Crônicas de verão I - Essa cerveja é minha!
Praia lotada, o vermelho das barracas e cadeiras ajudando a esquentar um sol de 38 graus nas areias escaldantes. Nessas horas, não se pode ler um jornal em paz, tirando o gosto das notícias alarmantes com uma cervejinha bem gelada, que ele infalivelmente surge, implacável, à sua frente: o catador de latinha, com seu indefectível saco cheio de latas de alumínio. Parece enxergar a latinha de longe – talvez o brilho dela, talvez o cheiro, o fato é que ele vem para ficar. Não arreda pé enquanto você não entrega a ele o precioso objeto. Por sua vez, você se certifica bem se a latinha está mesmo vazia, enxuga a última gota e, não sem um quê de contrariedade, libera-a para ele, que, a passos rápidos, vai em busca de outra presa.
Neste verão tem chovido bastante, como, aliás, vem acontecendo, independentemente da estação. Segundo alguns, culpa do controverso “aquecimento global”. De qualquer modo, é preciso aproveitar qualquer brecha de sol na cortina de água que São Pedro resolveu cerrar sobre a cidade. Mas, naquele dia, o disco solar imperando no céu não deixava dúvidas: ia dar praia.
O helicóptero dos bombeiros passa em voo rasante e barulhento, bem junto à água, desalojando os banhistas do seu sagrado conforto. Como pode alguém se afogar, num mar exuberante como aquele? A plaquinha com o aviso “Perigo: correnteza” torna-se inútil, absurda, obsoleta, gerando certo sentimento de impotência que parece refletir-se nas escamas prateadas da água. À noite, o sombrio noticiário na tevê: “um homem se afogou hoje no mar de Copacabana. Os bombeiros conseguiram retirá-lo da água, mas ele chegou já sem vida ao hospital”. O corpo do homem, só de calção de banho, ficará no IML até que alguém o reclame? Turista? Brasileiro? Gringo? Não é doce morrer no mar.
“Enxuguei” a latinha, entreguei-a ao homem das latas e fui “molhar os pés”, com toda cautela possível, depois da passagem do helicóptero de salvamento. Água gelada, onda fortíssima. A plaquinha não mentia. Nem o som das hélices do helicóptero, vermelho como as barracas, que ainda repercutia no quebra-mar. E me vêm à mente a crônica belíssima de Rubem Braga, O Afogado, e a abertura do romance Barco a seco, de Rubens Figueiredo, boas páginas da nossa literatura que tratam de quase-afogamentos no mar. “Ele prefere ser lançado contra as pedras, ainda que se arrebente todo”. Mas por aqui não há pedras, constato. “Existe um limite para tudo”. Exceto para a imprudência, replico comigo mesma.
Esperei algumas ondas quebrarem para retornar à barraca, onde o jornal com as notícias alarmantes e uma ou outra crônica amena me esperava. A latinha também me aguardava, encostada ao pau da barraca, curtindo uma sombra fresquinha. Antes de mergulhar no jornal, desconfiei de que a cerveja ainda estivesse gelada. Aliás, desconfiei mesmo de que houvesse alguma cerveja naquela lata. Peguei-a. Sim, estava pesadinha, mas, pelo tempo em que estive na beira da água, a cerveja devia ter virado um caldo quente. Pelo sim, pelo não, provei. Geladíssima. Virei todo o conteúdo de um gole só.
Praia dá mesmo muita sede. Debaixo da barraca, a salvo do sol e do mar, saboreando minha cerveja gelada, constatei que as ondas, ironicamente, haviam se acalmado. Os curiosos, antes aglomerados à beira-mar, assistindo ao espetáculo de salvamento, já haviam se dispersado. O mar, pacífico, era agora uma imensa fita azul-royal ligando gentilmente entre si os continentes, as línguas, os costumes. Por mais diversos que estes sejam.
Do nada, ele apareceu, reclamando a latinha, cheio de razões que a minha razão desconhecia. Segurei firme o alumínio. “Que desaforo”, pensei. E em voz alta: “moço, a latinha ainda não está vazia. Calma aí”. E ele: “cadê a cerveja?”. “Já disse, a lata ainda está cheia”. “Não está cheia, não”, retrucou, “estava pela metade. Quero a minha cerveja”. E a ficha começando a cair: “Cerveja? Sua cerveja?”. “Sim”, continuou o homem, “essa cerveja é minha. Pedi para deixar aí enquanto dava um mergulho”.
Olhei para meu filho, que a essa altura, assistia à discussão impassível, sentado na cadeira vermelha, exibindo apenas um leve sorriso no canto da boca. O garoto esclareceu: “É, mãe, essa cerveja é dele mesmo. Quando você estava na água, ele me pediu para guardar a latinha debaixo da barraca”.
