italianas. As festas eclesiásticas eram numerosas e esplêndidas; na igreja e na rua, a devoção geral e sincera, as romarias e patuscadas infinitas.

— Que dificuldade? repetia minha mãe.

Não pude ver o gesto do José Dias; mas naturalmente passou a mão pela cara desbarbada e cerrou um pouco os olhos; era o seu gesto sempre que tinha de dizer alguma coisa grave.

— Negócio delicado, replicou; entretanto...

— Entretanto...?

— Entretanto, o perigo é grande, e eu, como amigo desta casa, é natural que a defenda.

— Sim, mas que há?

— Minha senhora, vou direto ao assunto. Não me parece bonito que o nosso querido Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga; e esta é a dificuldade, porque se ele, – com perdão da palavra, – se eles pegam de namoro, v. ex. terá muito que lutar para separá-los, pode crê-lo, e não sei se o conseguirá.

— Não acho nada disso, respondeu minha mãe. Metidos nos cantos?

— É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Ele quase não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê.... Pudera! Quer naturalmente subir; casa rica, casa respeitável, onde é que ele achará genro igual, nem que de longe se aproxime? Compreendo o seu gesto, minha senhora, não se pode admitir que a ideia de semelhante enlace entre na cabeça de homem tão reles, tão ínfimo... Provoca, realmente, uma estrondosa gargalhada.

José Dias riu-se neste ponto, talvez um tanto forçado; logo depois concluiu:

— Não obstante, encontram-se ambições dessas.

— Mas, José Dias, disse minha mãe, tenho visto os pequenos brincarem, não acho nada que faça desconfiar. Basta a idade, ele tem quinze anos, ela mal passa dos treze. São dois criançolas. Não se esqueça que são companheiros de infância. Quando a família Fialho veio para essa casa ao pé, tive ocasião de lhe fazer um favor, e assim começaram as relações entre os pequenos. Pois eu hei de crer que se namorem? Você que diz, mano?

Tio Cosme respondeu com um — Ora! que, traduzido em vulgar, queria dizer: “São imaginações do José Dias. Ele anda sempre com a cabeça no ar. Os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?”

— Sim, acho que José Dias está enganado, concluiu minha mãe.

— Pode ser, minha senhora; mas não falei senão depois de muito examinar. V. Ex. e o digno Sr. coronel estão de boa fé. Conheço o pai da pequena; é um velhaco. A filha não é menos velhaca, apesar de desmiolada. Enfim, cumpro um dever amargo, um dever amaríssimo.

José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias, não as havendo, serviam a esticar as frases. Já o conheci agregado à nossa fazenda de Cantagalo, onde aparecera um dia, vendendo-se por médico homeopata; levava uma botica portátil e um manual de medicina. Curou uma escrava e o feitor, mas não aceitou a proposta que meu pai lhe fez de ficar ali com ordenado; agradeceu dizendo que era justo ir levar a saúde à casa de sapé do pobre.

— Mas quem lhe impede de ir? perguntou meu pai.

— Voltarei daqui a dois meses.

Voltou antes de duas semanas, aceitou casa e comida, sem outro estipêndio, salvo o que lhe dessem por festas. Não obstante, marcou-se-lhe um pequeno ordenado. Quando meu pai foi eleito deputado, José Dias veio com ele e a família e teve o seu quarto na nossa casa da rua do Rezende. Um dia, reinando febres em Cantagalo, disse-lhe meu pai que fosse acudir à escravatura. José Dias deixou-se estar calado, soltou um grande suspiro e confessou que não era médico. Usurpara esse título para ajudar a propaganda da nova escola, e não o fez sem estudar muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar mais curas. “Perdoe-me V. Ex. (concluiu) perdoe-me a mentira com que o enganei, e expulse-me desta casa tão nobre, tão honesta, onde tão indignamente iludi a confiança...” Não foi expulso, nem perdeu as graças da família. Além das maneiras obsequiosas, tinha uma infinidade de préstimos, recados, fazer contas, redigir e copiar cartas, aparar penas, parceiro ao solo e ao gamão, ledor de histórias e de jornais, contador de anedotas, autor e decifrador de charadas e logogrifos. A afeição que mostrou por ocasião da morte de meu pai ainda mais o prendeu ao coração de minha mãe, que não consentiu em despedi-lo, quando ele lhe foi pedir as suas ordens. Era já como pessoa da família. Cuidava de mim com extremos de mãe e atenções de servo.

— Seja o que for, vou metê-lo no seminário o quanto antes.

— Bem, uma vez que v. ex. não perdeu a ideia de o meter no seminário, tudo está salvo. Há de ser um sacerdote modelo; tem muito boa índole e a educação não pode ser melhor. Vai-se perdendo a raça dos bons padres; eu conheci alguns e ainda conheço. V. ex. não teve um caso notabilíssimo na sua própria família, monsenhor Camillo? Ouvi dizer que era grande teólogo. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre Feijó foi regente do império. A igreja brasileira tem altos destinos.

— Você o que quer é um capote, disse o tio Cosme. Ande, vá buscar o gamão.

José Dias caminhou para a porta com as suas calças brancas e engomadas, presilhas, rodaque e gravata da moda. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um aro de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço. Juntai a isso um passo vagaroso, não do vagar arrastado dos preguiçosos, mas daquele outro vagar solene, calculado, deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão, e tereis a pessoa do nosso agregado. Um dever amaríssimo!


(Publicado no jornal A República, em 15/11/1896)

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