Wednesday, July 06, 2011

A arte de andar de ônibus nas ruas do Rio de Janeiro


Isabel Pires

“Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar. É fatigante o exercício?”. (João do Rio, in A alma encantadora das ruas).

 Quem costuma pegar ônibus no Rio de Janeiro sabe que a arte de andar de ônibus nesta cidade pode ser, também, a arte de chorar nos ônibus que circulam no trânsito carioca. Os usuários dos transportes coletivos do Rio estão sujeitos a toda sorte de fatores: trânsito ruim, carros nem sempre em perfeito estado de conservação, passagem cara e motoristas despreparados para lidar tanto com o trânsito quanto com o público. Muitos deles parecem mesmo esquecer a função primordial para a qual são contratados, sem o que a sua existência não teria sequer sentido: recolher e desembarcar passageiros nos pontos distribuídos ao longo das vias públicas. Do lado dos motoristas, as reclamações também são muitas. Pesquisa realizada em 2008 pelo psicólogo Haroldo Willuweit de Oliveira, da UnB, lista os principais problemas enfrentados pelos motoristas de ônibus interestaduais e de caminhões, mas pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que os mesmos fatores são enfrentados também pelos motoristas urbanos: condições estressantes de trabalho, geradas tanto pelas péssimas condições das estradas (no caso dos motoristas urbanos, pelo péssimo trânsito) quanto pelo excesso de horas de trabalho, má remuneração, ônibus sem manutenção. Isto sem falar nos assaltos, que preocupam tanto motoristas quanto passageiros.
Para tentar resolver o problema do congestionamento no trânsito, a prefeitura do Rio criou recentemente o “bilhete único”, um cartão eletrônico que permite ao seu portador tomar até duas linhas de ônibus diferentes num intervalo máximo de duas horas, pagando por isto o valor de apenas uma passagem. Não se sabe ao certo se o que estaria por trás dessa medida – que, sem dúvida, traz algum benefício para o trabalhador – é o fim dos ônibus “bairro-a-bairro” como tentativa de desafogar o gargalo no trânsito em pontos cruciais do Rio, como Copacabana, por exemplo, saturada já de tantos ônibus que por lá transitam.  Adicionalmente, o bilhete único pode ser uma forma de atrair os passageiros para o uso dos bilhetes eletrônicos, evitando assim o acúmulo de funções que se verifica em alguns ônibus, nos quais o “motorista júnior” – categoria que denomina os ex-cobradores que aspiram ao cargo de motorista e são designados pelas empresas para dirigirem micro-ônibus – também é obrigado a fazer as vezes de cobrador.
As empresas de ônibus também parecem empenhadas em melhorar seus serviços, disponibilizando ao público números de telefones que recebem reclamações, elogios ou sugestões para os serviços prestados. Também já foi veiculada durante algum tempo na TV campanhas apresentando o motorista de ônibus como um “amigo” que leva o trabalhador até o seu trabalho e a sua casa, numa clara tentativa de valorizar o profissional do volante aos olhos do público, que teria como resultados uma diminuição nos conflitos entre passageiros e motoristas e a melhoria do serviço prestado.
O treinamento dos motoristas, no entanto, continua sendo um ponto crítico na real melhoria dos transportes coletivos de ônibus do Rio de Janeiro, pois ainda o que se observa no dia-a-dia, com raras exceções, dignas de elogios, é a arbitrariedade do “piloto”, a desatenção com o passageiro – sobretudo com o idoso – e muitas vezes a inabilidade na prática da direção. A exceção fica por conta das motoristas de ônibus mulheres que, segundo reportagem publicada pelo Jornal do Brasil em 02/09/2008, são mais atenciosas e cuidadosas, colocando em prática os princípios da direção defensiva.Os passageiros, por sua vez, não se preocupam em enxergar no motorista de ônibus um profissional qualificado – responsável, afinal de contas, pelas vidas que transporta –, vendo-o muitas vezes meramente como uma máquina, um prolongamento do próprio ônibus. No entanto, não sendo uma máquina, mas pessoas que conduzem uma máquina, evidentemente não se aplicam aos motoristas dos ônibus as “leis da robótica”, estando assim aqueles que entram em seus ônibus sujeitos ao livre-arbítrio humano – o que envolve o humor e o nível de stress do profissional e mesmo sua habilidade ao volante e sensibilidade para perceber as dificuldades dos passageiros, notadamente dos idosos.
Uma efetiva melhoria do transporte público de ônibus no Rio de Janeiro envolveria necessariamente, de um lado, uma política de valorização profissional dos motoristas – que tenha por objetivos evitar a estressante “jornada dobrada” e o acúmulo de funções – e, de outro lado, o reconhecimento, por parte das empresas, do passageiro como usuário de um serviço que deve ser de boa qualidade. Quanto à relação motorista/passageiro, esta só pode ser melhorada com a consciência de todos – por meio de políticas de educação para o trânsito – de pertencerem a uma grande cadeia urbana, onde estão inseridos os ônibus, o trânsito, os motoristas e os passageiros.
Afinal, se as ruas do Rio de Janeiro possuem uma alma, como dizia João do Rio no início do século XX, certamente grande parte dela são os ônibus. Tirá-los das ruas é desertificá-las, torná-las sem vida, como se vê nos finais de semana, nos grandes centros urbanos, quando o movimento de ônibus cai, as pessoas estão em casa e as ruas do centro da cidade parecem fantasmagóricas. Para que os ônibus se tornem verdadeiramente a “alma encantadora das ruas”, que tanto buscava o escritor carioca, ainda há muito em que se investir.


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