Monday, October 05, 2009

Andy Warhol versus Benjamin

É comum atribuir-se a Andy Warhol, o "papa" da Pop Art, a frase que diz que, num futuro próximo, todos terão os seus quinze minutinhos de fama, graças à aparição pública de sua imagem. O que pouca gente diz (ou que a maioria omite, tanto faz) é que, na verdade, essa frase não é originalmente de Andy Warhol. Não se sabe se propositalmente ou não, o fato é que a célebre frase tornou-se repetida à exaustão - exatamente como os ícones pops que Warhol "seriava" em seus quadros -, lamentavelmente com autoria equivocada.
Walter Benjamin, em seu texto "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica" - que, pelo visto, não é tão conhecido assim, nem se "reproduziu" tanto quanto a suposta frase de Andy Warhol -, já havia previsto a "fama instantânea de todos". Neste texto, escrito em 1935, o teórico da Escola de Frankfurt, que se dedicou aos estudos sobre a apropriação técnica da obra de arte na sociedade capitalista contemporânea, profetizou também a proliferação em massa de escritores (o que começa a se tornar uma "verdade virtual", demonstrada em tantos blogs). Diz Benjamin:
"No que diz respeito ao cinema, os filmes de atualidades provam com clareza que todos têm a oportunidade de aparecer na tela. Mas isso não é tudo. Cada pessoa, hoje em dia, pode reivindicar o direito de ser filmado. Esse fenômeno pode ser ilustrado pela situação histórica dos escritores em nossos dias. Durante séculos, houve uma separação rígida entre um pequeno número de escritores e um grande número de leitores. No fim do século passado, a situação começou a modificar-se. Com a ampliação gigantesca da imprensa, colocando à disposição dos leitores uma quantidade cada vez maior de órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais e regionais, um número crescente de leitores começou a escrever, a princípio esporadicamente. No início, essa possibilidade limitou-se à publicação de sua correspondência na seção 'Cartas dos leitores'. Hoje em dia, raros são os europeus inseridos no processo de trabalho que em princípio não tenham uma ocasião qualquer para publicar um episódio de sua vida profissional, uma reclamação ou reportagem. Com isso, a diferença essencial entre autor e público está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor" (BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. V. 1. Trad. Sergio Paulo Rouanet. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 184).
Observe-se que, no texto de Benjamin, há um grifo, como se o autor quisesse chamar a atenção para suas palavras. Evidentemente, elas tiveram bem mais que quinze minutos de fama, infelizmente divorciadas de quem primeiro as pronunciou.

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