Sorriso amarelo, sem saber que fizesse: “É mesmo?!”. E para o garoto, que calmamente passava filtro solar: “bom saber. Assim, não deixo você tomando conta da minha cerveja”.
Neste verão tem chovido bastante, como, aliás, vem acontecendo, independentemente da estação. Segundo alguns, culpa do controverso “aquecimento global”. De qualquer modo, é preciso aproveitar qualquer brecha de sol na cortina de água que São Pedro resolveu cerrar sobre a cidade. Mas, naquele dia, o disco solar imperando no céu não deixava dúvidas: ia dar praia.
O helicóptero dos bombeiros passa em voo rasante e barulhento, bem junto à água, desalojando os banhistas do seu sagrado conforto. Como pode alguém se afogar, num mar exuberante como aquele? A plaquinha com o aviso “Perigo: correnteza” torna-se inútil, absurda, obsoleta, gerando certo sentimento de impotência que parece refletir-se nas escamas prateadas da água. À noite, o sombrio noticiário na tevê: “um homem se afogou hoje no mar de Copacabana. Os bombeiros conseguiram retirá-lo da água, mas ele chegou já sem vida ao hospital”. O corpo do homem, só de calção de banho, ficará no IML até que alguém o reclame? Turista? Brasileiro? Gringo? Não é doce morrer no mar.
“Enxuguei” a latinha, entreguei-a ao homem das latas e fui “molhar os pés”, com toda cautela possível, depois da passagem do helicóptero de salvamento. Água gelada, onda fortíssima. A plaquinha não mentia. Nem o som das hélices do helicóptero, vermelho como as barracas, que ainda repercutia no quebra-mar. E me vêm à mente a crônica belíssima de Rubem Braga, O Afogado, e a abertura do romance Barco a seco, de Rubens Figueiredo, boas páginas da nossa literatura que tratam de quase-afogamentos no mar. “Ele prefere ser lançado contra as pedras, ainda que se arrebente todo”. Mas por aqui não há pedras, constato. “Existe um limite para tudo”. Exceto para a imprudência, replico comigo mesma.
Esperei algumas ondas quebrarem para retornar à barraca, onde o jornal com as notícias alarmantes e uma ou outra crônica amena me esperava. A latinha também me aguardava, encostada ao pau da barraca, curtindo uma sombra fresquinha. Antes de mergulhar no jornal, desconfiei de que a cerveja ainda estivesse gelada. Aliás, desconfiei mesmo de que houvesse alguma cerveja naquela lata. Peguei-a. Sim, estava pesadinha, mas, pelo tempo em que estive na beira da água, a cerveja devia ter virado um caldo quente. Pelo sim, pelo não, provei. Geladíssima. Virei todo o conteúdo de um gole só.
Praia dá mesmo muita sede. Debaixo da barraca, a salvo do sol e do mar, saboreando minha cerveja gelada, constatei que as ondas, ironicamente, haviam se acalmado. Os curiosos, antes aglomerados à beira-mar, assistindo ao espetáculo de salvamento, já haviam se dispersado. O mar, pacífico, era agora uma imensa fita azul-royal ligando gentilmente entre si os continentes, as línguas, os costumes. Por mais diversos que estes sejam.
Do nada, ele apareceu, reclamando a latinha, cheio de razões que a minha razão desconhecia. Segurei firme o alumínio. “Que desaforo”, pensei. E em voz alta: “moço, a latinha ainda não está vazia. Calma aí”. E ele: “cadê a cerveja?”. “Já disse, a lata ainda está cheia”. “Não está cheia, não”, retrucou, “estava pela metade. Quero a minha cerveja”. E a ficha começando a cair: “Cerveja? Sua cerveja?”. “Sim”, continuou o homem, “essa cerveja é minha. Pedi para deixar aí enquanto dava um mergulho”.
Olhei para meu filho, que a essa altura, assistia à discussão impassível, sentado na cadeira vermelha, exibindo apenas um leve sorriso no canto da boca. O garoto esclareceu: “É, mãe, essa cerveja é dele mesmo. Quando você estava na água, ele me pediu para guardar a latinha debaixo da barraca”.
Sorriso amarelo, sem saber que fizesse: “É mesmo?!”. E para o garoto, que calmamente passava filtro solar: “bom saber. Assim, não deixo você tomando conta da minha cerveja”.

1 Comments:
Oi Isabel Pires!
Acabei esbarrando no seu blog, após ler um ótimo pedaço de texto seu na página do Gustavo Bernardo.
Adoraria publicar o pedaço de texto "Lois Lane" na minha página na internet:
jonasnepomuceno.wordpress.com
no post, colocaria um link para o seu blog...
obrigado pela atenção,
Jonas.
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